POR OUTRO LADO...

quinta-feira, 31 de maio de 2007

BAÍA


Hoje, noite de lua azul, cheia pela segunda vez nesse maio que termina daqui a pouco.

Muitas lendas dão conta de que é um momento especial para se harmonizar com as forças da natureza e deixar-se iluminar.

Tomara que, deixando-se ou não, esse lugar aí em cima receba todas as bençãos que for capaz de merecer.

Lua, moça gostosa, um dia voltaremos a nos ver nesse canto da galáxia.

Lembra como era bom?

OCUPAÇÃO DA REITORIA: SERRA DEVOLVE O MICO


O governador de São Paulo, José Serra, respondeu com grande precisão e habilidade ao movimento da comunidade da USP, que ocupa a quase um mês sua reitoria, reinvindicando o respeito à autonomia das universidaes estaduais na gestão de seus recursos, entre outras exigências.

O decreto publicado por Serra hoje no Diário Oficial consegue esclarecer o assunto, recuando inteligentemente, ao mesmo tempo em que colocará a opinião pública contra o movimento se este não entender que foi esvaziado com o ato do governador.

Sobre isso, leia
aqui a esclarecedora matéria de Mariluce Moura, diretora de Redação da Revista da Fapesp, publicada hoje no Blog do Noblat.

quarta-feira, 30 de maio de 2007

REGINA IGEL

Uma das melhores coisas que se ganha blogando são os novos amigos. Espero ter ganhado mais uma ontem.

Foi assim, recebi um e-mail ontem de uma brasileira que mora há muitos anos nos Estados Unidos. Elogiou os textos do blog –o que de cara me fez concluir tratar-se de uma pessoa muuuuito generosa- e fez críticas ao post “Foca Guilherme”, publicado dia último dia 20.

Apontava eloquentemente a inconsistência do que leu por conta da falta de foco e do abuso da generalização. Disse também que os exemplos usados para sustentar a opinião expressa eram inadequados, na medida em que não pertenciam à classe média o garoto coreano que matou 32 pessoas em Virgínia, USA e a menina paulista que participou do assassinato dos pais.

Confesso que tomei um susto, jurava que o post era fraco apenas enquantp texto. E voltei a ele imediatamente pra conferir o que pensei ter dito e bingo!, ela estava certa. O post foi mal elaborado e mal desenvolvido mesmo. Errei.

Mas ganhei minha primeira grande oportunidade de ter mais cuidado com esse teclado aqui. É facílimo falar bobagens num blog. Sozinho acumulo as funções de publisher, diretor de redação, repórter, editor, diretor de arte e revisor (esse costuma faltar ao trabalho, o viadinho) e mando ver o que me dar na telha, que beleza!

Acontece que tudo isso vai pro ar e quando isso acontece o blogueiro deixa de escrever só para si. E vira um veículo de comunicação, sujeito a palmas, vaias ou desprezo.

Não posso me queixar de que não tenho recebido bons conselhos. Jacy Sande, Liliana Pinheiro, Marcus Gusmão –gente querida, próxima, com total e solicitada permissão para opinar. Aí vem a Regina e me manda um texto carinhoso, bem escrito e elegantemente contundente na crítica. Não imaginava que isso pudesse realmente acontecer, sabia?

Hoje de manhã fui no Google pesquisar “Regina Igel”. Acadêmica de carreira consagrada nos Estados Unidos, é PHD em Língua e Literatura luso-brasileira pela Universidade do Novo México, professora e diretora de departamento da Universidade de Maryland; livros, artigos, traduções –um currículo de primeira. Vi até umas fotos, no Google Imagens.

Assimilado o golpe, fiquei orgulhoso de sua atenção; logo depois, feliz pela possibilidade de ter uma leitora que talvez me traga uma ótima relação de amizade; por último, uma decisão de alongar um pouco mais a reunião do conselho editorial desse lugar aqui.

Se tem uma coisa que aprendi na minha vida profissional e que levo muito a sério é o comportamento do consumidor. Quando ele te dá a chance de conhecer sua insatisfação é um privilégio. Foda é quando ele dá as costa e vai embora sem falar nada. Aí você dançou.

Regina: obrigado por sua atenção e pela chance dada. Volte sempre que puder, falou?

Em sua homenagem, deixo aqui uma deliciosa sequência de Casablanca, com Ingrid Bergman -a mulher mais bonita que deus criou- ouvindo comovida "As Times Goes By". Tô romântico hoje que só vendo. Deve ser esse frio doido que faz em São Paulo.

Beijos, inté

TÔ FORA!

Rixa tribal é uma das coisas que definitivamente me enchem o saco.

Ingleses e franceses, argentinos e brasileiros, corinthianos e palmeirenses, católicos e evangélicos. Pode ter a dimensão que tiver, a disputa pra ver quem é melhor entre grupos é o fim da picada, não tem santo que me faça achar sentido sério nisso. Papo de gente besta.

Mas como mobiliza paixões! as ligadas ao esporte são apenas a ponta do iceberg, as mais visíveis. As que me aguçam os sentidos são, entretanto, as existentes entre cidades e regiões brasileiras.

Nasci em São Paulo, cresci na Bahia, morei em Mato Grosso do Sul e freqüentei muito tempo o Rio de Janeiro a trabalho (e à passeio também, por supuesto!), voltando pra casa no final de semana. Ou seja, minha identidade brasileira é no mínimo difusa e o meu falar não é reconhecido como local em lugar algum onde vou. Tenho uma espécie de sotaque universal, constituído de retalhos de influências fonéticas que recebi ao longo da vida.

Vem daí, provavelmente, essa aversão pelo bairrismo que anima o preconceito contra pessoas vindas de outros lugares. Como acontece no Rio, onde os paulistas são vistos como gente estressada e sem jogo de cintura e aqui em São Paulo, onde carioca é sinônimo de malandro que não perde a chance de levar vantagem sem fazer esforço. Reduções a parte, é claro que são diferentes, os cariocas são mais relaxados mesmo e os paulistas mais "sérios". E daí?

Sacaneiam-se há décadas, principalmente a partir da década dos anos 20, quando São Paulo começou a dominar a cena econômica brasileira, empurrando o Rio pra uma espécie de sede do castelo do rei. Isso só fez piorar quando o Rio perdeu o status de capital da república depois de Brasília, em 1960. Até a supremacia cultural foi perdida para os endinheirados paulistas, restando aos cariocas fazer o que sabem desde crianças, gozar com a cara dos paulistas com expressões do tipo “a praia dos paulistas é o rio tietê!”.

Sacaneiam-se na verdade por quê morrem de inveja, uns pela lindeza do lugar e outros pela pujança financeira. E talvez porque não entenderam que o môlho do Brasil são suas nuances, sua mistura. Não sacaram que as diferenças é que nos fazem melhores.

São as lendas nacionais consagrados em mesa de bar que animam essas conversas. Paulista trabalhador, baiano preguiçoso, mineiro desconfiado, gaúcho valente –um monte de bobagens engraçadas, não pode ser mais que isso, tenha dó.

Os baianos são cismados com a falastrice dos cariocas e a recíproca só não é verdadeira porque o povo do Rio leva tudo na galhofa, muito mais que os baianos. Uma rixazinha que eu sempre registrei no âmbito das diferenças que contam pra valer. Por exemplo, baiana samba de perna fechada e pra trás; carioca de perna aberta e pra frente. O resto é besteira, como a discussão se o samba nasceu ou não na Bahia. Adoro a explicação de que nasceu sim mas foi criado no Rio!

Comparar culturas pra mim é como comparar mulheres, tarefa de doido. É intrinsecamente impossível, principalmente se o desejo for complicar ainda mais introduzindo o viés da origem regional.

Ou nacional, como no caso das duas únicas namoradas nascidas fora do Brasil que tive, uma francesa e uma alemã. Aprendi com elas a desconfiar da fama que as precedeu. A francesa foi a mais germânica das mulheres que tive –imperial e pouco criativa; a alemã gozava em francês, u-lá-lá!

Vou nessa, deixando aqui um músico fantástico que conheci tempos atrás acompanhando Ione Papas, baiana que tá por aqui batalhando sua carreira de sambista de primeiríssima. Ione, que nasceu Moreira e foi colega da Escola Técnica Federal da Bahia. Figuraça linda e sempre acompanhada de Ronaldo Rayol, que canta aqui pra gente “Maracangalha”. Se você gostar dele ao piano, não imagina o que o cara faz com um violão toda semana no Barnaldo Lucrécia, no Paraíso, acompanhando Ione...

