POR OUTRO LADO...

sexta-feira, 24 de agosto de 2007

ENQUANTO FARFALHAM OS COQUEIROS...

Peço desculpas pela desatualização desse terreiro eletrônico nos últimos dias. Mal tenho acompanhado o noticiário. Tantas são as definições, indefinições e possibilidades reunidas diante dos meus olhos desde a minha chegada à Bahia que confesso estar um pouco confuso, ausente de foco para retomar com vigor esse prazeroso batucar de teclas, aqui. O futuro resolveu ocupar quase todos os espaços do meu cotidiano, veja você...

Voltarei em breve, promessa. Mas não vou resistir a algumas observações ligeiras:

SÃO PAULO-SP 2008

Marta Suplicy
segue mostrando-se como o único nome possível de fazer frente a Geraldo Alckmin para a prefeitura de São Paulo. Mas no xadrez de 2010, ela tem uma posição interessante a defender, com Serra saindo do páreo estadual para disputar a presidência. Pra não falar dos interesses do PMDB, que tem apoio importante a oferecer na campanha pro governo caso sinta-se confortável em 2008, por exemplo com o nome de Michel Temer. Decisão difícil para o PT, que deverá sacrificar o pleito municipal em nome do estadual e da campanha presidencial de 2010.

SALVADOR 2008

Esse mesmo jogo deverá acontecer em Salvador, com severos prejuízos para o partido. João Henrique é o nome do PMDB para a reeleição municipal, partido que tem cacife para a disputa estadual e presidencial de 2010, quando Jaques Wagner lutará por sua reeleição e Lula para fazer o sucessor. O nome de Lídice da Mata, ex-prefeita de Salvador, ganhará força e deverá ser o nome de peso da esquerda baiana para a disputa com Imbassahy.

GOVERNO jAQUES WAGNER

Duríssimo esse primeiro ano da gestão Wagner. Dinheiro pra quase nada, a máquina carlista pra desmontar e o fogo cerrado da extrema-esquerda baiana, mobilizando greves no serviço público. Oxalá venha rápido o dinheiro do PAC, Fundeb e outros tantos para fazer desse governo uma experiência vitoriosa. Senão, aguenta que o carlismo vem aí de novo, dessa vez de braços dados com o PMDB de Geddel Vieira Lima. Ai, Jesus...

A BAHIA

Continua linda, mar azul e coqueiros farfalhando animadamente nesse agosto de vento forte e chuvas intermitentes...

segunda-feira, 13 de agosto de 2007

BLINDADO PELO RESPEITO

Nessa minha primeira semana de Salvador, dois acontecimentos chamaram-me particularmente a atenção. Ambos relacionados ao fenômeno de comunicação chamado Lula.

O prefeito de Ipiaú -cidade baiana da região cacaueira com aproximadamente 45 mil habitantes- José Andrade Mendonça, deu a primeira pista. Revelou a Jacy Sande, atual secretária de Assistência Social, sua admiração pela permanente atitude do Gabinete da Presidência da República em não deixar sem respostas as comunicações enviadas em nome da prefeitura, o que segundo ele nem sempre acontece nos ministérios.

A segunda pista foi dada ontem por Mirza, segunda esposa do meu pai. Contou-me que em função do agravamento das condições de saúde do marido e do consequente aumento dos gastos com medicação, escreveu para a primeira-dama Marisa Letícia, solicitando apoio para a obtenção desses caríssimos remédios, anexando relatórios médicos e receitas. Em cinco dias recebeu de Brasília uma ligação do Gabinete, informando com quem deveria buscar os medicamentos, em Salvador. Não deu tempo de ligar, a pessoa indicada fez o contato com ela, colocando-se à disposição para o que fosse necessário.

Esses dois exemplos poderiam perfeitamente caber no diagnóstico do populismo, em que o governante de plantão age acima das instituições do estado, em benefício exclusivo de sua própria imagem.

Poderia. Mas não se encaixa com gestão de Lula. Sua opção pela inclusão social é muito mais ampla e responsável, esses exemplos apenas revelam a que ponto chegou a atenção do poder público federal às necessidades cotidianas da população brasileira. Enquanto dialoga-se com prefeitos e cidadãos, medidas estruturantes vão sendo implantadas para que em alguns anos tenhamos serviços públicos de boa qualidade, a exemplo do que está sendo feito nas áreas de saúde e educação.

