POR OUTRO LADO...

terça-feira, 26 de junho de 2007

SOBÁ E SAUDADE


Escreveu-me Sylvia Toscano, prima querida de Campo Grande-MS, pra avisar que não sabia bem aonde havia sido inaugurada uma sobaria em São Paulo (já achei, Duda, é aqui). No exato instante em que tentava alinhavar um texto sobre aquele lugar e suas delicadezas.

O sobá tem como base um macarrão feito artesanalmente e um caldo especial que obriga o indivíduo a comer em uma cumbuca. O prato ainda leva omelete cortado em tirinhas, um bocado de cebolinha e carne de porco bem frita. Joga-se shoyo a gosto ou pedacinhos de gengibre. É bom pra dedéu!

O gosto dessa iguaria típica dos japoneses de Okinawa, que praquelas bandas imigraram no começo do século passado, me veio à boca. E com ele os retratos de um Brasil que o Brasil do litoral não conhece. E que é vertiginosamente saboroso.

Morei em Campo Grande por quase dois anos, tempo suficiente pra entender as razões da saudade recorrente do meu pai, nascido lá há quase 70 anos. O centro-oeste do Brasil dá dois espetáculos por dia, ao amanhecer e ao entardecer. Não conheci mais belos.




Mato Grosso do Sul, tornado estado da federação em 1977, foi feito de uma miscigenação muito particular de brancos vindos de Minas Gerais, São Paulo, Paraná e Rio Grande do Sul. Por lá juntaram-se aos nordestinos, paraguaios e índios. Deu num povo bonito, só se vendo. Contribuíram também os italianos, portugueses, espanhóis, povos árabes e do leste europeu.

Dos paulistas e mineiros veio o gosto pela viola e a elegância da cultura caipira; dos gaúchos, a devoção pelo churrasco e pelo vaneirão; do Paraguai, os sons das polcas, chamamés, guarânias e o gosto pelo tereré, erva mateira bebida em cuia de gaúcho com água gelada; dos descendentes Okinawas o sobá, marca registrada da culinária sul-matogrossense em que tanto me esbaldei na Feira Central de Campo Grande, charmosíssima desde o tempo em que era montada para brilhar na rua, em noites de quarta e sábado.

De alguns anos pra cá a feirona ganhou um galpão no centro, onde alguns saudosista campograndenses ainda fazem bico pela mudança mas freqüentam, ávidos de sobá, espetinhos de carne com mandioca e cerveja gelada; dos índios, chamados com mal disfarçado preconceito de bugres, a intimidade com a natureza e a onipresença do milho e da mandioca nas panelas das casas.




Campo Grande é a síntese urbana da estética country que predomina nesse estado voltado para a agricultura e para a criação de gado em larga escala. È de lá o maior rebanho bovino do Brasil, mais gado do que gente. Almir Sater e Manoel de Barros seguem sendo as mais sofisticadas traduções daquelas paisagens, seus bichos e sua gente.

Foi lá que me desfiz dos últimos preconceitos musicais, acrescendo o pop caipira de Leandro e Leonardo, Chitãozinho e Xororó, Zezé e Luciano entre outros, ao som chique de Renato Teixeira, Almir Sater, Sergio Reis. Quando entendi que naquela panela cabia de tudo e que de quebra dava pra manter a moça bem apertadinha nos bailes, relaxei e gozei muito.


Ninguém escapa de ficar chapado diante do Pantanal e da região de Bonito. O majestoso rio Paraguai, que divide Corumbá, na fronteira com a Bolívia, convida pra pesca, para o silêncio, para a reflexão com olhar posto na vastidão. Lugar bom pra se ouvir os murmúrios do coração.

Pessoas queridas, uma cultura plural e única no Brasil, um bioma exuberante. A ausência de Mato Grosso do Sul às vezes dói e custa resistir à vontade de seguir pra lá sem planejar nada, como fiz ano passado durante o carnaval. 1000 km de carro entre São Paulo a Campo Grande, só pra rever gente importante, que tanto me ofereceu em afeto e apoio quando por lá cheguei, em 1996. Gostosas dívidas de gratidão, pretendo saldá-las em suaves parcelas nas próximas décadas, sempre que a saudade apertar, cobrando presença.

Nos intervalos, cresce a nova geração de campograndenses. Linda, como essa gostosura aí de baixo, que tem nome de cantora e vai crescer comendo carne com mandioca e tomando tereré. Com muito sobá em noites de feira, né Ellis?



É isso, volto depois porque agora vou tocar meu berrante e ouvir Mercedita.

Fui.

segunda-feira, 25 de junho de 2007

CALA A BOCA, MARTA!


Diarréia verbal ninguém remenda. Encontrei hoje essa imagem no divertidíssimo blog Catarro Verde. E eu que pensei ter visto todas as gozações possíveis dessa história, na semana passada...

domingo, 24 de junho de 2007

A SIMPLICIDADE, POR FERNANDO FARO


Comemora-se em 2007 três aniversários emblemáticos.

O arquiteto Oscar Niemeyer e atriz Dercy Gonçaves completam 100 anos; Fernando Faro, 80. A unir-lhes, além da idade avançada, o fato de continuarem em plena atividade.

Sobre o baixinho Faro, a TV Cultura de São Paulo não deixou que a data passasse em brancas nuvens. Desde quinta última é quase impossível passar uma hora sem ver algo sobre a obra do criador e ainda produtor e diretor do clássico programa Ensaio, que desde o início dos anos setenta leva para a tela da TV a fina flor da MPB, num formato único de diálogo em que a voz do entrevistador não é ouvida, suas perguntas são intuídas pelo telespectador.

De resto, completo despojamento de recursos cênicos na apresentação do artista e sua obra. Simplicidade levada ao estado da arte, foco total no objeto.

Impressiona a defesa de Faro por seu formato televisivo ao longo de quase quarenta anos. Uma fórmula mágica que fez desfilar na tela da Cultura todos os grandes nomes da música brasileira. Consagrados ou ainda não mas invariavelmente talentosos. Nenhuma concessão aos interesses comerciais das gravadoras e das emissoras de rádio ou TV comerciais. Apenas música de alta qualidade.

Duas coisa provocam ereção das minhas antenas na história de Fernando Faro. Uma é a própria história do cara, que criou um formato único na estética televisiva e se fez profundamente respeitado por músicos e intérpretes ao longo de muitas décadas. É notável como mostram-se à vontade os que por lá passaram. Notório o respeito pelo criador do programa, sujeito reconhecido pela intimidade com o meio. Enfim, senhor absoluto do seu espaço.

A segunda coisa é vê-lo em ação aos 80 anos com a mesma simplicidade firme de sempre. Nada que transpareça arrogância ou falsa modéstia. Um exemplo de dignidade e talento. E no caso da TV Cultura, uma mostra eloqüente da importância das TV’s não focadas no lucro mas na produção de conteúdos educativos e de alto valor estético.

A notícia da criação de uma TV Pública pelo governo federal me enche de esperanças de que finalmente haverá uma coordenação eficaz entre as emissoras públicas ou estatais de todos o país, propiciando a geração de conteúdos plurais, na medida das contribuições regionais, e singulares pelo compromisso estético acima dos interesses comerciais. Missão a cargo de Franklin Martins, que tenha muito boa sorte e seja feliz na luta de termos no Brasil um exemplo bem sucedido de TV pública como os ingleses têm com a BBC.

Sou fã de carteirinha de Fernando Faro. E cada vez mais fã de uma simplicidade que não conquistei e que a cada dia é mais difícil viver sem tê-la.

Confesso um certo cansaço pelo espetacular, pelo efervescente. Pena que me faltou méritos para que a essa altura da vida pudesse mudar-me pra Mutá e de lá viver o extraordinário show das marés e dos caranguejos do litoral baiano.

Não adquiri créditos para isso até esse ponto da vida, paciência. Mas o jogo não terminou e persistir talvez seja a única qualidade que tenho orgulho em ver no espelho, sem a menor preocupação de parecer tolo.

A esperança em seguir de volta para Mutá não foi sepultada. Nem a de levar comigo a amada companheira, cujo rosto e paradeiro desconheço.

Se créditos me faltaram até aqui para a realização de ambos os sonhos, moram em mim as sementes necessárias para que um dia isso aconteça e que seja bom e simples.

Como o sonho real do baixinho Faro e seu Ensaio.

É isso. Foto lá de cima é do mestre Faro; vídeo aí debaixo é Elis no “Ensaio”, 1973.