A pesquisa de hoje é a seguinte:

"Na sua opinião paulistas e cariocas sacaneiam-se o tempo todo porque:"

a) Os cariocas morrem de inveja da grana dos paulistas.

b) Os paulistas não suportam a idéia de que os cariocas vivem melhor, mesmo sem grana.

c) São esquisitos mesmo, uns aos olhos dos outros.

d) Por quê...

Beijos, fuuuiiiiii!!!!!!!


terça-feira, 29 de maio de 2007

NA PAUTA

O governo Hugo Chaves não renovou a licença do canal de TV aberta RCTV, como todo mundo viu. Ok, o fato em si não é um ato de força, está previsto nas leis venezuelanas. Mas é revelador quanto à completa indisposição desse governo de tolerar o contraditório e isso é muito ruim. A elite venezuelana é atrasada mesmo e serviu-se fartamente dos serviços da RCTV para derrubar Chavez na tentativa de golpe de estado de 2002. O que não justifica, contudo, o caminho fácil do governo em calar a voz da oposição tirando o canal do ar cinco anos depois. Incompetência política e truculência, esses são os nomes das escolhas feitas por Chavez.. Inadmissível.

Jurei pra mim mesmo que não trataria do assunto Clodovil Hernandez por aqui. Desisti depois de ver ontem à noite mais uma entrevista dele na televisão. É um circo de horrores ver um cara babaca como aquele sendo iluminado 24 horas por dia pela imprensa, na qualidade agora de deputado federal. Preconceituoso, arrogante, frívolo e absolutamente rasteiro em quase todas as colocações que faz. E pra completar, seus surtos de misoginia estão ficando mais agudos e freqüentes, como vimos no episódio com a deputada do PT. Ninguém merece a Clodovéia!

A cidade de São Paulo vai ficando com uma cara cada vez melhor com a redução da poluição visual causada pelo uso destrambelhado de faixas, outdoors e fachadas comerciais. A histeria da comunicação visual vai dando lugar a uma cidade mais bonita e elegante. Que bom seria se a prefeitura tomasse gosto pelo assunto e mandasse pro subsolo os fios de telefone, elétricos, de TV e todo esse cipoal que enfeia nossas ruas tanto quanto a mídia externa.

O Renan poderá até ser cassado por conta das histórias trazidas a público nos últimos dias. Vai ser difícil provar que não tinha uma relação de “parceria” com empreiteiros. Mas quer saber de uma coisa? Pelo tom dos depoimentos dados após seu discurso no senado ontem fiquei com a impressão de que ele vai escapar ileso dessa história, a menos que as provas apresentadas sejam claras demais.

Arrá! hoje tem pesquisa de opinião aqui no Blog do Galinho. Responda no campo “comentários” à seguinte questão:

"O senador Renan Calheiros aparentemente teve contas pessoais pagas por um lobista peso-pesado da construção civil. Na sua opinião isso aconteceu porque:"

a) O tal do Cláudio Gontijo é muito brother e não tem apego a coisas materiais como dinheiro.


b) O senador Calheiros é distraído e nem se deu conta que abusava do brother Gontijo.


c) O Gontijo na verdade comia a jornalista há tempos e assumiu a moça e sua filha. Distraído, esqueceu de contar pro Calheiros.


d) Dê sua própria explicação, se conseguir.

É isso, fui. Ficam: Armandinho Macedo e Yamandu Costa, gênios vivos da música instrumental brasileira que pagam suas próprias contas.



segunda-feira, 28 de maio de 2007

MÃE


São Paulo esteve gelada nos últimos dias, com mínima andando na casa dos seis graus. Abaixo de 10 é uma tortura sair de casa pra correr ou pedalar, tenho ficado na caverna -por esse, entre outros motivos. Tempos de grandes dificuldades em mim e no que me cerca, todos os indícios postos de que mais um grande corte está se operando na minha emocionante vida. Já nem reclamo, apenas me aflijo no mínimo que consigo.

Entro nesse tempo que parece se abrir diante dos meus olhos mais pobre e definitivamente despojado da ilusão do amor eterno. E lembrando da minha mãe, quando tava na hora de ir pra cama e ela vinha me cobrir e beijar. Lembrança doce e aconchegante, vontade de voltar a ser menino só pra vê-la levantar o lençol bem alto, conduzindo-o suavemente na descida para cobrir meu sono com seu amor.

A emoção do primeiro violão e dos primeiros livros que ela comprou pra mim, ainda criança, constituíram a metade sonhadora da minha alma, desde então em permenente conflito com a metade que queria ficar rica e ir passear na China.

Foi nela que encontrei a aflita anuência para fazer política no final dos anos setenta, época em que a ditadura militar ainda tinha braços musculosos e ativos cassetetes pra dar porrada em estudante. Minha inclinação para essa vivência possivelmente nasceu das preces por ela ensinadas, tantas vezes dirigidas a quem naquele momento “não tinha uma cama quentinha pra dormir”.

Comprei-lhe uma boneca preta que batizei Natasha e fez seus olhos brilharem. Se pudesse voltar no tempo, teria enchido seu quarto de muitas outras bonecas, o que não teria me proporcionado mais do seu amor mas me daria a oportunidadede vê-la feliz e reconhecida na minha gratidão.

Brigamos algumas vezes e sempre fui perdoado, mesmo quando parecia ter razão. Como todas as mulheres de Oxum, mamãe tinha na doçura, no jetinho, a fórmula mágica de fazer-se querida e respeitada por seus cinco filhos homens. Nenhum deles, até hoje, esteve apartado do seu controle e de sua proteção, mesmo quando a arrogância os fez sofrer e o mundo lhes deu as costas. Menos ela.

Aos 74 anos, Maria da Glória Galo detesta quando qualquer dos seus filhos a chama de Dona Maria. É mãe ou mamãe, não abre mão da justa reverência a quem sempre disse que os melhores momentos da vida foram aqueles em que aguardava o nascimento de cada um de nós.

Durante muito tempo achava que era um artifício para cativar e demonstrar o quanto éramos importantes pra ela. Hoje vejo clarinho, clarinho que não, que ela foi mesmo feliz sendo mãe e que amou profundamente a cada uma de suas crias.

Do fundo da minha caverna saio apenas para buscar a certeza do seu colo, pra onde sempre vou quando a vida vem mudar tudo de lugar. A certeza do seu amor afoga o sofrimento e seu lençol continua me acalentando e protegendo.

Fui, deixo beijos e Pavarotti cantando pra Maria.

sábado, 26 de maio de 2007

BRAVO!


Enquanto formam-se filas e mais filas em todo o Brasil pra assistir Homem-Aranha e Piratas do Caribe, assisti sozinho na sala Aleijadinho do HSBC Belas Artes ao excelente “Esses Moços”, de José Araripe Jr –seu primeiro longa-metragem.

Saí do cinema feliz da vida de ver a Bahia tão bem reproduzida. O filme é pura poesia mesmo, em nada lembra o sofrível Ó Pai Ó! da Monique Gardenberg. Nós, os baianos, estamos redimidos. E nós, os paulistas, bem contentes.

Fotografia e direção de arte impecáveis, Salvador surge belíssima na telona em grandes planos da Cidade Baixa, onde boa parte da trama se desenrola. Bom rever a Feira de S.Joaquim, que já havia sido bem percebida no ótimo "Cidade Baixa", de Sergio Machado.

Inaldo Santana manda muito bem no papel do velho Diomedes e as meninas são excelentes. A mais velha certamente fará menos sucesso entre o público: sua personagem carrega toda a dureza de quem já tão nova sacou que tá fudida e precisa se proteger agressivamente de tudo e de todos, sempre.

A mais novinha encarna a doçura esperta de uma menina baiana. Carinhosa, chameguenta, alegre. Ri bem da aspereza que a cerca e que ainda não avalia em toda sua extensão, como já faz a irmã mais velha.

Um roteiro esvaziado de glamour e repleto de belas imagens de uma cidade que não merece tantos séculos de maus tratos como Salvador. A cadência é suave e a montagem do filme colaborou muito para que isso acontecesse.

As críticas que li hoje não são favoráveis a Esses Moços. Li a do Cláudio Marques (Coisa de Cinema) e um texto da Reuters publicado no UOL. Fiquei com a sensação de que não vi o mesmo filme que esses críticos.

Nada há de caricato, ao contrário, Salvador é lindamente filmada naquilo que ela predominantemente é, uma cidade bonita, pobre e mal cuidada. Araripe conseguiu captá-la nobre em sua pobreza e saiu-se muito bem da armadilha de uma narrativa sociologizante. Quis e fez uma obra narrada em tom de poesia, sem compromisso no apontamento de soluções para o grave problema da exclusão social e focado nas personagens das meninos e do velhinho. Golaço.