Lula constrói a cada dia a blindagem que precisa para operar mudanças profundas no serviço público brasileiro, orientando-o decisivamente para o benefício de milhões de cidadãos, que nunca foram contemplados com políticas públicas de largo alcance, a exemplo do Fundeb e do Bolsa-Família, entre muitos outros exemplos de programas importantes.

Foi eleito, reeleito e deixará o governo em 2010 como o maior nome da república brasileira de todos os tempos. Só um cataclisma impedirá que faça seu sucessor na Presidência da República, para o desespero da imprensa e da elite centro-direitista representada por DEM e PSDB.

Que seu exemplo seja observado por Jaques Wagner, que precisa fazer um governo excepcionalmente bom na Bahia para enterrar de vez a praga carlista e consolidar tempos de diálogo e prosperidade nessas terras ávidas por respeito aos seus cidadãos.

Essa história de que o pacto federativo impede que estados e municípios atuem de forma eficaz em prol do desenvolvimento econômico, da inclusão social e do serviço público digno é uma balela que precisa ser desmascarada. Ipiaú é um dos muitos exemplos pelo Brasil afora do quanto pode-se fazer quando a transparência, a tolerância zero para a corrupção e vontade de servir à população inspiram seus governantes.

Há muitos Lulas espalhados pelo Brasil. São eles que mudarão a cara desse país, com o apoio e o respeito de suas populações, que sabem identificar cada vez mais claramente os bons e os maus governantes.

Esse povão, historicamente tratado com desprezo por seus governantes, sabe muito bem o que quer. Quer serviço público de qualidade e gente competente para serví-lo. O resto é denúncia movida a má-fé, em cartaz no Jornal Nacional, revista Veja, Folha de São Paulo e Estadão, cada vez menos acreditados por quem aprendeu a desconfiar de uns e aplaudir outros.

sexta-feira, 10 de agosto de 2007

PARALELAS E MARGINAIS

Fino menino, não me faz feliz desapontar a quem quer que seja. Porisso vivo infeliz, decepcionando diariamente os que se aproximam ávidos por fraternal convergência, uma impossibilidade crônica pra mim, almazinha atavicamente movida pelo debate.

Mal pus os pés na terra quente e fresca da Bahia e acho que vou desapontar meu inspirador e condutor pelos mares blogosféricos, Marcus Gusmão –velho amigo e autor do Licuri. Questionou-me recentemente se eu voltei à Bahia na condição de “baiano” legítimo ou “apaulistanado”.

É pior que isso, Gusmão. Voltei mais iconoclasta que nunca, visceralmente avesso à qualquer epistemologia geográfica. Voltei apaulistanado, carioquizado, sulmatogrossensizado (olha só o que dá essas brincadeiras gentílicas, ui!). Trago também a europa, a áfrica e a ásia vivas nas minhas retinas virtuais cansadas mas nem de longe esgotadas.

Se serve de consolo, nunca me senti mais baiano que hoje, apesar de pronto pra entender de forma aplicada os versos de Caetano em “Estrangeiro”, em que ele se dizia menos estrangeiro no lugar que no momento, referindo-se ao Rio de Janeiro.

A Bahia não é maior ou menor, pior ou melhor, mais ou menos que qualquer outro cantinho dessa galáxia, Gusmones. Ela é linda e medíocre com qualquer lugar e não merece comparações redutoras, feitas à base do “São Paulo tem X museus, Salvador tem Y”, “o PIB baiano é tanto e o do Rio é tanto vezes X”.

Interessa-me saber, por exemplo, se auto-referenciamento da sociedade baiana torna-a mais ou menos permeável ao mundo que a cerca além de suas fronteiras. Se o que se faz e pensa localmente tem o condão de influenciar e ser influenciado, de crescer na troca experiências culturais com outras regiões do Brasil e do mundo.

Se essa foi a alusão pretendida, Marcão, você está certo: voltei impregnado de multiculturalismo e penso que esse é o exato ingrediente para fruir das delícias da Bahia sem virar parte da paisagem a ser fotografada para algum folder da Bahiatursa, que nem aquele Preto Velho oficial lá do Pelourinho.

Urbi et Orbi, Orbi et Urbi. Não mão dupla sempre fica melhor, né não?