Inté a próxima.

sexta-feira, 22 de junho de 2007

DOHA, SÃO JOÃO E ACM

Não há como não concordar com o Paulo Henrique Amorim, quando ele classifica reiteradamente o comportamente da grande (grande?) imprensa brasileira como conservador e golpista.

O episódio da vez é a repercusão do fracasso da reunião entre Brasil, Índia, EUA e União Européia, acerca da Rodada Doha para o livre comércio mundial, finalizada ontem. Os textos produzidos pela Casa Branca, acusando Brasil e Índia de responsáveis pelo insucesso do encontro, pautaram as manchetes de jornais, TV’s e portais por aqui, diferentemente do que fez "Wall Street Journal" e "Financial Times".

Joelmir Beting e Luis Nassif fizeram coro com PH Amorim em seus blogs, leia
aqui, aqui e aqui.

Brasil e Índia renovaram a defesa firme de seus interesses comerciais ao não aceitarem a perpetuação das mesmas bases colonizadoras de sempre. Exigem equilíbrio nas trocas comerciais com os países industrializados, o que é impossível de haver com os subsídios agrícolas praticados por estes. Joelmir Beting textualmente diz: “Está certo o Brasil, desde o início em recusar a proposta dos ricos. Seria como aceitar o acordo da galinha com o leitão: a galinha americana oferecendo ao leitão brasileiro uma parceria supimpa - a da produção em massa de omelete com bacon, o leitão entrando com a carne e a galinha, com os ovos. Interessa?”.

Nada parece arrefecer o ímpeto da imprensa brasileira em querer desgastar a imagem do governo brasileiro e de seu iletrado presidente. Mesmo que pra isso faça uso desassombrado da má-fé e do desprezo pelos fatos.

Não importa se a posição assumida por Brasil e Índia seja fundamental para os interesses de seus povos. Interessa é martelar o de sempre: o governo Lula é incompetente, inclusive na sua política externa.

Os fatos? Como diz Mino Carta, referindo-se à imprensa brasileira, “se os fatos não se ajustam às nossas idéias, pior para os fatos!”

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Final de semana de catarse junina no nordeste do Brasil. Forró correndo solto, comunhão de umbigos se esfregando e uma alegria coletiva que só aquela região brasileiro conhece e pratica apaixonadamente. Quem me dera...


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É delicadíssimo o quadro de saúde de Antonio Carlos Magalhães, que segue internado no Incor de São Paulo, onde está desde o último dia 13, sem previsão de alta e com reais riscos de morte. Além dos problemas cardíacos, são crescentes as dificuldades renais do velho senador baiano. Torço pela sua recuperação: gostaria muito de ouvi-lo quando a Polícia Federal chegar de vez no seu sobrinho, Paulo Magalhães. O histórico relacionamento de ACM com as empreiteiras poderá vir a público, finalmente.

Pau que dá em chico dá em francisco, dizia minha santa vozinha. Tudo o que na Bahia até as pedras sabem mais dia menos dia será devidamente investigado. E publicado.

A Polícia Federal do governo Lula consolida a cada dia sua missão republicana. Doa a quem doer. No caso do clã ACM, vai doer pra cassete, pode esperar.

Longa vida pro "Cabeça Branca" da Bahia! ele há de viver para prestar contas do que fez...

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Vou-me embora. Enquanto assa a batata de ACM na fogueira da PF, deixo aqui uma das últimas aparições na TV desse mestre da música popular brasileira, Jackson do Pandeiro. O vídeo é de 1979, da TVE do Rio. Ele morreu em 1982 e foi o grande desbravador na divulgação da música nordestina, junto com Luiz Gonzaga. Legou-nos uma obra vasta e belíssima.

Inté!


quarta-feira, 20 de junho de 2007

COMPUTADORES NÃO ESQUECEM


Dia desses li uma reflexão algo aflita de Kátia Borges, autora do blog Madame K, acerca da exposição pessoal demandada por esse tipo de veículo. O desabafo estava revestido de outras inquietações, que ao se verem objetos da solidariedade e do carinho dos leitores dela –eu, inclusive- foram aparentemente enquadrados na rubrica “crise existencial neoblogueira” e afastados da cena. Segue a talentosa Kátia a gotejar delícias no seu púpito eletrônico. Que bom.

Mas nem de longe isso que aconteceu com ela foi um caso isolado. Estamos presenciando um autêntico rito de passagem na comunicação humana. O formato blockbuster dos jornais, TV’s, rádios e portais de internet já está convivendo com a pulverização de opiniões pessoais desencadeadas pela interatividade da WEB 2.0.

Blogs, videologs, fotologs, podcasts. São muitas as ferramentas que tornaram visíveis as expressões pessoais em banda larga de milhões de pessoas, que individualmente pouco representam em audiência absoluta, se comparados até mesmo com os grandes blogs temáticos, como o do Noblat (política) e o do Nassif (economia), pra falar só de dois exemplos.

A questão é que se essa capilaridade, se tomada por suas expressões individuais pouco fazem frente aos megaveículos de informação, juntas mostram-se poderosíssimas por seu poder de multiplicação de opiniões. Nunca a informação, a análise e a opinião foram tão democratizados como são agora e cada vez mais serão no futuro.

Nesse contexto, ferve pela blogosfera a discussão da exposição pessoal. Ora pelo viés de como isso pode ou não ser legal para a fidelização da audiência e seu impacto na política de monetização do blog; ora pelo incômdo pessoal de permirir-se ser devassado por pessoas anônimas, o que pode gerar conseqüências se não necessariamente ruins, certamente imprevisíveis.

Tudo é muito recente nesse campo, é quase impossível prever a correlação entre as possibilidades tecnológicas e o impacto comportamental desse fenômeno. A única certeza é que deixamos marcas cada vez mais nítidas por onde passamos, mesmo pra quem não publica um blog. Basta um cartão de crédito, uma conta de e-mail, acessos mais ou menos regulares ao Youtube, ao Flickr, à Wikipédia e principalmente ao oráculo do Google –pronto, você está habilitado a ter sua vida reconstruída pelos neoarqueólogos e neoantropólogos daqui a alguns anos. Ficou tudo lá registrado nos poderosíssimos computadores desses serviços. O Big Brother tá de olho em você, meu camarada...

Sou cada vez mais fiissurado por esse admirável mundo novo. A ilusão da onisciência e da onipresença me embriaga, devo confessar. Isso é muito parecido com o mito de Deus e certamente essa discussão, que já alimenta fervorosos debates acadêmicos, vai ser ampliada nos próximos meses. Todos os acervos técnicos, artísticos e científicos estão a um clique e poderão servir à inclusão social. Ou a um incrível apartheid entre plugados e desplugados.

A alma incauta de muitos blogueiros também faz parte dessa devassidão eletrônica. Por enquanto, tento ficar atento aos limites que me parecem sensatos em relação à exposição pessoal, o que não é um exercício fácil para quem bloga. O cunho pessoal, a percepção do leitor quanto à singularidade do que lê é essencial para que justifique-se a continuidade da publicação de um blog. Acontece que nem tudo o que acontece na vida do blogueiro vale compartilhamento, mesmo tendo-se em vista que as pessoas dedicam um tempo enorme pra tomar conhecimento da vida alheia. Os riscos, se não claros ainda, são todos de quem publica.

Esse lance tá rolando forte e rápido por aí. Só sei que me dá calafrios em imaginar que uma troca de correspondências eletrônicas com a mulher amada, por exemplo, está guardadinha num supercomputador qualquer. Fascina mas aflige.

Nem quero imaginar como isso vai ser inserido na geopolítica mundial daqui a alguns anos. São reais os riscos de crises diplomáticas e militares pelo poder da informação, do mesmo jeito que hoje cidades são impiedosamente bombardeadas pelo controle do petróleo?

É isso. Aí embaixo uma música composta por Gilberto Gil há poucos dias e postada no Youtube no último domingo. Vai ser adequado assim no raio que o parta; tema e título é Banda Larga! É o velho Gil provando que suas antenas continuam em plena atividade.

Na qualidade de deus me despeço. E como mortalzinho de merda deixo beijos pra quem chegar por aqui pra dar uma boa xeretada.

Fui, inté.

terça-feira, 19 de junho de 2007

COISA DE BAIANO III: O DIALETO


Se você pensa que na Bahia fala-se português, pensou errado. E errou de novo se achou que é o baianês.

Desde os tempos do Dicionário de Baianês, muito tem sido escrito sobre esse dialeto incompreensível para os que chegam de fora da Bahia e dão de cara com a cultura Brau. Sim, na Bahia fala-se Braulês, sabia não, meu rei?