Há quem preferisse assistir uma denúncia mais contundente. Eu achei ótimo ver todas essas mazelas tratadas com suavidade e lirismo. O drama dessas pessoas me incomodou do mesmo jeito mas como é bom lembrar que elas não são estatísticas, não são teses de doutorado ou motes de discursos políticos.

São gente de carne, osso e sensibilidade. Matéria prima muito bem tratada pelo poeta-cineasta Araripe e sua equipe. Amei.

Volto amanhã. Deixo quem chegar por aqui com um pouquinho da batucada majestosa do Olodum. Beijos, fui!


sexta-feira, 25 de maio de 2007

DÓI MESMO


Experimente tirar umas horas pra navegar pelos blogs publicados em língua portuguesa. Você vai ficar perplexo com a quantidade e com a multiplicidade de proposições praticadas em suas páginas. Tem de tudo, desde diário de adolescente aos blockbusters da imprensa, geralmente ancorados pela especialização de seus autores, como o Nassif em economia e o Noblat em política .

Gente se expressando por motivos aparentemente banais, por razões profissionais, por claro desejo de auto-promoção, por conhecimento técnico de algum tema –enfim, motivos não faltam para dar vazão a esse recente fenômeno da veiculação de opiniões pessoais chamado blog.

Seu boom foi entre 2004 e 2005 e de lá pra cá não parou de crescer exponencialmente. E não há nada que indique que esse big bang está prestes a perder sua força. Ao contrário, o número de pessoas conectadas à internet no Brasil cresce na razão do aumento da renda das famílias, do barateamento do acesso à rede e no potencial de venda de computadores, um dos segmentos econômicos de mais vigorosa expansão nos últimos anos.

No seu rastro, mais e mais pessoas encontram nos blog um mecanismo de comunicação eficiente, barato e capaz de fazer-se visto por uma quantidade enorme de pessoas. Ou de ser olímpicamente ignorado se não cativar seu público-alvo pela relevância dos temas e/ou pela originalidade e bom desenvolvimento de suas abordagens.

E aí mora o inferno dos blogueiros não-temáticos, aqueles que fazem de seus espaços blogosféricos uma espécie de parlatórios eletrônicos postos à serviço de suass opíniões sobre temas que vão de atracamento de navio a parto de onça, no dizer de Claudia Moura. Especializar-se no difuso exige muito de criatividade e bons textos, um drama pra quem não nasceu Drummond de Andrade ou Mino Carta e quer pôr a cara pra bater. Ou ganhar afagos.

Não é fácil aceitar a exposição pública e suas conseqüências, agradáveis ou não. Blogs não têm técnicas consagradas e ninguém sabe ao certo quais farão sucesso, por quais motivos e para quem. Isso ainda é um mistério, mesmo para uma jornalista experiente e talentosa como Liliana Pinheiro, que foi editora da versão eletrônica do Primeira Leitura e tanto tem contribuído para essa experiência aqui com sua devastadora e bem vinda generosidade. Não houve tempo suficiente para fazer das experiências bem-sucedidas e das fracassadas uma massa crítica capaz de iluminar essa questão.

Diante disso, bloga-se por tentativa e erro. No caso desse terreirinho aqui, bloga-se pela simples vontade de oferecer, a quem se interessar por isso, um relato pessoal sobre o que parece importante destacar no meio de tantas informações, de tantos acontecimentos e uns muitos devaneios. Blog é obra autoral e não carece de consensos. Gosta-se ou não, simples assim.

Olho pra o que já foi publicado aqui e muitas vezes digo “meu deus, como isso ficou ruim!”; em outros momentos sinto um discreto regozijo por um ou outro post. Essencialmente, contudo, percebo a cada dia que é a mim que ele serve, é pra entender o que vai na minha alma que escrevo, pesquiso imagens, edito e publico. Encante ou não a quem chegar, seu propósito está cumprido com o pressionar da campo “publicar postagem”. A vontade de agradar mais e mais pessoas não consegue superar isso.

O uso recorrente do olhar irreverente, do humor, da polêmica revelam-se formas aparentemente eficazes para provocar o comentário e para atrair novos leitores. Nenhum recurso estilístico, porém, me parece mais importante que deixar fluir a dor da criação, expor-se com coragem e criatividade, verticalizando radicalmente a busca da emoção sem o menor compromisso com o “sucesso” do comentário ou do contador de acessos. Só isso é capaz de justificar a publicação de um blog, seja ele legal ou não aos olhos de quem lê.

Certamente muita coisa vai mudar por aqui com o passar do tempo, inclusive temas, abordagens e estilo. Uma não vai não, já tá aprendido: a decisão de peitar a dor de olhar pra dentro e ver-me humano, limitado, carente de progressos em vários planos. E com vaidade suficiente pra testar a paciência das pessoas –ou sua ausência, o tempo dirá.

Vou nessa, volto amanhã pra dizer o que achei de "Esses Moços", longa que entra em cartaz hoje em São paulo, Salvador e Brasília. Deixo aqui a batida do Metallica com o clássico “Enter Sendman”. Pode aumentar o som que a porrada da bateria e da guitarra fazem o resto.

quinta-feira, 24 de maio de 2007

O ENTERRO DE BACURINHA


Nenhum acontecimento, por mais espetacular que fosse, seria capaz de abalar a rotina de Mutá, cantinho da Bahia onde o lento passar do tempo foi levado às últimas conseqüências. Notável vocação para o prosaico, para o suave vagar das horas. Rápido mesmo só aratú em pé de mangue.

Mas nem mesmo a inadequação do espetacular ao cotidiano de Mutá foi capaz de não provocar um certo rebuliço entre seus habitantes e veranistas quando Bacurinha morreu.

Figura lendária do lugar, era querido por todos. Boa prosa, prestativo e ótima companhia para uma garrafa de pinga com caju e sal, Bacurinha morreu aos poucos, consumido pelo cigarro. Suas outras mulheres, moradoras das vizinhas Pirajuía e Cações em nada contribuíram para o seu fim. Ao contrário, fizeram feliz sua existência, até o seu fim.

O gosto pela pinga também não merece o crédito. Nunca foi visto às quedas, derrotado pela manguaça. Bebia todo dia, é verdade, mas nunca parecia exagerar, embora muitas vezes tomasse tudo o que podia.

Tava mortinho, mortinho na manhã de uma segunda-feira de carnaval. Completaria 65 anos no dia seguinte. Brevíssimas lágrimas e lá se pôs dona Nicinha a organizar imediatamente o velório do marido na sala da casinha humilde. O povo ia chegando, olhando o defunto, abraçando a viúva e indo cuidar da vida. Até aquelas duas mulheres, que não eram do lugar mas mostravam-se discretamente tristes.

“Cadê a porra do caixão que não chega pra gente enterrar esse homem, meu deus?”, perguntava Edson, veranista amigo do casal e vizinho de cerca. Deusdete, vereador em Jaguaripe, prometera trazer um o mais rápido possível. Mas rapidez era um comportamento estranho aos hábitos locais, como já expliquei, o caixão só foi chegar perto das seis da tarde. Já tava todo mundo envergado com a cachaça servida por seu Zeca, dono da única venda, em homenagem a um dos seus mais assíduos clientes, ali estirado na mesa da sala, iluminado por pequenas velas.

Só quatro homens apresentaram-se pra carregar o caixão até Pirajuía, onde ficava o cemitério, pouco menos de dois quilômetros dali. Tarefa mole –Bacurinha não devia pesar mais de 50 quilos- se eles não estivessem tão estragados quanto os outros. Mas não deixariam o amigo sem um enterro cristão, isso é que não. Seguiram pela estrada, que insistiu em balançar desde o primeiro passo.

Duas horas depois e mais duas garrafas de cachaça já tinham lavado as gargantas insaciáves daquele féretro cambaleante. No caminho pararam dezenas de vezes pra aprumar a visão e brindar ao defunto. Numa dessas vezes, também pra ir buscar o corpo, que rolou pro mangue após a queda do caixão, perto da curva da carambola.

Chegaram e foram direto pra casa do coveiro, passava das dez da noite. Sorte que restava pinga pruns três goles bem servidos, não fosse isso Toinho Coveiro não sairia de casa nem sob tortura. As palavras finais, ditas ao pé da cova por Edson resumiram o espírito iconoclástico daquele povo de Mutá: “Bacurinha...vá com deus!”. E Bacurinha baixou enfim à terra, diante de cinco pares de olhos mamados. Merecia pelo menos a homenagem desses três aí de baixo, cantando Manhã de Carnaval.