Tenho certeza que estamos de acordo em que a tolerância e a porosidade diante do mundo nunca é mau negócio para pessoas e sociedades. Espero ser esse o móvel, por exemplo, das intervenções na malha viária dessa cidade do Salvador. Se observadas as experiências urbanas de outras capitais –e São Paulo é o mais eloqüente exemplo de como tornar inviável a locomoção- a vertigem que tive ontem, do alto da passarela em frente ao Extra da Avenida Paralela, não se realizará. Ontem eu vi às oito da noite um transe de incorporação da Marginal Pinheiros sobre a Paralela. Garanto para quem não viveu diariamente o inferno das marginais paulistas que esse é um filme conhecido. A gente morre no final.

Se as intervenções feitas e a fazer na região do Iguatemi, da Rótula do Abacaxi (cabe rebatizá-la para Patela do Abacaxi?) e na Avenida Paralela não forem orientadas para o transporte público expresso e de boa qualidade, viveremos um caos muito pior que esse em poucos anos. Viveremos o cassete, jacaré, antes disso mudo pra Natal ou São Luiz. Ainda não tive chances de pesquisar o assunto mas esse papo de redução da linha do metrô em função de cortes orçamentários precisa ser duramente combatido, se verdadeiro.

É inaceitável que Salvador reproduza a opção feita em outras cidades pelo transporte individual, em detrimento da solução pública de metrô e ônibus, esses trafegando em faixas exclusivas que garantam velocidade, conforto e segurança aos seus usuários. A pergunta é: os projetos em andamento, fortemente alavancados pelo governo federal, defendem esse conceito?

Apaulistanados ou não, meus pitacos sobre esse e outros temas estarão presentes sempre por aqui. Agradeceria muito se me encaminhassem links ou mesmo textos sobre o assunto. Publico aqui, prazerosamente, qualquer coisa que contribua para essa discussão. E vamos ao debate!

Inté.

terça-feira, 7 de agosto de 2007

SÃO TANTAS EMOÇÕES, BICHO

Desembarquei em Salvador às 13h:00 de domingo último, 05/08/2007.

Ainda tô sem entender direito a profundidade da mudança. Ficaram em São Paulo meus filhos, meus netos, minha ex-mulher (e eterna amiga). É a primeira vez que me aparto deles em 25 anos: confesso tristeza e principalmente saudades. Despedida difícil em Guarulhos.

Mas é hora de começar a marcha final e ela tem seu centro geográfico na velha cidade da Bahia. Mesmo sem fazer a menor idéia do que me espera, faço minha parte e cá estou eu já a comer pão delícia, acarajé, banana-real, mocotó com ceveja gelada. Volto a correr amanhã.

Meu pai segue internado no Hospital São Raphael, quadro delicado, fui vê-lo ontem. Sem previsão de alta após quase 30 dias de internação; conforto do colo de minha mãe, do irmão Volney, de Jacy Sande.

Minha neguinha chegou sábado, antes de mim. Amanhã passo na transportadora, pego-a e levo pruma bicicletaria, pru mode ser montada, lavada e lubrificada (minha neguinha, ô mente pervetida, é minha T-Type preta, tá? quem quer uma neguinha pra namorar em Salvador não precisa importar, num sabe?). Estréia na orla baiana no próximo final de semana, ao som farfalhante dos coqueiros e do mar azul da Baía de Todos os Santos. Puro stress...

Contatos profissionais começam quinta-feira. Oxalá surja uma chance produzir coisas legais.

O Blog do Galinho vai sobreviver de textos curtos nos próximos dias, feitos mais pra não deixar você ir embora de vez. Peço compreensão, já-já a vida se organiza e a casa começa a produzir coisas ao menos pretenciosamente mais detidas. Por ora tá dureza, até o embromation tá custando pra sair.

12 anos é tempo suficiente pra que muitas coisas mudem de lugar. Volto um estrangeiro pra esse lugar e se isso não me aflije também não conforta. O olhar de quem passeia nunca se aproxima do de quem veio pra ficar, ou com pretensões de. Mesmo que sejam familiares as paisagens.

Vontade de relatar exatamente isso: a dinâmica atual da capital baiana. Acho que pode render uns posts bacanas, pricipalmente pra quem se interessa por depoimentos intimamente alienígenas. Acaba de ir pra pauta, aguarde por favor.

Eu volto, beijos. A foto lá de cima é do Fernando Vivas, a quem em breve nomearei diretor de arte desse blog, tamanho o abuso com que uso seus cliques pra ilustrar os posts desse terreiro eletrônico.

sábado, 4 de agosto de 2007

EM CARTAZ: A VOLTA DOS QUE NÃO FORAM


Vivi os últimos quase doze anos fora de Salvador. Campo Grande, Rio de Janeiro, São Paulo.