O braulês é o dialeto usado pelo braus, pela população negra e pobre de Salvador. A mesma população que criou e preservou o candomblé, o samba de roda, o carnaval, as festas de largo, a culinária de senzala. Noutras palavras, os braus construíram quase tudo que os brancos embalaram pra vender.

Se você lembrar agora de uma coisa, qualquer coisa que te remeta à Bahia saiba que antes disso ser conhecido no resto do Brasil e no mundo já fazia parte do cotidiano desse povo absurdamente criativo.

A expressão brau remonta os tempo do cabelo black power, dos Jackson Five e James Brown. Fins dos 60, começo dos 70, quando os negros começaram a abandonar as roupas de índio norte-americano pra se vestirem de negros afro-descendentes. O palco, claro, era o carnaval baiano e o Ilê Ayê foi o afoxé precursor nas ruas de uma movimentação que já estava rolando na Liberdade, bairro popular de Salvador, em torno da auto-estima negra.

De lá pra cá, a cultura negra ampliou fortemente sua hegemonia na sociedade baiana. O povo branco da classe média, historicamente de costas pras favelas da cidade, passou a curtir o suingue da patuléia e incorporou muitos dos seus elementos.

A universalização da cultura dos guetos baianos não parou mais de se dar desde então. Religião, música, dança – a Bahia começou a ser vendida pela produção cultural de sua gente negra e pobre mas riquíssima de informações e singularidade.

A língua é a porta mais facilmente perceptível dessa deliciosa contaminação. O português erudito teve que tolerar a convivência com o braulês, como a igreja católica aprendeu a sobreviver convivendo com o candomblé. Uma inundação de gírias e expressões que levaram o baianês às últimas consequências.

A entonação continuou a mesma, decrescente. Mas o vocabulário, quanta diferença...

O negócio ficou engraçado. Em todas as classes sociais ouve-se as expressões que são usadas no Curuzú e no subúrbio ferroviário de Salvador. Por exemplo, o assassinato da letra “d” no gerúndio. Se na cidade de São Paulo o gerúndio ganhou uma letra “i” que não existia (comeindo, fudeindo, dizeindo), na Bahia fala-se cumeno, fudeno e dizeno. O "d" foi pro espaço...

Há muito o que se registrar nesse campo. Vou recortar a intenção aqui pra sublinhar apenas mais um aspecto que gosto muito no falar da Bahia. Refere-se ao uso universal da palavra porra. Exemplos:

- Me dê essa porra aí, essa minina!
- Ó, não se saia não que eu lhe pico a porra, viu!
- Que porra é essa?
- Porra! (exclamando)
- Porra!! (xingando)
- Você não vai porra nenhuma pressa festa, sua nigrinha.
- Êita porra!
- Volte aqui, sinhá porra!
- Esse acarajé ta gostoso coma a porra.
- Viu só que sujeito alto? Grande como a porra!
- Bela porra!
- Fique com sua porra, não quero mais não!

E vai por aí. Um exemplo que me parece sintetizar bem a diversidade de usos dessa palavra, que no sudeste é sinônimo de esperma, foi a que ouvi uma vez no Iguatemi de Salvador. Ia na minha frente, andando no mesmo sentido, um sujeito baixinho com uma daquelas “capangas”, carteiras grandes que se usavam debaixo do braço a uns 20 anos atrás.

Em sentido contrário, uma cara com pinta de atleta e gringo, mais de 2,00 de altura, forte pra cassete, cruzou com o baixinho e logo depois comigo. O baixinho virou-se espantado com ao tamanho do cara e ao cruzar o olhar comigo mandou essa, sorrindo:

-É a porra!

É isso. Quem quiser ler mais sobre o braulês, clique
aqui. Nele você vai ler um texto saborosíssimo de uma baiana que mora em Recife e publica um blog muito legal chamado Playground. Vale a pena conhecer véi, na moral...

Foto de lá de cima é do Fernando Vivas, boca de zero nove da fotografia baiana; no vídeo abaixo um registro raro de James Brown cantando Sex Machine, com um suingue virado na porra.

Vou tirar o corpo, bródi. Quem quiser ficar por aqui, é ninhuma, falou?

segunda-feira, 18 de junho de 2007

COISA DE BAIANO ll: OS POLÍTICOS



Os baianos acreditam piamente que não têm sotaque. Os cariocas também.

Coincidentemente falamos das duas culturas regionais mais autoreferentes do Brasil. Povos que mantém seus olhos apaixonadamente voltados para si, reconhecem-se lindos diante de seu espelho cultural e geográfico. E simplesmente não são capazes de se ver de fora pra dentro.

Quem vê, sente-se tentado a classificar o comportamento como provinciano. Mas quem já viajou bastante reconhece tolerantemente a singularidade desses lugares e releva o discurso narcísico. Às vezes é chato, concordo. Mas é preço baixo diante das possibilidades culturais apresentadas com tamanho fervor e orgulho.

No caso da Bahia, esse foi o caldo cultural inteligentemente cooptado por políticos e publicitários para vender o produto “Bahia, terra de gente pobre mas feliz”. Há décadas o discurso hedonista anima a venda de produtos, serviços e projetos de poder na Bahia. A tal ponto que a indústria do entretenimento, fortemente calçada no carnaval, acabou por introjetar na sociedade baiana um comportamento maníaco, como bem observou Antônio Risério no seu História da Cidade da Bahia. Tudo é uma festa, a escamotear a miséria urbana de Salvador, que vai ganhar uns trocados quando o verão chegar.

É como ouvir o Maluf dizendo que “São Paulo é a locomotiva do Brasil”. Me dá a mesma angústia quando leio algo como “Bahia, terra da magia”. Nem uma coisa nem outra são falsas: Bahia rima mesmo com magia e alegria, o lugar respira mistério e savoir faire. E São Paulo responde por 1/3 do PIB brasileiro. Tudo certo, portanto.

Tudo certo? Certo é o cassete! A Bahia tem indicadores sociais entre os piores do Brasil e seu povo, verdadeiramente majestoso na sua cultura, não é conduzido a sair da armadilha das festas para participar de um projeto de desenvolvimento consistente. Tá puxando as cordas do Chiclete com Banana e avançando no meio da multidão durante o carnaval gritando “Ó o gêlo!”.

Jacy Sande, consultora desse blog desde que ele nasceu, discorda disso. E não discorda sozinha, muitos da classe média baiana lhe fazem coro ao apontar que isso tudo é conseqüência, preponderantemente, do desequilíbrio regional no Brasil. Não consigo praticar essa indulgência toda com os que estiveram no poder nos últimos 30, 40 anos. Por mais que seja esse um argumento razoável e explique um bom pedaço da história.

Foram irresponsáveis e incompetentes, pra dizer pouco. Nunca habilitaram aquela terra a desenvolver suas enormes possibilidades econômicas com políticas públicas sérias voltadas para a educação, a saúde e a implantação de uma indústria de transformação robusta. Pouco ou nada fizeram pela agricultura familiar e pela infraestrutura. Mas o laço de fita ficou uma beleza, embalado com muito samba-reggae, ô iô iô...

Tenho esperanças que Jacques Wagner e o próximo prefeito mudem esse eixo de festa na favela e traduzam em apoio financeiro seus laços políticos com o governo federal. A festa pode e deve continuar, é da natureza de um povo que aprendeu a sorrir de suas dificuldades. E sabe festejar como nenhum outro do planeta sabe.

Só não dá mais é pra achar que aquele lugar será próspero vendendo picolé da Capelinha e admitindo a perpetuação de uma forma de governar em que tudo muda pra ficar do mesmo jeito, como tem sido a experiência de João Henrique na prefeitura e espero não vir a ser a de Wagner no governo do estado.

Nesse compasso de espera pelo fim das desigualdades regionais, não tem orixá que salve a Bahia, a terra da alegria. E da fantasia.

É isso. Fui, mas amanhã eu volto.

domingo, 17 de junho de 2007

ALMA DE PASSARINHO


Meu amigo, preste muita atenção no comportamento da mulher por quem você está na iminência de se apaixonar. A menos que você goste de surfar na pororoca, escalar o Everest no peito ou atravessar o canal da manhcha a nado. Nesse caso, volte aqui amanhã, terá outro post publicado. Esse que você começou a ler só serve pra quem não pratica esportes radicais.

Sou caretésimo quando o assunto é orientação sexual. Milito pela causa feminina, empunho a bandeira de que as mulheres são superiores aos homens, sou fascinado pela alma delas e não conheço nenhum projeto do criador mais perfeito que um corpo de mulher.