Fui, volto amanhã, beijos pra quem fica.

quarta-feira, 23 de maio de 2007

A SOLIDÃO E O MAR


Manhã de sol amarelo e mar em espelho. Caminhar lentamente pela franja do mar azul de Mutá é um dos mais antigos prazeres que consigo lembrar. Praia deserta, água até o tornozelo, o único som era dos meus pés, a alertar os inúmeros crustáceos e moluscos que corriam pro fundo ao me ver chegar bem perto, quase em cima. Não carecia de tanta precaução, estava em missão de paz e de fruição da solidão, não pretendia causar tristezas entre eles, esmagando um ou outro.


Nada mais cabia nesse caminhar de comunhão entre meus pensamentos e aquele lugar. Apenas o suave delírio de um sentir-refletir que nunca mais me abandonaria - mesmo depois, quando Mutá já não mais estava ao alcance dos meus olhos.


Meus pés, que hoje caminham sob chuva e frio no mar de Domingas Dias, 2.000 km ao sul de lá, o fazem carregando sonhos insepultos e flores. Deixo-as à beira e fico a ver o que acontecerá. Serão recebidas ou devolvidas à areia?


Espero. E dou passagem ao rito, deito-me. O céu cinza que me molha o rosto longamente pisca finalmente seu olho entre as nuvens. Um ponto claro, pequeno, mas cheio de significâncias. O deserto de minhas esperanças começou a morrer.


Levanto-me, as flôres já iam longe, mar adentro. Está feito, hora de voltar. E de reaprender a caminhar só.


No caminho ficou um pequeno guia de viagens. Tomara que pessoas felizes o encontrem e que ele os oriente para lugares onde o amor espreita os que caminham em busca de paz.

terça-feira, 22 de maio de 2007

OVERVIEW



Estréia dia 25 próximo o longa "Esses Moços". A julgar pelo trailer, parece tratar-se de um belo filme, vale a pena conferir. A trama se desenrola em Salvador e quem assistiu a exibição nos festivais de cinema dentro e fora do Brasil elogiou muito a abordagem delicada feita pelo diretor José Araripe Jr ao drama dos excluídos na capital baiana. Aqui em São Paulo no HSBC Belas Artes (quase na esquina da Consolação com a Paulista); no Iguatemi de Salvador e na Academia do Tênis, em Brasilia. Mais informações no blog de divulgação do filme, AQUI. Acho que vai superar minha decepção com o caricato Ó Paí Ó!.

O que faz um homem meter na cabeça que vai plantar sozinho e às próprias custas centenas e centenas de árvores ao longo da Anchieta, uma das rodovias de ligação da baixada santista à cidade de São Paulo?; e um outro que também sozinho resolveu replantar palmito juçara no vale do ribeira, região sul do estado de São Paulo?; e aquele que lá numa cidadezinha de Goiás começou a recuperar as carteiras escolares depredadas pelos próprios estudantes e conseguiu envolver toda a comunidade nisso? esses são apenas alguns dos muitos exemplos de responsabilidade social que o povo brasileiro pratica sem que o poder público estimule ou apoie. Sem contrapartida de descontos no imposto de renda nem benefícios de imagem. Fazem porquê querem viver num ambiente melhor, simples assim. Acham que devem fazer a sua parte e fazem, metem a mão e fazem. Tem centenas de milhares desses caras por aí, prontinhos pra serem mobilizados e superarem a ineficiência de prefeituras, estados e municípios no alcance das artérias sociais mais finas. Até quando lutarão sozinhos?




Romário marcou seu milésimo gol, graças a deus, não aguentava mais a imprensa enchendo o saco com esse feito, que inclui jogos de casados X solteiros na contagem. Tá bom, a imprensa foi na onda, fechou os olhos e sapecou manchetes e mais manchetes. Chega, né?


Bolsa de valores bombando; contas externas em azul turquesa; inflação morrendo de inanição; risco-país abaixo da média dos emegentes e caminhando pra 100 pontos até o final do ano; investimentos gigantescos na educação e na infra-estrutura; um último degrau para o investiment grade, que vai trazer do exterior um maremoto de recursos para a economia real; crescimento do PIB de 2007 prometendo encostar nos 5%; SELIC caminhando pra 10% até dezembro; inédito crescimento de empregos formais; recorde histórico de financiamentos para a habitação e saneamento, bem como de investimentos estrangeiros diretos; ações vigorosas da Polícia Federal e do Ministério Público, desmontando quadrilhas infiltradas nos governos, a sinalizar que a corrupção endêmica está sendo combatida pra valer; uma revolução já iniciada com o álcool combustível e o biodiesel A oposição fica sem discurso a cada novo dia, o iletrado Lula conduz o Brasil a passos largos para um ciclo virtuoso de prosperidade com distribuição de renda, pela-primeira-vez-nesse-país. Tá mandando bem, para o desespero de alguns e sorte da maioria.




Mas nem tudo são rosas. O dólar derretendo desse jeito impõe graves riscos de desindustrialização na país. Sai mais barato comprar componentes chineses e montar produtos aqui e isso é ruim de verdade a médio prazo. Por outro lado a reforma tributária continua engasgada. A rearrumação do pacto federativo em torno da divisão do (enorme) bolo tributário continua a desafiar o governo, que sabe ser esse um nó estratégico para desatar o crescimento. A carga tributária brasileira é obscena e terá que diminuir fortemente para que as empresas diminuam seus custos e preços. Fora da reforma é só gambiarra em cima de gambiarra pra compensar com renúncia fiscal os efeitos do câmbio para os blockbusters da exportação. Na fila também, com igual importância, a reforma trabalhista, a modernização gerencial do estado e a reforma política. Lula optou pela formação de uma ampla aliança com diversos grupos políticos, principalmente com o PMDB, para emplacar essas reformas no congresso. Os governadores Serra e Aécio fazem parte desses entendimentos, na qualidade de pré-candidatos à presidência em 2010. É óbvio que eles gostariam de receber um país ajustadinho, com todas as reformas estruturantes realizadas, inclusive as impopulares.


É inacreditável no que tornaram as aldeias indígenas aculturadas. Não produzem nada, nem um pé de mandioca e criam graves problemas ambientais com a extração e venda ilegal de madeiras nobres e pedras preciosa em suas reservas, sempre com a cumplicidade de alguns antropólogos, da grande (grande?) imprensa e de setores do Ministério Público. Chantageiam o estado em nome das atrocidades praticadas pelos bandeirantes e por grileiros. Tô tomando uma birra do cassete com esses índios, sabia?

O clima do Pan tá esquentando e como na época das Olimpíadas fico pensando o que seríamos capazes de fazer se tivéssemos políticas públicas estrategicamente elaboradas e cuidadosamente implantadas nos três níveis de governo. Nada menos que um celeiro de recordistas, não faço por menos; os murmúrios de que altos acertos financeiros foram realizados na calada da noite são fortes.



O Rondeau vai dançar. E muita gente vai com ele. O Brasil tá mudando mesmo, os esquemas de corrupção terão que ser reciclados e os riscos serão cada vez maiores pra quem compra e pra quem se vende. O gargalo está na Justiça, tá corrompida de cima a baixo.


E o Jardel Gregório, cara? vai pular longe assim no raio que o parta, hein negão?!

segunda-feira, 21 de maio de 2007

O RECÔNCAVO DOS MEUS MEDOS


O vislumbre de uma forma de morte me fez acordar às 03:30 da manhã de hoje. Levantei da cama inquieto e aflito, liguei o computador, naveguei bom tempo pra ver se as emoções que me despertaram se dissipavam.

Funcionou e por volta das cinco já tava no berço, a sono solto.

Há tempos que não dava bola pros meus sonhos, como hoje. São frequentemente tão surreais que cansei de tentar investigar possíveis sinais que pudessem me orientar a partir do momento em que estivesse novamente com os pés no chão, pronto para mais uma jornada.

Não dá. Não li Jung o suficiente, não faço psicoterapia, nunca me submeti a uma sessão de hipnose ou de regressão a vidas passadas. Não que tudo isso passe longe do meu interesse ou necessidade. Adoraria poder investigar os escaninhos da minha inconsciência com a ajuda de quem tem as ferramentas adequadas para isso e saiba manejá-las com conhecimento e sensibilidade. Mas não o fiz até agora, por negligência ou inconfessado receio. Ou quem sabe pelo desalento causado pela inacapacidade de entender o que penso quando acordado.