Precisei desse longo tempo para descobrir que o que me angustiava na Bahia não era a cidade e muito menos o savoir faire seu povo. Afligia-me, agora vejo com mais nitidez, era não ter saboreado o mundo fora do eixo geográfico e cultural em que vivi dos 12 aos 32 anos. Estava encharcado de Bahia, ou virava o botão pra outras estações ou entrava pro comércio de berimbaus.

A vida se encarregou de resolver esse dilema e eu fui embora, cumprir uma espécie de exílio desejado, que me fez rir, chorar e escancarar os poros para outros vetores.

O exercício da persuasão ganhou roupa nova e de repente estava eu diante de gerentes e diretores de marketing de grandes empresas nacionais e internacionais argumentando conveniências de imagem para o patrocínio do Grand Prix Brasil do Campeonato Mundial de Motovelocidade.

Vender confiado nos poderes do gogó já não era suficiente. Tive que, a duras penas, aprender a planejar, elaborar estratégias consistentes e alinhadas com as expectativas de corporações empresariais que sabem precisamente o que precisam atingir dentro de seus planos de comunicação. A solução comercial óbvia e auto-aplicativa migrou para a formulação taylor made, calçada em ferramentas de comunicação adequadas a quem eram dirigidas. O vendedor que virou gerente teve que aprender a ser diretor comercial.

Não foi fácil. O coloquialismo incestuoso com que fui formado na Bahia simplesmente não funcionava nas rodas de negócios em que fora admitido. Outros códigos, outro mundo, muitas exigências.

Acertei, errei -mas acima de tudo aprendi muito. Saldo pra lá de positivo.

Agora é hora de voltar e humildemente recomeçar a vida na velha Cidade da Bahia. Chego amanhã e não faço a menor idéia do que farei para sobreviver e criar. Só sei que é preciso voltar e que sou um menino fino, não reclamo mais da condição de passageiro dessa vida.

Volto com o espírito desarmado acerca do que a Bahia tem pra me dar, cultural e materialmente. Não é pouco nem é muito: é o suficiente pra viver num ritmo mais humano e próximo de amigos há muito queridos.

As inclinações são muitas e as sugestões ainda maiores: transformar o Blog do Galinho num programa de rádio...hummmm...pode ser.

Contribuir para o governo Jaques Vagner aportando expertise no desenvolvimento de parcerias privadas pra o setor cultural e esportivo do estado. Pode ser também...por quê não?

Quem sabe as sugestões virem convites e a roda comece a girar novamente, né?. Quem sabe?

Desembarco carregando sonhos e muita vontade de ser e fazer feliz. Ogun chega antes, como sempre. Não duvido nem um pouquinho que ele sopre no ouvido de alguém a sugestão de convidar-me para empreender na iniciativa privada ou no serviço público baiano. Eu adoraria avaliar possibilidades novas em terras baianas, tô fácil-fácil pra isso.

Bahia, minha nêga gostosa: os que foram sem nunca terem ido pedem licença pra voltar. E pra te enxergar com o zoom melhor ajustado.

Agô, Salvador!


As fotos que ilustram esse post foram feitas por um rapaz talentosíssimo chamado Alexandre Huang. Para ver mais dele, clique AQUI.

quinta-feira, 2 de agosto de 2007

SANGUE NAS REDAÇÕES: A VITÓRIA DO "NOTÍCIAS POPULARES"

A Câmara dos Deputados, por sua CPI do "Apagão Aéreo" e a imprensa brasileira protagonizaram nessa quarta-feira uma das cenas mais deprimentes que vi na minha vida: a divulgação do diálogo mantido entre os pilotos do TAM 3054 e deles com o controle de Congonhas nos minutos que antecederam aquele terrível acidente.

A quê serviu essa divulgação, além de maltratar ainda mais os familiares das vítimas da tragédia, atrair audiência para todos os veículos de imprensa e holofotes para esses deputados?

A nada que pudesse ser útil às investigações, que precisam apontar responsabilidades pela morte absurda de 200 pessoas aqui em São Paulo, dias atrás. A conversa dos pilotos entre si e com a torre em NADA esclarece o que aconteceu sem o devido cruzamento com o conteúdo da outra caixa-preta, a que tem os dados do comportamento da aeronave durante o pouso.