Agradeço todos os dias a deus e às mulheres heterossexuais por elas gostarem de corpo de homem, projeto desarmonioso e com sérios problemas de acabamento. O exato oposto da graciosidade das curvas e do fino arremate das extremidades femininas. Pra não falar de outros encantamentos provocados pela visão de um corpo bonito de mulher. Mas deixo isso prum outro post, é asssunto que demanda fôlego.

Hoje quero apenas cumprir com o dever cívico de ajudar o próximo, alertando-o dos perigos de se amar uma mulher com alma de passarinho. E o que vem a ser uma alma de passarinho?

È uma mulher irriquieta, rápida nas decisões, leve o suficiente pra voar mas não a ponto de se deixe levar pelo vento. Une em movimentos graciosos delicadeza e precisão. Algumas espécies de voz rouca te encantam do mesmo jeito que Maria Callas ou as sereias que cruzaram com Ulisses.

Podem enlouquecer qualquer sonhador incauto. Leva-lo pra passear no Éden ou dar umas bandas no inferno. São feitas de fogo e água, de paixão e ódio. Movem-se com desenvoltura nos extremos.

Sonhadoras contumazes, vivem à busca do casaco marrom perdido na adolescência. Mas têm medo de altura e podem mudar o plano de vôo a qualquer hora e te deixar sem bússola. Riem do seu gosto por Fagner cantando Borbulhas de Amor mas suspiram com Morris Albert entoando She’s My Girl. É mole?!

Lindas, inebriantes, cativantes, espertíssimas; orgulhosas, egoístas, vaidosas. Amantes únicas, vão te fazer sentir-se o mais poderoso dos homens hoje à noite. E o pior deles amanhã de manhã.

Vai pra China? Leve uma mulher-passarinho; fazer um passeio inesperado num lugar bem bacana? leve-a; amar com ardor e passar horas falando bobagens, tomado de ternura? passarinho!; dançar e encher a cara a noite inteira? Little bird, of course...

Se conseguir que ela não te enlouqueça, parabéns, vosmecê tá bonito na foto. Mas se a eterna adolescência dela te incomodar, melhor abrir a porta da gaiola. Problema mesmo é se ela não quiser sair porque tá viciadinha no teu alpiste e recusa-se a deixar de ser menina.

Passarinhos são lindos mas matam quem não alimenta seus sonhos. E a vida nem sempre é um passeio glorioso na praia.

Faça sua escolha e pague o preço devido. Vai sair caro de qualquer jeito, aviso.

Veja no vídeo a seguir a que ponto chega a vítima de uma mulher dessas. Vai encarar?

Ai ai, volto amanhã...


sábado, 16 de junho de 2007

COISA DE BAIANO l: O TIMING


Dizem que os baianos são, arquetipicamente falando, lentos. Eu não acho.

É uma generalização preconceituosa, como qualquer generalização. O mesmo que dizer que fumar maconha faz mal à saúde. Ora, está mais que comprovado que fumar maconha causa apenas dois transtornos: prejudica a memória e um outro que não me lembro mais, esqueci.

Vivi em Salvador por mais de 20 anos e o máximo que me aproxima dessa lenda sobre a lentidão dos baianos é a suspeita de que eles têm em seu DNA a compreensão nagô de que o tempo nada mais é que a sucessão dos fatos, um só acontece após o fim do outro. O relógio organiza o mínimo indispensável na vida da cidade. Uma aparência de organização apenas tolerada, jamais adotada com fervor.

Daí que muitos paulistas ficam angustiados quando por lá chegam e dão de cara com um certo descompromisso com os horários que sublinha a convivência na cidade. Cuidado, quase tudo na Bahia vive para além das aparências, do mesmo jeito que Oyá atuava no papel de
Santa Bárbara.

Ou como na capoeira, arte de lutar fingindo que vai fazer uma coisa pra fazer outra. Diferentemente do caratê, que finge executar um golpe e o executa exatamente como fingiu, entendeu? O foco dos japas é a contundência e não a dissimulação
jêje-nagô.

Você marcou um almoço de negócios às 13h:00 e o sujeito chegou às 13h:40? Faça como a ministra, relaxe, goze e compreenda: o cara chegou atrasado porque teve que pegar os meninos na escola para depois disso ir ao seu encontro, capice? O que importa é que ele foi...

Herança iorubá, pode conferir. Não existe relógio em terreiro de candomblé. Vai colher as folhas na mata? é antes do sol nascer; vai começar o xirê? depois do padê de Exu, claro; arrumar o barracão pra festa? depois do ajeum, não sabe?

Tudo ganha um significado específico no tempo e no espaço quando se está em Salvador. Aqui em São Paulo marcamos na sexta um encontro às 10h:00 do sábado no Mercadão pra comer um sanduíche de mortadela, em frente ao Hocka Bar; quer chegar na Bela Cintra? “primeira à direita, terceira à esquerda, segunda à direita!”

Na Bahia não seria assim. Ficaria na base do “amanhã a gente se encontra depois das dez nas 7 Portas, certo?”. Em qual horário exatamente e em que ponto do mercado são detalhes nascidos pra aborrecer e confundir; pra chegar no Largo dos Aflitos? “meu irmão, siga nessa rua aqui toda a vida. Vá andando. Tem uma hora que vc vai ver um casarão pintado de vermelho, com um placa de um negócio de material de construção. Tem uma rua do lado, não entre não, continue. Lá na frente, do outro lado da rua...ó, quer saber, eu te levo lá!”

Se você tá pensando em morar na Bahia, comece agora a reduzir o ritmo. O timing dos baianos não é nem rápido nem lento: é próprio do lugar, só existe lá e parece lento. Os olhares costumam se cruzar alongando-se alguns segundos a mais. Vá devagar, quem olha rápido demais por aquelas bandas perde o show inteirinho. Manha de prêto, olhar mais detidamente...

Volto amanhã com mais digressões sobre a Bahia. Deixo aí em cima um óleo sobre madeira pintado em 1957 e intitulado "Baianas", de Hector Carybé, exemplo único de argentino com olhar baianíssimo; abaixo, Caetano Veloso, que junto com Bethânia virou orixá e não contou pra ninguém. Cantando as dores da cidade, que são muitas e antigas.

Vou nessa, esse assunto me deu uma preguiça...


sexta-feira, 15 de junho de 2007

A IMPRENSA E O CADÁVER DE LULA


A imprensa brasileira não dá tréguas no seu firme propósito de criar uma crise institucional capaz de derrubar o presidente Lula. Não há mais limites, o jornalismo foi substituído pelo golpismo, pela hipocrisia e pela condição de porta-vozes da direita brasileira em que se transformaram as redações dos grandes veículos da imprensa. O epísódio do semi-analfabeto Vavá, irmão do presidente Lula, guindado à condição de lobista é um exemplo claro de incompetência política e má-fé jornalística. É quase impossível imaginar o Vavá fazendo mais do que contando no buteco da esquina que é irmão do presidente.

O fato é que o poder da imprensa vem sendo fortemente erodido nos últimos anos por vários motivos. Primeiro, por razões econômicas: novas mídias e a internet pulverizaram receitas históricas da Editora Abril e da Rede Globo e retiraram-lhes de quebra a exclusividade de formação da opinião pública em larga escala.

Essas dificuldades econômicas, aliadas à vaidade, parecem ter conduzido a mídia a uma atitude de arrogância inacreditável no trato com o subestimado metalúrgico, iletrado mas atento às velhas práticas da imprensa em criar dificuldades pra vender facilidades desde os tempos de Assis Chateubriand. Peitou os publishers e os venceu sem a truculência que Hugo Chavez usou no episódio da RCTV: o país cresce, os juros caem, reformas estruturantes seguem seu curso e nunca houve tão bom ambiente econômico para a decolagem brasileira como agora.

Peças importantes do projeto de poder de Lula foram perdidas nesse duríssimo embate. Palocci e Zé Dirceu foram as mais representativas baixas. E nem por isso Lula deixou de ser reeleito e gozar da impressionante popularidade que tem dentro e fora do Brasil.

Por fim, a imprensa perdeu ainda mais receitas e credibilidade quando decidiu que uma onda interminável de denuncismo poderia resolver seus problemas imediatos de audiência/receitas e de subjugação do poder executivo pela chantagem, na seqüência. Água de novo, encolheram em faturamento e credibilidadde pública. Não aprenderam nada com a reeleição de Lula.