Estava diante de alguma situação corriqueira, num ambiente com pessoas produzindo um certo alarido, quando fui abduzido numa fração de segundo e remetido à órbita de uma esfera branca, onde tudo era silêncio e imobilidade. Ali fiquei tempo suficiente para tentar entender o que acontecia e não gostar nem um pouco. Abri os olhos, que porra é essa? e acordei reespirando opressivamente. Manja aqueles sonhos em que você não consegue vencer a imobilidade e sente medo disso? pois é, já sonhei assim também, embora isso não aconteça recorrentemente.

A novidade foi o clique, a transferência súbita de ambiente, como que se eu tivesse sido desligado de onde estava -um lugar como qualquer outro, familiar ao cotidiano- para um completamente desconhecido. Quis entender o que se passara.

Sentei há pouco em frente ao computador. Naveguei no noticiário, li e-mails e fui dar uma xeretada livre por aí, talvez pra dar espaços para à intuição. Deparei-me com o blog do Adenor Gondim, que produz e publica belas imagens da Bahia. Uma me chamou a atenção, é essa que ilustra esse post, aí em cima. O adjá toca pra Yemanjá em Cachoeira, à beira do rio Paraguaçú, ela que no Brasil tornou-se tão popular por herdar de Olokun o patronato das águas do mar mas que não perdeu sua autoridade como senhora dos rios. O mito da gênese de Yemanjá, a propósito, relata como ela se tornou orixá ao transformar-se num rio, lá na velha África.

Quem sou eu pra não registrar aqui meus temores e minha reverência. Tô começando a até achar bom isso. Arrisco ganhar um afago de Liliana Pinheiro -a mulher, a lenda, o mito- que não perdoa o tom politicamente correto e multiculturalista que muitas vezes inspira esse terreirinho blogosférico aqui. Dois ganhos num só post, nada mal.

Yemanjá é uma deusa poderosa e zela por seus filhos e filhas como uma leoa, até por aquelas que insistem em não compreender o mito de Ogunté, que de espada em punho não se esquiva de enfrentar suas batalhas ao lado de Ogun, seu eterno companheiro. E saem distribuindo porrada cegamente -nelas mesmas, muitas vezes. E em quem as ama, mais frequentemente ainda.

A orixá tem muito do que cuidar e mesmo sem conhecer a fundo o que se passa não hesita em sair na defesa de seu povo. Reverencio suas garras de mãe, primeiro defende depois vai ver do que se trata.

Espero ter me explicado à deusa e que possa dormir em paz hoje. E espero também que ela perdôe minha impaciência com a belicosidade juvenil de suas lindas e cabeçudas oguntés. Se os orixás muitas vezes não toleram as bobagens de seus filhos e os punem exemplarmente, imagina eu que sequer entendo o que se passa dentro de mim numa noite de sono.

Pra ver belas imagens da Bahia pela talentosa lente de Adenor Gondim, clique
AQUI e bom passeio.

Até amanhã, beijos, fui!

domingo, 20 de maio de 2007

FOCA, GUILHERME!


O Market Place é um shopping de tamanho médio situado na movimentada região do Brooklin, aqui em São Paulo. Em frente a um blockbuster, o Morumbi Shopping, e próximo às instalações da TV Globo, na Berrini / Zaidan. Faz parte de seu conjunto duas torres comerciais, que abrigam algumas empresas do porte, por exemplo, da Visanet. Movimentadíssimo, também em função do parque de diversões para crianças abaixo de 5 anos instalado no seu piso térreo.

Foi nesse parque, num domingo desses que vi uma cena inesquecível. Sarah, que foi alçada à condição de neta mais velha depois do nascimento de Mateus, tava lá se esbaldando num daqueles brinquedos quando eu notei uma mãe, algo estressada pelo tom da sua voz e pela expressão do seu rosto, dando instruções ao seu filho Guilherme -que devia ter quatro, cinco anos de idade- todas as vezes que o moleque dava uma volta no carrinho e passava pelo ponto onde nós estávamos.

- Guilherme, segura direito no volante!
- Guilherme, cuidado, não se solta!!
- Guilherme, foca no que você tá fazendo, Guilherme!!!

O moleque olhou pra mãe e pros lados, atônito. Como que a perguntar "foca, que foca? cadê a foca?

A primeira reação foi rir, não pude conter. Logo depois, uma imensa compaixão me fez olhá-los mais detidamente. Tive pena daquela mulher e dele, principalmente.

São Paulo é uma cidade que conspira para a formação de comportamentos competitivos e intolerantes. E a criançada da classe média sofre as consequências disso. Desde pequenos, muitos deles recebem dos pais uma pressão gigantesca para que se tornem adultos preparados para o pugilato diário no trânsito e no mercado de trabalho.

Escola, aula de inglês, de ballet, natação, judô - a agenda deles é árdua e totalmente voltada para sua "qualificação". Ninguém joga bola na rua, ninguém sobe em árvore. Todo mundo repete os mantras da metrópole: preparar para formar homens e mulheres "vitoriosos". Que vão crescer sem ter visto uma galinha de perto ou uma família pobre espremida numa favela -mas vão ocupar postos importantes nas corporações instaladas na cidade, quando terminarem suas faculdades. Ou na administração pública, para o azar da enorme população excluída das periferias.

Essa classe média continua sendo hegemônica por aqui. E a patuléia segue ao seu reboque, sonhando com os objetos de consumo ostentados diariamente diante de seus olhos sedentos de afirmação social.

Um dia, o Guilherme poderá ser o prefeito de São Paulo. Ou se rebelar e virar monge budista, quem sabe? mas pode apostar que é dessa relação severa entre pais e filhos, sob o manto de uma sociedade esquizofrênica e repressiva, que aprendeu a classificar seus cidadãos como vitoriosos e fracassados, que nascem também pessoas como Suzanne Richthofen e como o jovem coreano lá da Virgínia, USA. Ou como os bandos de bad-boys de Brasília e do Rio de Janeiro. Violência praticada por pesoas que não são economicamente excluídas mas que reagem estupidamente contra relações familiares e sociais materialistas e repressoras.

Entre as classes, o ódio está perigosamente maior, a cada ano. Os tumultos em Paris, meses atrás e o confronto com a PM durante o show do Racionais MC na Virada Cultural desse ano ilustram isso. A hostilidade é crescente e terá consequências imprevisíveis se os governos do mundo inteiro não perceberem que a exclusão gera efeitos que não podem ficar no âmbito de suas políticas de segurança pública, como faz o governo de São Paulo.

As migalhas distribuídas arrefecem cada vez menos a raiva das periferias. A violência continuará explodindo mais e mais, vitimando inclusive meninos como o Guilherme e como o João Hélio, no Rio de Janeiro. É passada a hora do preconceito dar lugar ao apoio às políticas de inclusão que o governo Lula tenta implantar, com grande dificuldad, em todo o país. Até quando a indiferença e a mesquinhez política será mais forte que a necessidade históricxa de fazer o Brasil crescer distribuindo riquezas e acolhendo seu povo?

Tomara que o Gulherme cresça e consiga ver que há algo de estragado na sua mãe e na política, tão estragado como o comportamento violento das torcidas organizadas de futebol. E faça sua parte para que o convívio social numa cidade como São Paulo deixe de ser esse salve-se-quem-puder, praticado diariamente por aquela louca que vi no parquinho do shopping e por Madame Sheila no esquete do Terça Insana, aí embaixo.

É só focar na coisa certa, viu Guilherme?!

Volto amanhã, beijos, fuuuuuiiiiiiii!!

sábado, 19 de maio de 2007

O OPALA DO MEU PAI


Blogar é pesquisar muito, oras para intuir um tema, oras para melhor compreender um assunto já eleito, pronto pra ganhar vida com texto e imagem.

Tenho a impressão que seria impossível publicar um blog sem a existência do Google, da Wikipédia e do Youtube. Como só tenho 15 dias no ramo, não arrisco afirmá-lo. Mas que se essas ferramentas não existissem eu não teria nem começado, ah, isso eu juro de pé junto. A menos que eu tivesse as luzes de Drummond ou do Mino Carta pra escrever, o que definitivamente não é o caso.

Digo isso pra dar uma pista de como um vídeo disponível no Youtube pode evocar antigas reminiscências e mover um blogueiro instantaneamente para o encontro de si mesmo e daí pro post.

Como hoje, quando fui buscar nas lembranças da infância os momentos que vivi com meu pai. E lá vi como ele foi e continua sendo importante pra mim e o quanto do seu espírito inquieto, sonhador e fanfarrão povoa a minha alma.

Foi ele quem me ensinou a perseverar, a nunca desistir. Veio dele também um certo impulso de remar contra a maré, sem jamais me deixar amedrontar por isso. É dele também a informação transmitida na forma de compartilhamento de como é bom fazer passeios inesperados, surpreendentes. Ele fez isso muitas vezes com seus filhos e era muitíssimo bom andar ao sabor da curiosidade, ao lado dele. Ou simplesmente pôr a cabeça no seu peito.