Esses velhos barões da imprensa não sacaram que o fenômeno da internet dinamitou a exclusividade da construção do discurso em que foram criados. Para cada neofacista do calibre de Diogo Mainardi, Arnaldo Jabor e Reinaldo Azevedo a internet abre seu palco para gente como Luiz Nassif, Paulo Henrique Amorim e Mino Carta. E para milhões de outras pessoas que como eu, escrevem pra suas reduzidas platéias, pulverizando opiniões livremente por aí.

Não tenho ilusões quanto a esse jogo estúpido proposto por TV Globo, Veja, Folha e Estadão. É chantagem mesmo, golpismo no duro para a obtenção, por exemplo, da exclusividade na produção e distribuição de conteúdo na era da TV digital. Só não posso deixar de sentir tristeza em ver tantos jornalistas abnegadamente a serviço dos interesses estratégicos de seus patrões. É deprimente ver o despudor do jornalismo em episódios como esse do Vavá.

A sorte é que o povão tem uma intuição extraordinária, aprendeu a desconfiar do que ouve no rádio e do que vê na televisão. Isso os barões também não sacaram, o povo brasileiro amadureceu uma barbaridade nos últimos anos.

Mino Carta descreveu com a precisão de sempre esse triste momento da história da imprensa brasileira, anteontem no seu
blog. Transcrevo esse post aqui:

Os vencedores estão a perder

Sempre me incomodou a idéia de que a história é escrita pelos vencedores. Incomoda, mas costuma ser assim mesmo. Para o jornalista (não aludo, obviamente, aos sabujos do patrão) é a desgraça. O desastre. Agora, permito-me examinar a situação atual no País. E esfrego as mãos de puro contentamento: os vencedores de ontem, e de sempre, estão a perder. A mídia nativa produz diariamente notáveis buracos n’água. Anda sôfrega atrás de uma crise, qualquer crise, desde que ponha em xeque o metalúrgico presidente. E não consegue, a espeito do esforço maciço e diuturno. É o ciclope Polifemo, burlado por Ulisses, o Odisseu.

quarta-feira, 13 de junho de 2007

BLOGANDO O NÃO-ASSUNTO



Tem dias que é foda.

Passei a vida inteira lendo meus cronistas favoritos vez ou outra declararem em texto que estavam submetidos a um súbito apagão criativo. Nada a declarar, apenas confessar da forma o quanto mais criativa possível que juntos fugiram criatividade e tema, abandonando o escriba à sua própria sorte.

Por júpiter, se isso aconteceu com Drummond, Sabino e Clarice por quê raios de motivos não haveria de acontecer comigo, cristão-novo da escrita eletrônica que quis o destino não ser iluminado como essas pessoas na hora de transformar idéias em parágrafos?

Outro dia uma amiga me perguntou como se dava a produção dos meus posts. Demorei uns segundos pra responder, eu nunca tinha me perguntado isso. Respondi o que me soou mais honesto: rigorosamente crio o que me dá na telha, sem a menor censura interna.

Por vezes o post surge completamente estruturado na cachola, é sentar e escrever. Depois pesquisar imagem, editar e fogo; outras vezes não, preciso navegar na imprensa, em outros blogs, em bancos de imagens, Youtube, Wikipédia –enfim, tenho que dar uma bela passeada por aí pra intuir um tema.

Esse passeio também pode perfeitamente significar uma ida à Pão de Ouro, padaria perto daqui de casa que freqüento pra comprar pão, frios e ficar de conversa fiada com o Franklin, dono do estabelecimento, e com seus funcionários. Padaria é um dos mais importantes locais de convivência dessa cidade, quem vive em São Paulo sabe bem da importância das padocas, como são chamadas.

Pedalar no Ibirapuera ou no Villa-Lobos também rende bons temas, bem como a academia. Na verdade são lugares em que, como na padoca, pode-se ver e conversar com as pessoas e essa é pra mim a grande fonte de inspiração: gente falando.

Como pouco tenho saído de casa nos últimos dias, o mundo tem cabido nessas 17 polegadas que estão aqui na minha frente, suficientes pra quem quer informação, nada pra quem precisa se alimentar de sons e cores vivas. Definitivamente ficar muito tempo na caverna, sofrendo com as pressões que tenho lidado não vai gerar nenhum acontecimento espetacular. Pra falar pouco, porque na verdade esse meu período de recolhimento sabático já tá é me torrando o saco!

Vai daí que cá estou eu a estrear na arte de transformar o nada num não-assunto capaz de trazer sua leitura até esse ponto, em que me despeço: vou pedalar na avenida Sumaré e à noite encontrar amigos pra uma prosa acompanhada de chopp e espetinho de carne. Volto amanhã com relatos que se deus quiser confirmarão o que disse sobre o resultado em textos da atitude de pôr a cara na rua.

Deixo um vídeo com Fernando Deghi, notável violeiro erudito de São Paulo que andou por Portugal e Ilha da Madeira tempos atrás e voltou dedilhando sua viola caipira como os portugueses já faziam quando trouxeram esse instrumento maravilhoso para o Brasil, no século XVl. Esse cara e o Ivan Vilela são dois dos maiores instrumentistas em atividade da viola brasileira.

Beijos, inté


terça-feira, 12 de junho de 2007

O PECADO DA INVEJA





Sou um invejoso. Pronto, falei!








Acho que não mereço ser execrado por isso mas tenho uma inveja danada dos artistas plásticos em geral e dos fotógrafos em particular.









Tá, não é inveja das pessoas mas dos seus olhares, da criatividade e da técnica em flagrar o inusitado. Inveja do mesmo jeito.










Enxergam humor e poesia onde parece impossível descortinar o óbvio.










Arte não é o que se mostra aos olhos mas aquilo que modifica o olhar.









Editar o mundo por suas imagens me deixa chapado. E com uma vontade danada de ser criativo com uma câmera na mão.









Quando eu crescer quero ser assim. Que nem o fotógrafo francês René Maltête, autor desses e de outros cliques pra se ver AQUI.





segunda-feira, 11 de junho de 2007

FIGUEIREDO E A FESTA GAY DE SAMPA

Álvaro Portela Figueiredo Junior é um velho e querido amigo mas tem dois defeitos fundamentais -perfeitamente suportáveis, adianto.

Torcedor do Esporte Clube Bahia, lenda urbana que trafega uma via expressa de extinção semelhante à dos tigres siberianos. Não sobreviverá às próximas duas décadas.

Segundo, vive tentando me persuadir à revisão de conceitos que me são caríssimos, como o amor pelas mulheres. Ontem mesmo, após a inesperada derrota do Vitória para o Santo André em Salvador, recebi um email dele bem engraçadinho, recomendado-me participar da Parada Gay de São Paulo para talvez compensar o desgosto desportivo do dia anterior.

Ora, Figueiredo, quando saíamos nas madrugadas pra fazer farra em Salvador, há uma porrada de tempos atrás, esse papo não fazia parte do nosso cardápio. A rabada que entrava na pauta era a que Cimira preparava com farto pirão lá no bairro de Cosme de Farias.

Mas confesso que fiquei com uma pulga atrás da orelha. Tantos anos aqui de volta pra terrinha e nunca fui na Parada Gay. Resolvi ir e quer saber? Gostei pra caramba. Um mar de gente, muitas famílias, muitas crianças e, claro, muitos “ativistas” também.

Mas o clima é de festa, astral de diversão e convivência mais que civilizada. Trios elétricos em fila, música rolando solta numa tarde linda de domingo. Se tivesse Chiclete com Banana, Ivete Sangalo e Olodum virava carnaval baiano no alto da Serra do Mar. Muito legal.

Ninguém relou um dedo na minha pessoa, exceto um sujeito vestido de Mulher Gato que me mandou um beliscão dizendo “ô bunda gostosa da porra”, denunciando forte sotaque baiano. Inexplicavelmente saiu correndo quando eu me virei pra ver que diabos tinha acontecido. Parecido com Figueiredo, estranho...será?!

Afora esse incidente, o que vi foi uma uma bela celebração à tolerância, ao respeito às diversidades. E como a intolerância virou pra mim tema tão importante quanto o aquecimento global, às epidemias e à fome, senti que eventos dessa natureza contribuem muito para darmos passos largos rumo à civilização.


Bom seria que fossem organizadAs mais festas temáticas públicas, voltadas para a desmontagem de outras formas de violência. A lista é grande mas poderia começar com a agressividade no trânsito, o ódio classista na política, as guerras de torcidas, a truculência policial contra os moradores da periferia, o preconceito religioso contra os adeptos dos cultos afro-brasileiros, a violência doméstica e outros tantos que se elencados consumiriam telas e telas nesse post.