Apaixonado pelas mulheres, guardei dele o mesmo sentido de encantamento pela alma delas. Um dos melhores aspectos de sua herança, senão o melhor, devo confessar. O gosto por mocotó e rabada devorados com cerveja gelada em botecos de higiene suspeitíssima ficou em mim também, obrigado.

Inteligência aguda, Leonan jamais conseguiria criar meninos medíocres, mesmo que o quisesse. Conviver com ele era sinônimo de raciocinar rápido e rir muito de suas palhaçadas.

- Tá muito rápido, fala mais devagar, pai!
- Tá bom, mas é só mais uma vez, hein? vamos lá: enfia o dedo no pé de simitode, vai lá em cima e deixa os copos pra voltar aqui primeiro. Entenderam?
- Peraí, enfia o dedo no quê?!
ENFIUDEDONOPEDESIMITODEVAILAENCIMADEIXAOSCOPOPRAVOLTAQUIPRIMEIRO!!-dizia rapidamente para o desespero e riso da filharada.

Foi com ele que assisti meu primeiro jogo de futebol num estádio. Fonte Nova, decisão do campeonato baiano de 1972. Saimos felizes da vida com os 3X1 que o Vitória enfiou no Bahia naquele dia. Nunca esqueci daquela tarde nem da figura dele dando risada na arquibancada.

Seria facílimo passar horas aqui contando "causos" daquele tempo. Mas vou me contentar em dizer apenas que me orgulho dos defeitos e das virtudes de sua alma, pai. Tenho por você amor e gratidão e lamento muito não ter lhe dito isso outras vezes.

Como ainda estamos vivos, não me faltará oportunidade de reparar a negligência e poder te dar um monte de beijos -se você fizer a barba antes, naturalmente.

Trouxe praqui um pequeno presente pra você. É um documentário feito pela General Motors em homenagem ao Opala, quando este estava saindo de linha em 1993. Uma história de sucesso que você ajudou a escrever e que não cansava de contar mesmo depois de muitos anos.

Que nem o povo de Mutá, que até hoje lembra de que foi o Opala do seu Leonan o primeiro carro que entrou lá, um feito épico num tempo em que não havia estrada praquelas bandas.

Saiba, Nan, que eu tenho muito orgulho de suas façanhas e de sua luta. Você é um vencedor, Pai. Ou melhor, Chevolé, como dizia seu Mamede Paes Mendonça.

Beijos, vou nessa, amanhã eu volto.


sexta-feira, 18 de maio de 2007

NOSSA LINDA JUVENTUDE


O único problema de ser jovem é constatar que isso é um presente da natureza somente depois que os primeiros cabelos brancos já chegaram. O que não quer dizer absolutamente porra nenhuma pra quem agora desempenha o privilegiado papel de tomar o mundo de gute-gute.

A vida é um tapa, como breves são os deliciosos anos da juventude. Um espetáculo de viço, de coragem, de poros abertos. Tempo de pagar pra ver qual é, uma liberdade que os anos nos retira, convencendo-nos que nem todas as causas merecem o empenho de nossas energias.

Não há crueldade do destino nisso. Nossas forças vão aos poucos tornando-se mais raras, carecem mesmo de boa administração enquanto escassos recursos que se tornam inexoravelmente com o lento passar dos anos.

Lembro perfeitamente dos muitos acampamentos feitos em Itaparica no fim dos 70, início dos oitenta. A hora de voltar pra casa era quando a grana acabava de vez e o cardápio começasse a incluir coisas pouco elaboradas, como caldo de salsicha com biscoito. Até lá, muito sol, praia, birita, violão, maconha e beijo na boca. Toni Vasconcelos declamando Ferreira Gullar na pracinha da matriz de Mar Grande, que assistiu também em seus botecos aquela meninada da Escola Técnica discutindo acaloradamente se era ou não admissível marchar junto com Magalhães Pinto pela redemocratização do Brasil.

Debates que não mudaram os rumos do país mas tiveram o condão de dar um delicioso sentido às nossas próprias vidas.

Hoje eu ando pelas ruas e me emociono ao ver um casal de 16 anos de mãos dadas. Verdade, me enternece, me vejo feliz na pele deles. Eles não sabem e nem têm que saber que isso vai passar. A natureza lhes deu o dom de ignorar a falência das coisas, melhor pra eles.

Aos que exalam o perfume doce da juventude, e a nós, que também vivemos nossos tempos de feliz e ativa perplexidade, cabe muito mais que celebrar experiência ou juventude, como se houvesse antagonismo possível nisso.

O bom mesmo é celebrar a vida, seja lá em que estágio dela nós nos encontremos. Viver intensamente o presente, de olhos abertos e tolerantes para as mudanças que ocorrem dentro e fora de nós mesmos -esse sim é o grande barato de quem sacou que as almas felizes não envelhecem. Como a alma de Soane Matos, baiana porreta e mãe do mundo.

Olhar pra frente ver-se feliz não é um exclusividade dos anos dourados. É deles o poder de dar duas sem tirar, de beber até sair do corpo e estar pronto pra jogar bola no dia seguinte; é não precisar tingir os cabelos nem usar creme anti-rugas.

Viver em paz, inteiro no que se faz agora e com olhos confiantes para o que virá é privilégio de gente feliz. De todas as idades.

Até dessa moça do comercial de xampú aí em baixo, que já deve ter algo em torno de 60 anos e é lembrada até hoje por essa "performance", que fez os produtos Colorama para cabelo venderem que nem pão quente. Ah, pra quem não sabe, creme rinse é como se chamava os atuais condicionadores, aquele segundo produto que se aplica nos cabelos para torná-los mais macios e dobrar o faturamento da indústria de higiene pessoal.

Beijos, fui, volto amanhã.


quinta-feira, 17 de maio de 2007

A TERAPIA DO ESCULACHO

Uia!

Finalmente chegou a versão original e definitiva do hit que varreu a internet nas últimas semanas: "Vai tomar no Cú!".

Produção caprichada e uma interpretação magnífica, inesquecível, antológica de Cris Nicolotti, em cartaz em São Paulo com o espetáculo "Se Piorar Estraga".

Volta e meia surgem textos, áudios ou vídeos em que o mote é o esculacho de baixo calão. E fazem um sucesso extraordinário, graças talvez à contenção imposta pelo convívio social, em que não se toma por correto o uso de expressões como essa ou como o clássico "vá se foder!", impropérios da linha das recomendações e que têm expressões irmãs como "foda-se!" e "vá pra puta-que-o pariu!".

No universo das expressões pra lá de vulgares temos também as desqualificantes: "viado!"; "puta!"; "corno!", "filho da puta!". Expresões que a depender da região ganham uma virulência ainda maior. É o caso do sertão nordestino, onde ser chamado de corno ou safado é motivo pra duelo de punhal.

Enfim, xingar é essencial para dar vazão a insatisfações agudas com alguém ou com algo, quando o impasse parece ser insuperável e nada mais resta senão dizer "quer saber de uma coisa? vai tomar no olho do seu cú!"

Ufa!


quarta-feira, 16 de maio de 2007

O GENIAL ANGELI


Gênio. Graças a Angeli o Brasil não ficou órfão depois da morte de Henfil.

Estlos diferentes, claro, mas o mesmo incrível poder de síntese. Pura poesia desenhada.

ARTE ARQUITETÔNICA



A partir de hoje as referências da arquitetura mundial para grandes espaços entram na pauta do Blog do Galinho.

E começaremos por um dos seus gênios, Oscar Niemeyer. A obra é o Museu de Arte Contemporânea, localizado em Niterói, Rio de Janeiro.

Escolhi essas fotos para salientar como o artista foi feliz ao fazer do local onde a obra foi erguida um elemento essencial do projeto. É magnífica a adequação.

De resto, o estilo inconfundível desse grande mestre está presente nessa obra também. A sinuosa rampa de acesso, muita iluminação natural e a sensação de amplitude.

Vale a pena conhecer mais dessa obra no Google Imagens. Entre com a chave Niemeyer Museu Arte e bom passeio!



Emenda: Não resisti. Acabo de ver uma entrevista de Niemeyer ao Roberto D'avila, na TV Cultura. O cara tá cheio de projetos em andamento no mundo inteiro e fala com total lucidez aos 100 anos de idade, completados em janeiro. Vou avançar no propósito inicial desse post de só enaltecer a instalação do projeto no terreno e publicar mais uma foto. É bonito demais, confiram.