A única coisa que não poderia faltar nessas outras festas é o que eu vi na Avenida Paulista hoje: música, gente e alto astral. Com esses elementos é uma beleza empunhar bandeiras civilizatórias.

É isso. Fui, inté.

domingo, 10 de junho de 2007

SONHO DE VERÃO



Dia lindo em São Paulo nesse domingo. Céu azul de outono, temperatura gostosa. Feliz de quem estiver em Ubatuba ou em qualquer praia a partir de São Sebastião / Ilhabela.

Dali pra cima, sentido Rio de Janeiro, o litoral de São Paulo é belíssimo, tão bonito que a Serra do Mar não resiste e vem fazer-lhe côrte na beira do mar, abandonando a atitude esnobe que mantém com as praias do sul, onde ela assiste tudo à distância.

sábado, 9 de junho de 2007

SAMBA DE MUTÁ


O samba-de-roda do recôncavo baiano continua a atravessar os tempos, evocando nas novas gerações suas memórias atávicas, lembranças impressas no DNA dos baianos.

Samba essencial, que há séculos anima a confraternização das comunidades humildes espalhadas ao redor da Baía de Todos os Santos. Samba de pandeiro e atabaque, samba levado na palma das mãos, nos passos miúdos e no rebolado delicioso das mulheres -de todas as idades- da Bahia. Tô pra ver algo mais feliz e sensual que isso.

Sob a batuta de Josias Pires, a TVE da Bahia captou lindamente esse patrimônio cultural há alguns anos atrás, na série “Bahia Singular e Plural”, um registro audiovisual histórico que passeou gostosamente por todo o território baiano mirando suas riquezas populares numa série caprichadíssima de documentários e CD’s. Misteriosamente não estão disponíveis para venda.

Os filmes sobre o recôncavo foram particularmente tocantes pra mim, por me fazerem voltar à Mutá e reencontrar na memória o samba do recôncavo que vi nesse lugar, desde criança. Tempos de Boi Janeiro, uma farra de rua em torno do onipresente tema do boi-bumbá.

Se você não conhece bem o samba-de-roda, ouça aqui uma de suas melhores expressões, o grupo Barravento, formado por gente de Mutá e que leva a arte de sambar com os pés descalços pro mundo inteiro. Uma pequena pérola da Bahia, exemplo musical de elegância e bem-viver. ESSA é a levada que põe instantaneamente um sorriso nos lábios dos baianos e um rebolado mágico nas cadeiras das baianas.

E se você conhece o assunto, ouça também. Os caras são muito legais mesmo.

Davizinho: trocava meu milharal todinho por um dia de samba em Mutá, meu irmão! Com muita moqueca de cação, cerveja gelada e dona Dina sambando na roda! Vocês bem que podiam filmar uma coisa assim e postar no Youtube, né?

As fotos que ilustram esse post foram trazidas do site do Barravento. Para acessá-lo clique
aqui, lá tem mais músicas e informações sobre como adquirir seus CD’s.

Pra quem chega, deixo beijos e um muito obrigado pelo pit stop feito aqui. A casa é sua, volte sempre.

Fui, inté!

sexta-feira, 8 de junho de 2007

NEM VEM, ALLISON!


O Blog do Cardoso publicou na semana passada.

Esse piteuzinho aí de cima chama-se Allison Stokke. Deu no
Washington Post que ela está caçando ativamente sites e blogs pelo mundo afora que estejam usando essa foto para promover sua gostosura e não seus dotes de atleta no salto com vara pela Universidade da Califórnia.

Ela já teria inclusive tirado do ar um site de fãs, que incompreensivelmente afirmam que ela é gostosa bagarai.

Que dizer pra uma menina que aos 18 anos de idade sente-se incomodada com o fato de que é capaz de causar fortes emoções entre a rapaziada do mundo inteiro?

Meu bem, quando você tiver 50 anos, gastando uma grana preta com cremes e cirurgias plásticas, não haverá mais tanto assédio assim e, ó, você vai sentir saudades desse tempo em que tantos rapazes ficavam doidaços com a visão de você segurando uma vara. Ah vai...

Porisso que eu digo, beleza e juventude não justificam 10 minutos de prosa com mulher chata. E outra: nunca vivi a experiência de transar gostosamente com uma mala. Quebrei a cara todas as vezes.

Allison, se você vier ao Brasil nem pense em me procurar, tá?

quinta-feira, 7 de junho de 2007

PAI ESCREVE



No 19 do mês passado publiquei aqui uma homenagem à Leonan Mantero Toscano de Britto, velho guerreiro que completará 70 anos intensamente vividos, em setembro próximo.

Fiz isso por dois motivos. Primeiro porque nunca é tarde para se dizer eu te amo para um pai e isso nos fez muito felizes, a mim e a ele; segundo, pra lembrar a quem quer que não tenha ainda ajustado suas contas com seus pais que ninguém escapa ileso de rancores pastoreados contra eles. Parece piegas mas não é não. É mais gostoso e bem mais barato pôr de lado qualquer orgulho babaca e abraçar pai e mãe do que pagar prum terapeuta um grana fabulosa, que no final das contas vai te mostrar que essas pessoas são essenciais para o seu equilíbrio etc etc etc.

Deus me livre. Tenho pai e mãe vivos e adorei escrever pra eles aos 44 anos de idade, três filhos e dois netos depois para agradecer o que fizeram por mim. Vai por mim, isso faz um bem que você não imagina.

Pedro, meu irmão do segundo casamento dele com Mirza, mandou-me um e-mail essa semana anexando uma carta que meu pai me escrevera, pedindo que fosse publicada. Li feliz e publico, sim senhor, com todo o prazer.

Quem sou eu pra recusar um pedido de quem me ensinou a gostar de mulher, futebol e mocotó com cerveja gelada, que é quase tudo que um homem precisa pra ser feliz?

Não alterei uma vírgula. Nem a passagem do Drummond, que ele detesta e eu tenho todos os livros. Obrigado mais uma vez, a tela é toda sua, Chevolé!

"Querido filho Paulo, ou Paulinho, ou Pacatá.

Felicidades.

Confesso que me emocionou o BLOG. Viva ao Google, ao Wikipédia e o Youtube, que não sei quem são, mas o contexto e as recordações são válidas.

Quando se jura com os pés juntos, são os dois, isso só não faz o Saci-pererê.

Também as minhas reminiscências com vocês pequenos são de cálido prazer; você citou um tal de Mino Carta, mas o Drummond é um chato. Não sei porque tanto aplaudem esse idiota. “No meio do caminho tinha uma pedra, tinha uma pedra no meio do caminho, nunca me esquecerei desse acontecimento na retina de minhas vistas fatigadas” (repete-se a mesma besteira).

Você lembra passagens, idas e vividas que me são agradáveis. Vocês pequenos: Moacir com 15 anos, André com 13, Paulo com 7, Volney com 5 e Ionan com 2. É bom lembrar que compramos a casinha de Mutá em 1970, fomos todos muito felizes, apesar da singeleza do lugar; você conversando com os nativos que “jogava capoeira na nação de Angola” e ainda “dançava Maculelê”, Volney convidando o amigo “Mandinho” para que à noite fossem caçar jegues e o “Nan”, branquinho e cheiroso, andava de braço em braço das mulheres e das meninas da cidade e me apavorava quando ele passava por baixo de jegues.

Mutá é singular, pois é uma pequena ilha que, quando com a maré baixa é continente na contra-costa da Baia de Todos os Santos.

Lembro-me com saudades dos nativos e dos veranistas, cito alguns: seu Zeca (José Dias) comerciante, Mandinho, seu Lancha, seu Edgar, Bacurinha, Vavá (o meu amigo de sempre e colega de pescaria, com linha de fundo no canal do Jaguaripe), seu Alípio, seu Delmiro, Filhinha, Dina, das Dores (minha comadre) e seus filhos Cleômenes ou André Luis, Airton e outros. Veranistas – seu Nelson, Nelsinho, Bárbara e as irmãs, Nestor e suas filhas lindas, a prima Maria Lúcia Toscano de Britto, seu marido, dr. Edson e suas filhas Rosário e Lulu.

Já se passaram várias décadas e muitos já foram chamados por Deus e não estão mais conosco.

A recordação do nosso convívio, quer fosse na praia em Dias D’ávila, no futebol, são também para mim inesquecíveis.

Me lembro que você me contava que o Gabriel, inconsolável e quase carregado em razão de outra derrota do Vitória, e você se surpreendeu dizendo a ele as mesmas palavras que eu dizia para você em caso semelhante do passado: “é isso mesmo filho. As vezes a gente perde, em outras ocasiões se ganha”, o que Gabriel respondeu com a sagacidade dele próprio: “mas meu pai, acontece que a gente (o Vitória) só perde...”.