SELVA DE PEDRA

Em homenagem ao amigo Marcus Gusmão, um hit do comecinho dos anos setenta: Selva de Pedra, novela de Janete Clair dirigida por Daniel Filho que fez enorme sucesso em branco e preto na tela da TV Globo. Eu era muito menino nessa época mas ele não perdia um só capítulo!

A música me dá uma inexplicável melancolia com aquele la-la-la-laaaaaaaaaa. Alguém arrisca uma explicação para isso?

BANDIDO BOM É BANDIDO MORTO

A foto, publicada ontem no Estadão, foi feita durante homenagem do governador de São Paulo, José Serra, ao GATE -Grupo de Operações Táticas Especiais, que atuou no final de abril no resgate, em Campinas, daquela dona de casa e seus filhos.

Não sou ingênuo. A repressão policial à violência é componente inescapável da segurança pública e a polícia precisa estar equipada para o combate contra quadrilhas que usam armamentos de alto poder de fogo. Até aí, nada a criticar.

O que incomoda, profundamente, é a ausência de foco naquilo que até as pedras sabem que é o fundamental para uma política pública consistente na área de segurança: investimentos na inteligência e no planejamento.

O governador do maior estado da Federação posa para a classe média paulista -uma especialidade tucana- ao empunhar um fuzil e mirá-lo na direção dos fotógrafos. Simbolicamente pratica o senso comum de que é com as balas da polícia que a população ficará segura.

Melhor faria o tucano Serra se chamasse a imprensa para registrar os investimentos feitos na infraestrutura das delegacias, na remuneração dos policiais civis e militares e na eficaz administração penitenciária. Pra não falar da humanização das antigas Febems.

Essa é imagem da falência da segurança pública paulista, Abaixa a cabeça que lá vem chumbo!

terça-feira, 15 de maio de 2007

ALTIVEZ INFANTIL


Ex-marido é um estorvo que mulher alguma consegue se ver livre. Uma espécie de encosto, de alma penada que sempre irá produzir notícias.

É um fenômeno que divide-se em três grupos: os que sumiram no mundo; os que viraram inimigos. e os que viraram irmãos-em-cristo, ou seja, são amigos, cultivam o convívio com os filhos e sempre aparecem na festa do dia das mães. Mas não conseguem deixar de encher o saco, de darem palpites no que não lhes diz respeito.

Eu me incluo nessa última categoria. Ou me incluia, até que Sarah, minha netinha, resolveu pôr as coisas no lugar, do alto de seus 43 meses de vida.

- Cassete, Teresa, você não tá vendo que se fizer desse jeito vai dar trave?!

O tom, na base da bronca e uns dois degraus acima do recomendável no volume, foi captado pela mulherzinha que estava ali, brincando de quebra-cabeças. Foi fulminante:

- Você não pode falar assim com a Vovó...

Fui à lona na hora, o juiz nem precisou abrir contagem. Só deu tempo de ver o sorriso triunfante de Teresa a me dizer silenciosamente: "viu, filho-da-puta?!"

Imediatamente pedi desculpas a ambas.

Essa é Sarah, que vai aos poucos delimitando seus espaços, ou melhor, expandindo-os com suave autoridade. Nem sempre tão suave, a moleca parece não apreciar muito quem não lhe observa a realeza.

Gabriel, meu filho mais velho, me relatou sua mais recente performance, nessa mesma linha. Eles conversavam outro dia e algo lhe desviou a atenção, fazendo-o virar a cabeça pro lado. Voltou porque uma mãozinha tocou-lhe o joelho e disse "Ei, fala comigo!". Sentiu o mesmo embaraço, o mesmo respeito e a mesma alegria que senti.

Hoje, quando voltava da maternidade onde minha filha Fernanda fez a estréia de Mateus, voltei pensando nessas coisas de Sarah e me perguntando quem será esse meu segundo neto, com que bagagem o cara desembarcou nesse planeta?

Os próximos capítulos irão revelar aos poucos os segredos de Mateus. Por enquanto sei apenas que é muitíssimo bem vindo, nasceu com 3.1 kg, 50 cm e cara de joelho, naturalmente. A mãe teve parto natural, passa bem e volta pra casa amanhã.

CONTINUAM LINDAS



Nem a selvageria da violência comandada pelo narcotráfico é capaz de me fazer esquecer que o Rio de Janeiro é uma das mais lindas cidades do mundo.


Sou fascinado pelo lugar e por sua gente, negra como a gente baiana. Duas populações que exalam prazer de viver, revelado pela cadência suave de suas prosas e irresistível sensualidade.


Eis aí dois cliques campeões desses monumentos irmãos, Rio de Janeiro e Salvador. O primeiro, revela Ipanema segundo Pedro Meyer; o segundo, por Fernando Vivas, nos traz uma lindissima composição da orla baiana em dia de vento e chuva.

segunda-feira, 14 de maio de 2007

CLIVAGEM PAULISTANA

Em todas as capitais brasileiras os bairros urbanizados da classe média e dos endinheirados ficam próximos, quando não ao lado, das favelas semi-urbanizadas ou completamente abandonadas pelo poder público. As fronteiras às vezes não existem, como no Rio (Vidigal olhando de perto São Conrado) ou Salvador (Candeal e Barra).

São Paulo organizou seu apartheid de outra forma. Excluído mora na periferia, ponto. Com raríssimas exceções, como o Real Parque e Paraisópolis, vizinhos pobres do elegante bairro do Morumbi para dar um exemplo entre mais alguns outros, que apenas confirmam a regra.

Mas a clivagem social paulistana faz aparições imperceptíveis aos olhos de sua enorme e politicamente hegemônica classe média. O caso do seu Samuel ilustra bem isso.

Próximo ao escritório onde até pouco tempo atrás eu dava expediente fica uma das esquinas mais caras do Brasil, o cruzamento da av. Faria Lima com a av. Rebouças. A poucas quadras dali estão os Shoppings Eldorado e Iguatemi. Na mesma quadra, num prédio moderno e bonitão, está instalado o quartel general do portal UOL. Muitas outras empresas de grande porte também estão por lá.

E por lá também estabeleceu endereço comercial e residencial há 20 anos o engraxate Samuel, gaúcho de 62 anos que migrou para São Paulo em 1969. A coisa é assim: o cara não tinha onde morar e exercer seu ofício. Resolveu dar uma solução global para os seus problemas construindo uma super caixa de engraxate, que à noite vira dormitório por uma portinha nos fundos, no exato tamanho para um homem deitar e dormir.

Meu queixo caiu quando ano passado o cara me contou sua história e apresentou sua moradia, exatamente embaixo da cadeira em que ele lustrou meus sapatos.

- Mas... seu Samuel, como é que faz se der vontade de fazer xixi de noite?
- Uso essa garrafa aqui, meu filho.
- E pra tomar banho?
- Tem uma pensão ali no Largo da Batata, é cinco real. Tomo de dois em dois dias, três em três dias... é caro, né?
-Mas...e pra fazer cocô??
- Aí tem os bares aqui por perto.
- Pra comer...?
- Ó o bujãozinho aqui!

Fiquei chapado. Paguei, agradeci e fui almoçar no Iguatemi, onde antes de me dirigir à praça de alimentação entrei numa loja Diesel. Jeans bonitos, quanto custa? a vendedora, sorridente:

- A partir de R$1.330,00. Essa peça aqui tava por R$2.100,00 e entrou na promoção, sai por R$1.640,00!

A fome passou. E eu voltei pro escritório, num mau humor de meter medo a um Dragão de Komodo.






Nota: Somente em dia de chuva o pessoal da prefeitura faz vista grossa pra esse plático verde que aparece nas fotos . Em dia de sol eles não deixam, pro local não ficar com visual de favela, entendeu?

PARA SUBLIMAR


O post anterior me deixou meio acelerado. Pra não sair dele de vez, com riscos de, sei lá, ficar tonto por exemplo, deixo aqui um dos lindíssimos poemas de Drummond, presente na obra póstuma O Amor Natural.

Pra que ninguém pense que esse blog, só porque pertence a um galo, trata o sexo com instinto bruto de luxúria, um antro blogosférico de devassidão e machismo mal disfarçado.


O que se passa na cama

(O que se passa na cama
é segredo de quem ama.)

É segredo de quem ama
não conhecer pela rama
gozo que seja profundo,
elaborado na terra
e tão fora deste mundo
que o corpo, encontrando o corpo
e por ele navegando,
atinge a paz de outro horto,
noutro mundo: paz de morto,
nirvana, sono do pênis.

Ai, cama canção de cuna,
dorme, menina, nanana,
dorme onça suçuarana,
dorme cândida vagina,
dorme a última sirena
ou a penúltima… O pênis
dorme, puma, americana
fera exausta. Dorme, fulva
grinalda de tua vulva.

E silenciem os que amam,
entre lençol e cortina
ainda úmidos de sêmen,
estes segredos de cama.

OS NOVOS DILEMAS DE SEMPRE



A molecada da minha geração já tinha disponível a foto-putaria colorida, revistas que dizia-se serem dinamarquesas. "Que beleza, quando vai chegar minha hora de fazer tudo isso?" perguntava-me ao ver pela ducentésima vez aquela revista e deixá-la um pouco mais amarrotada e manchada pelo manuseio sôfrego.

A partir dos 11, 12 anos inicia-se a marcha masculina em direçãao das mulheres e ela é sexual desde o primeiro instante. Enquanto as meninas ainda suspiram por beijos e abraços, a jovem rapaziada já tá doidinha pra tirar a roupa e inicia-se aí a negociação entre as partes, uma querendo avançar a infantaria e a outra organizando a resistência enquanto faz pequenas concessões libidinosas, para o deleite de ambos, é claro.

Ô sofrimento! e enquanto não chegava o grande dia, paciência, que cresçam metros de pêlos na palma da mão, fazer o quê? os sintomas eram os mesmos de hoje: uso intensivo e prolongado do banheiro, sob os protestos irônicos da família...

E as técnicas? um amigo me ensinou na época que o grande barato era sentar na mão esquerda até ela ficar dormente e aí mandar ver. Parecia que uma linda fantasma tava ali te deliciando. Ou aquela prima com ar meio sacana, a tia gostosa...

Os meninos de Mutá não se faziam de rogados, que os digam as galinhas, jegas e bananeiras, essas últimas um prodígio da criatividade e do desepero: eles cavavam um pequeno orifício na pobre da planta e fogo!, com direito a abraço. Entendem agora de onde vem a moda de abraçar uma árvore?

Mas voltando pro catecismo, os irmãos e amigos mais velhos guardavam prudentemente -nunca se sabe quando a larica vem né?- as publicações de suas épocas, desenhadas em preto e branco mas que quebravam perfeitamente o galho. Eram os livrinhos do Carlos Zéfiro, reproduzidos aqui pra ilustrar esse importantíssimo tema.

"Li" vários deles e hoje, quando vejo a disponibilidade de fotos e filmes de sacanagem na internet confesso que me dá uma certa raiva. E se você tá pensando que eu vou entrar numas de que "no meu tempo era melhor" ou coisa parecida vou logo dizendo: melhor o cassete, quisera eu ter tanta "informação" assim na minha época! e tanta gatinha desencanada com o sexo como hoje.

Pena que transar mesmo, de verdade, é um ato que mesmo hoje, para os meninos, sempre vem depois que a fissura já se instalou. Uma espécie de crise de abstinência virtual. Mas para isso, tem farta literatura disponível pra aliviar as tensões, né galera?

Mas, ó, por favor: na toalha não!

DOAR SANGUE, GANHAR CIDADANIA


Foi em março passado. Acordei tarde naquele domingão, nada programado pra fazer, exceto montar na Neguinha e seguir pro Ibirapuera ou pro parque Villa-Lobos. Quase onze da manhã, sol forte pra dedéu. Não, melhor pensar em outra saída.

A lembrança de uma reportagem assistida no dia anterior, sobre as períodicas crises de estoque nos bancos de sangue de São Paulo me fizeram tomar uma decisão óbvia simples e cidadã: vou doar sangue.

De casa ao Hospital das Clínicas, 10 minutos de caminhada. Recepção, cadastramento, entrevista, coleta. Juntando tudo, nem trinta minutos foram gastos com isso.

Saí feliz da vida e me perguntando por quê não tinha feito isso antes. Qualquer um de nós poderá precisar de uma transfusão e gostará muito de saber que gente anônima se prestou ao ato voluntário de dar um pouco de si para que a vida de alguém pudesse ser salva.

Todos ganham com isso, principalmente quem doa. É sim um ato de amor importante e que só faz maior quem o pratica.

Tá bundando em casa, sem idéia do que fazer? vá até um banco de sangue e faça uma doação. O procedimento é simples, rápido e seguro. E juro que você vai sair de lá se sentindo mais importante do que quando chegou.

O CARA


Essa foi a foto do final de semana. Felipe Massa conquistou sua quarta vitória na Fórmula-1 ontem em Barcelona, de ponta a ponta.

Tão bom quanto vê-lo ganhar foi assistir o chega-pra-lá dado no Fernando Alonso, bi-campeão que corria em casa e se achou no direito de forçar uma ultrapassafem sobre o brasileiro logo na primeira curva. Não foi uma boa escolha, Massa não tomou conhecimento, fez prevalecer seu posicionamento por dentro da curva e mandou o piloto da Mclaren passear na brita.


O garoto tem peito e técnica. A convivência com Schumacher na Ferrari ensinou que corridas e campeonatos são ganhos assim, defendendo posições e voando baixo. Vai longe.


A Fórmula-1 de 2007 será inesquecível. Haikoneen e Hamilton estão na cola e são também sérios concorrentes ao título. Corridas emocionantes e muita polêmica, como a de ontem, vão marcar uma edição histórica dessa competição. E com o anunciado fim do controle automático de tração vai ficar melhor ainda, só andará na frente quem tiver perfeito controle da máquina e muito braço. Como nos bons tempos.

domingo, 13 de maio de 2007

MARIA "CARMEN" CALLAS

Fuçando, fuçando, fuçando. Que achei? uma performance dela, Maria Callas, interpretando a Habanera, da ópera Carmen.

Callas não era só uma voz privilegiada. Era uma mulher magnética, dessas que te levam pro céu e pro inferno e você...vai!

Vê-la interpretando essa linda canção me emocionou por dois motivos. Primeiro porque a personagem Carmen, tão bem reproduzida na ópera de Bizet e no cinema por Saura, é uma mulher poderosa, impulsiva e de um poder de sedução tão irresistível quanto letal. Ninguém mais poderia ser a própria Carmen cantando como Maria Callas: visceral, inebriante.

O segundo motivo foi sentir que às vezes é fundamental resignar-se com a perda de uma mulher vulcânica para que a vida siga em frente.



Nota pós-publicação: prestem atenção que enquanto ela canta as coisas do amor, olha sempre pra um mesmo ponto da platéia. Aposto com quem quiser que o Ulisses do momento estava ali e desconheceu o conselho recebido, não tapou seus ouvidos com cêra. Lamento informar que não sei onde ficaram seus ossos.

MÃES







Essa última aqui foi trazida para não nos deixar esquecer da nossa mãe maior, a natureza. E sua melhor criação, a mulher.

ODÔ YÁ!


É impossível pra mim apresentar aqui melhor exemplo de mãe que Yemanjá, a grande mãe africana do Brasil, título da dissertação de mestrado publicada em livro por Armando Vallado, Armando de Ogun, Babá Akiytundê. A foto que ilustra esse post foi feita na Casa das Águas, terreiro ketu de Armando localizado em Itapevi, na região metropolitana de São Paulo, durante uma festa para ela, a mãe de todas as cabeças, colo farto e generoso para todos os que a ela recorrem pedindo força e proteção.

Yemanjá é um dos mais bem definidos arquétipos da mitologia iorubá. Suas variações, ou qualidades como se diz, variam desde a velha mãe atenta e zelosa de seus filhos até a guerreira, que de arma em punho acompanha Ogun por todas as batalhas. Seus mitos, esplendidamente registrados na obra de Reginaldo Prandi, "Mitologia dos Orixás", reportam uma mulher de personalidade forte e capaz de qualquer coisa na defesa de sua prole.

Em todas as qualidades de Yemanjá essa é a constante: a mulher-mãe, a deusa de seios fartos, a amante faceira, sedutora. Yemanjá é cultuada em todo o Brasil, na diversas nações do candomblé e na umbanda. Divindade a quem se deve respeito e gratidão, por sua generosidade de mãe e pela força da sua vontade, tem filhos espalhados também pela áfrica e na Santeria cubana.

Suas roupas, comidas votivas e música evocam a cor, o sabor e o balanço das águas do mar e o doce embalo de uma criança no colo. Linda e poderosa, como o são as mães, a quem se homenageia hoje.

A todas elas, bato minha cabeça no chão e saúdo em honra. Em especial, a minha mãe, à Jacy, à Teresa, à Fernanda e à Maria Fabriani, que de lá da distante Suécia nos fará ouvir um grito de alegria quando seu primeiro filho, Max, vier ao mundo, brevemente.