Isso foi no antigamente, porque o nosso Vitória só ganha.

Os Opalas –esse que aparece na foto– é idêntico ao que primeiro tive: estofamento bege, quatro cilindros, quatro portas, luxo, feito em fins de 1968, série 1969, foi o número 240 a ser feito pela fábrica e o 5º a entrar na Bahia. Tive outros, azul, verde, branco, um superluxo vermelho, além das várias Veraneios. O que entrou em Mutá era 4100 cilindradas dourado, lindo, foi festa na cidade com foguetório. Atravessei o que chama ali de “apicum” – viveiro de caranguejos. Nessa aventura, quando o carro atolava, o povo o carregava.

Bons e saudosos tempos.

Seu pai."

quarta-feira, 6 de junho de 2007

ANINHA E ARARIPE



Recebi aqui, pra minha satisfação, um comentário carinhoso e bem humorado do cineasta baiano Araripe Jr. Tá lá no post “Bravo!”, de 26 de maio. Não satisfeito com o gesto, transcreveu o artigo pro blog oficial do filme, veja aqui.

É curioso como certas coisas acontecem quando resolve-se blogar. No último domingo, a versão online do jornal A Tarde de Salvador publicou uma matéria sobre as dificuldades enfrentadas por outra guerreira da cena cultural baiana, Aninha Franco, pra manter vivo o Theatro XVlll, que completou 10 anos ali no Pelourinho.

Comentei isso com Marcus Vinicius, do blog
Licuri e na seqüência chega o Arara com a finesse própria do povo de Ilhéus, terra do meu vô.

Aí ficou irresistível alinhavar uma história e outra num post. Lá vou eu.

Meu primeiro contato com Aninha Franco -que também não conheço pessoalmente, como o Araripe- foi na época da morte do Cazuza. Jornalista talentosa e sensível, publicou uma matéria no Correio da Bahia que me fez chorar de tão bonita. Tenho-a guardada até hoje, virei fã da mulher.

Anos depois, entrei numa sala de bate-papo online –de novo em A Tarde- na qual discutia-se o Theatro XVlll e suas formas de sobrevivência. Aninha, na berlinda, levou porrada de tudo quanto é lado pelo fato de ter conseguido um patrocínio cultural da Souza Cruz, uma indústria que mata milhões de pessoas e bla blá blá. Uia!

Fiquei chocado com aquilo e escrevi um e-mail pra ela, oferecendo-lhe colo por tantas bobagens lidas. Na época eu era diretor comercial da Vadam, produtora do Mundial de Motovelocidade no Brasil e sabia o quanto era difícil e essencial obter verba de patrocínio de uma empresa daquele porte. A danada da Aninha conseguiu e, como se diz na Bahia, ainda teve que ouvir um monte de lera por causa disso. Ai meu Senhor do Bonfim...

Lembrei dessa história porque vocês, Arara e Aninha, agonizam a meu ver no mesmo abraço de fogo dos deuses, que assim demonstram o amor especial que têm por alguns de seus filhos. Não era isso mais ou menos que dizia o seu texto sobre o Cazuza, Ana?

Padecendo estóicamente da irregularidade ou mesmo da inexistência dos apoios públicos ou privados, realizam seus sonhos nadando contra a maré da cultura pop internacional, nacional e sua versão local, igualmente pasteurizada e embalada pro consumo irrefletido de grandes levas de pessoas, que lotaram as salas de cinema pra assistir o caricatíssimo "Ó Pai Ó!". Pagam caro por acreditar no poder da poesia.

Enfrentam, qual um exército de Brancaleone, as poderosas forças da indústria cultural hegemônica, apanhando também de alguns notáveis da intelligentsia baiana, há séculos contumaz em não realizar absolutamente nada por preguiça, mediocridade e falta de peito pra empreender mas laboriosa na crítica impiedosa ou maledicente dirigida a quem põe a cara pra bater e luta para realizar seus projetos.

Não me sinto no direito de pedir a vocês que resistam e sigam em frente. Façam-no se for-lhes permitido pelo prazer e pela vontade indomável de realizar com a qualidade que os moveu até aqui.

Mas saibam que enquanto alguns sorriem silenciosamente com a fraca bilheteria de “Esses Moços” ou com a penúria financeira do XVlll, outros tantos rogam aos deuses que lhes dêem a coragem de perseverar, mesmo se o desalento em algum momento falar alto em seus corações .

E que não lhes deixe faltar jamais a vontade de reinventarem-se, caminho obrigatório para quem quer se creditar a novas vitórias. Isso também é empreender.

Axé Arara, axé Aninha. Ogun os fortaleça com seu canto e sua espada, do jeitinho que taí em baixo, no vídeo.

Beijos pra quem chegar por aqui. Fui, inté!

Ah, pra quem não sabe, Odé (ou Oxóssi, sua qualidade mais conhecida) acompanha Ogun na ilustração de lá de cima porque são irmãos, junto com Exú. Senhores da luta, da fartura e dos caminhos.


terça-feira, 5 de junho de 2007

VAI QUE É SUA, MANOEL!

Você conhece algum milionário virtual? sabe aquele cara que hoje não tem um patrimônio que o permita ser reconhecido com tal mas que daqui a um tempo terá?

Conheci um, ontem. Chama-se Manoel Lemos, criador do fulminantemente bem-sucedido diretório de blogs BlogBlogs, a versão brasileira da Technorati, gigante norte-americana que tinha em julho de 2006- época em que estava sendo criado o BlogBlogs- 50 milhões de blogs cadastrados e crescia à razão de 70 mil blogs por dia. Nasceu em 2002 e mora em San Francisco, Califórnia.

A grande sacada do Manoel foi ver que a barreira da língua para os blogueiros brasileiros era a oportunidade dele criar um serviço nos mesmos moldes da Tecnorati mas falando em português e acrescentando novas facilidades. Rabiscou a idéia, desenvolveu-a e pôs o bloco na rua.

Sucesso instantâneo, o BlogBlogs virou a referência fundamental na blogosfera brasileira e cresce exponencialmente. Quando tiver uma assessoria de imprensa que o apresente devidamente explodirá de vez.

E veja você como um cara de 32 anos vira um best-seller. Conhecimento técnico, olhos atentos às oportunidades, capacidade para trabalhar muito e um toque de brasilidade admirável no trato com seus clientes, inclusive para os cristãos-novos da blogosfera, como eu.

Aconteceu que eu cadastrei o Blog do Galinho no BB dias atrás, todo animado que estava com a minha entrada oficial na blogosfera. Tudo certo, tô dentro né? hã-hã, bonitão, tem que ter um feed senão vais pra periferia da confraria. Ah, então tá...qual que é o feed porradão que tem por aí? FeedBurner, of course. Fui.

Fiz o que achava que tinha que fazer e pronto, que beleza, agora meu passaporte tem um carimbão bem bacana!

Tinha não. Copiei e colei o que devia e o que não devia no cadastro do BB e no Blog do Galinho. Estava piscando o olho praquela gata gostosíssima mas ela não me via porque o quarto tava escuro e eu não tinha me dado conta. Cassete, que troço complicado, sô!

Os dias foram passando e nada de eu conseguir resolver a parada. Joguei a toalha e pedi ajuda: pro BB e para a FeedBurner. Atenderam-me por e-mail Manoel Lemos e o Steve Olechowski, respectivamente. E hoje de manhã, depois de passar quarenta minutos comigo no bate-papo do Gmail, Manoel resolveu de vez minha parada e a fachada do Blog do Galinho tá piscando que tá uma beleza. Podem até não gostar do que vai dentro dele mas que o bicho tá visível, ah isso tá!

Confesso que a intenção inicial desse post era reproduzir integralmente como foi nossa conversa. Desisti porque ficaria enorme. Queria muito que as pessoas assistissem ao show de profissionalismo, sensibilidade e bom humor que assisti desse Manoel Lemos, ontem de manhã. É comovente ver em ação uma pessoa que acredita no que faz e faz bem.

Mas não desisti de agradecer publicamente a esse mineiro gente fina, que vai casar com a Isabella e me convidar pra passear na lancha de 60 pés dele, lá em Ilhabela, depois que os americanos resolverem assinar um cheque de 8 ou 9 dígitos pra ele, pelo BlogBlogs.

Do jeito que esse moço trabalha e trata seus parceiros tô dando já tô como certo esse passeio. Que tal chamar o Steve também, Manoel?

segunda-feira, 4 de junho de 2007

OLHA PRO CÉU, MEU AMOR...


Foi aberta a temporada de balões de ensaio na imprensa para as eleições 2008.

O jornalista Lauro Jardim publicou na Veja que está nas bancas uma “informação” sem maiores detalhes e não confirmada pelo Ibope, no melhor estilo da especulação “ouvi dizer”.

Ele dá conta que o Instituto “acabou de fechar” uma pesquisa de intenção de voto para a prefeitura de São Paulo, na qual aparecem empatados Marta Suplicy e Geraldo Alckmin, ambos com 35%. Gilberto Kassab não teria chegado aos dois dígitos.

Essa notinha, perdida no meio da edição de Veja, sai no exato instante em que o ex-governador de São Paulo e candidato derrotado nas eleições presidenciais de 2006 volta ao Brasil para tentar se cacifar como virtual nome da aliança PSDB-DEM para esse pleito, à revelia da vontade do prefeito Kassab e seus pares do ex-PFL sonharem forte com sua reeleição.

O recado subliminar da notinha é o seguinte: só há um nome capaz de derrotar Marta Suplicy em 2008, Geraldo Alckmin.

O fiel dessa balança chama-se José Serra, que vai ficar na moita até quando puder. Ou até quando ficar claro qual é o cenário que melhor se adapta ao seu sonho de Planalto em 2010.

Marta Suplicy espera conseguir aparar as arestas internas no PT, compondo com Arlindo Chinaglia a provável chapa do PT. Tem inegavelmente muita força eleitoral em São Paulo e é o nome natural do PT para a disputa. O desafio é como contemplar os interesses do PMDB de Michel Temer, nome forte para o lugar de Chinaglia na chapa e peça-chave na base do governo Lula.

Se a comunicação dessa eventual campanha acertar no tom, falando pro povão sem esquecer de piscar o olho gostosamente para a classe média paulistana –uma crônica dificuldade do partido, desde sempre- são grandes as chances de vitória.

Lula acompanha de pertinho a evolução do quadro. Marta, ao que parece, não é seu nome favorito para 2010 e a eleição dela para a prefeitura a cacifaria fortemente, tanto para a disputa presidencial como para o governo de São Paulo –nesse caso com ótimas possibilidades se Serra for candidato à presidência.

Os jogos de 2008 e 2010 estão amarradinhos e vamos ver muito balão subir e descer com os gases quentes da imprensa.

domingo, 3 de junho de 2007

COSTELA, CERVEJA E BLUES


Frio deu uma treguinha em Sampa, sai da caverna pra comer uma costela no Chiquinho, buteco a dois quarteirões de casa, esquina da Teodoro Sampaio com Capote Valente.

Já seria motivo suficiente pra dar uma suave agitada na minha preguiçosa tarde de domingo, que já veio assim desde a hora em que acordei, sem a menor disposição pra pedalar ou correr. Pra falar a verdade, assim desde que esse frio de lascar chegou por aqui, já se vão uns 15 dias.

Mas não é que o programa almoço-jornaleiro-padaria-café acabou ganhando um colorido mais saboroso ainda?

Numa das mesas da calçada do Chiquinho uma rapaziada jovem tocava blues, com dois violões, baixo acústico e sax. Pinta de meninos que fazem da música um divertido ofício. E o almoço de 30 minutos virou duas horas..

Tem muitas coisas que acontecem em São Paulo que me fazem gostar muito desse lugar, apesar da saudade que sinto da Bahia. Uma delas é sua inata vocação cultural, que vai além dos teatros e casas de espetáculo para emergir de repente nas ruas, praças e parques.

Galera talentosa, sorridente, mandando um blues de primeira e banhando essa tarde de domingo de puro bem-estar. São Paulo vive também de sua arte, que bom. Rock me baby!

É pra essa meninada feliz que me fez feliz também que mando daqui um tributo a dois caras que andaram fazendo coisas lindas juntos a um tempo atrás e continuam fazendo outras tantas cada um no seu caminho, Eric Clapton e B.B.King.

Volto amanhã, deixo beijos pra quem chegar.

Inté, fui...

sábado, 2 de junho de 2007

VAMOS SUBIR NEGÔÔÔÔ!!!!!!


Logo mais o Barradão vai bombar com a torcida rubro-negra da Bahia festejando mais um baile, dessa vez contra o Ipatinga-MG.

Joguei búzios, abri o tarô, vi no I-Ching, assuntei a borra do café na minha caneca vermelha e preta: o Brasil vai começar hoje a ver de perto quem é o Índio matador da Bahia.

É o Vitória caminhando gloriosamente pra série A do Brasileirão 2008.

Juan: cadê você, brother?!!!!



UPDATE, às 17h:59: Vitória 4 X 0 Ipatinga, dois gols de Índio, o cacique matador da Bahia. Eu já sabia...

Veja os gols:


sexta-feira, 1 de junho de 2007

ELES, INTELIGÊNCIA; NÓS, COMMODITIES


No final dos anos 90 ainda havia quem preferisse usar o Altavista ou o Yahoo como sites de busca. Hoje, 9 entre 10 usuários desse tipo de ferramenta usam o Google.

Tá procurando o quê? sites? pessoas? blogs? imagens? notícias? seviços ou produtos? Vai lá que vc acha –rapidíssimo e digrátis! É impressionante como o Google transformou um serviço poderoso e verdadeiramente imprescindível pra quem navega na internet num negócio de muitos e muitos bilhões de dólares, agregando anúncios publicitários em suas páginas.

E a roda gira cada vez mais forte pros caras. Quer ver um exemplo? Esse aqui que vc tá vendo, um blog. Tomada a decisão de blogar, lá fui eu procurar como fazê-lo. Não demorei muito pra achar o Blogger, que me hospeda hoje. Simples, fácil, com meia dúzia de boas ferramentas pra começar a brincadeira, seguro e confiável. Uma plataforma tecnológica muito legal pra quem tá começando e...digrátis, que beleza! Ajeitei o que pude e mandei pro ar mais um produto com a assinatura oculta do Google! sim, o Blogger pertence ao Google, não sabia?

Pensa que acabou, né? Nananananinha...quem não nasceu Drummond ou Carta deve ter olhos pro Youtube, até porque milhões de pessoas o fazem a cada segundo. Um tesouro de imagens a instigar temas ou ilustrá-los com som e movimento, covardia. E digrátis, de novo (outra vez? hummmm....). É, o Youtube também foi comprado pelos meninos do Google, os caras.

Passo seguinte, levantar as antenas do blog para que a galáxia saiba que nasci, passo bem e reclamo meu espaço. Hora de acionar os feeds, ferramentas que são usadas para que seu blog seja escaneado a cada vez que houver novidades nele. Uma espécie de parabólica com sinal trocado, a te fazer visto na blogosfera. Pesquisa, olha, fuça e cheguei no mesmo lugar que o resto da humanidade blogueira, o FeedBurner, poderosíssimo e preferido entre 8 entre 10 blogueiros. Precisa dizer que é digratis, funciona maravilhosamente bem e quem acabou de comprá-lo?

Na mais recente aquisição, estão levando a agência de publicidade virtual americana DoubleClick, por módicos US$3,1 bilhões. Aguardam a decisão do CADE americano para passara mão na maior agência de publicidade virtual do mundo. A turma da Microsoft e do Yahoo tá esperneando horrores por lá, alegando –veja você!- que essa fusão iria criar uma indesejável concentração de poderes numa única corporação. A história da pimenta, né?

Só falta a Wikipédia e o Skype agora pra consolidar o império. Acho que não nem precisa sentar pra esperar, aposta?

Pois é. Você taí me dando a honra da sua leitura e eu tô aqui batucando meu teclado, já pensando no próximo post. Enquanto isso, a balança comercial brasileira, mesmo com o dólar derretendo mais rápido que a Antártida, encerrou maio com um saldo positivo quase 10% superior ao mesmo período de 2006. Lá se vai soja, café, minério de ferro, bois, frangos e bananas, muitas banans. Trocados por produtos de tecnologia e inteligência –como os serviços Google.

Estamos bonitos nessa foto, hein? nós, ainda pau-brasil; eles, já não mais com aqueles mesmos espelhinhos de merda do século XVl. Política industrial pra quê, os caras têm tudo pronto!

Eu me rendo. E ainda canto loas pra esses caras, Eu não, esses dois americanos aí embaixo, eternamente bons -Dizzy Gillespie e Louis Armstrong.

Fui, inté.