Eu não posso acreditar que a imprensa brasileira tenha assumido de vez sua condição de produtora de emoções primitivas como estratégia comercial necessária para sua sobrevivência. Perdeu-se por completo os limites éticos e humanos que deveriam presidir o trabalho árduo da produção de conteúdo noticioso sério e informativo.

Vale tudo, qualquer coisa que gere emoção, mesmo que mórbida e inútil, para faturar em circulação, audiência, publicidade.

Não há, nesse terreno, diferença alguma entre transcrever o desespero desses Comandantes diante da morte ou publicar fotos de corpos carbonizados. O efeito seria o mesmo e o resultado comercial, idêntico.

O Notícias Populares, quem diria, virou uma espécie de encosto jornalístico. Na linguagem espírita, diria que um obsessor bem sucedido: conseguiu, depois de morto, influenciar decisivamente as redações de todo o país, fazendo da crônica policial sensacionalista um paradigma para todas as editorias. Vivemos o tempo da estética do macabro nas rádios, TV's, jornais e revistas, portais de internet.

Crimes, escândalos, denúncias: a informação foi pro ralo, a notícia-choque é a que persegue-se delirantemente. E as "provas" de hoje, se desmentidas amanhã, não deixarão editor algum envergonhado, como no caso da pista sem grooving, lembram? ora, se não deu pra pôr a culpa nas costas da Infraero e da ANAC, como se quis no primeiro momento, paciência. Faça como a Veja, responsabilize os pilotos e se ainda não der pé, manda a conta para a TAM e para a Airbus. Mas não perca a emoção, estique ao máximo os efeitos da tragédia até que se encontre uma nova tragédia ou um outro escândalo.

Para concluir esse assunto, que embrulha-me o estômago há mais de 15 horas, leia AQUI uma notícia publicada no Estadão, que dá conta do espanto causado no exterior pela divulgação do conteúdo de áudio de uma das duas caixas-pretas da aeronave. É gravíssimo precedente em todo o mundo e causou indignação generalizada.

O parlamento brasileiro tem todo o direito de acompanhar de perto as investigações do acidente de Congonhas. Mas NÃO tem o direito de fazer promoção pessoal ou política, tratando com leviandade -em parceria com a imprensa- um assunto tão grave como esse.

quarta-feira, 1 de agosto de 2007

A VERDADE SOBRE A TRAGÉDIA DE CONGONHAS


Transcrevo aqui um exemplo de lucidez na análise das escolhas editoriais feitas por quase toda a imprensa brasileira no episódio da queda do Airbus da TAM em Congonhas.

Esse artigo foi publicado no site Observatório da Imprensa dia 31/07 e disseca com muita propriedade o comportamento patológico da grande imprensa brasileira.


RESCALDOS DA TRAGÉDIA

A primeira vítima é a verdade. Outra vez

Por Luciano Martins Costa em 31/7/2007


A imprensa brasileira reescreveu, nos últimos dias, o sucesso literário de Philip Knightley, no qual o autor australiano, que fez carreira brilhante no Sunday Times da Inglaterra, demonstra que as informações sobre guerras na modernidade sempre foram manipuladas.

Desde a guerra da Criméia – entre 1854 e 1856, quando se deu pela primeira vez o uso intensivo do telégrafo elétrico – até a Guerra do Vietnã, constatou Knightley, os relatos dos repórteres eram distorcidos pelos editores de jornais para auxiliar a propaganda de guerra dos governos envolvidos. No tempo da internet, declarou o jornalista há dois anos durante encontro de repórteres em Londres, a manipulação dos fatos de guerra continua predominando, determinada por interesses políticos e econômicos dos controladores da mídia. Ele assegura que, ainda hoje, a primeira vítima de uma guerra é a verdade.

O primeiro golpe

A imprensa brasileira, em sua representação hegemônica, tentou plantar, durante os primeiros dias da cobertura da tragédia ocorrida em 17/7 em Congonhas, a tese segundo a qual o Airbus que fazia o vôo JJ 3054 havia derrapado na pista principal do aeroporto, que teria sido irresponsavelmente liberada mesmo sem as ranhuras que deveriam facilitar o escoamento da água das chuvas. A verdade recebeu aí o primeiro golpe.

Na cauda dessa primeira versão, a imprensa amarrou a interpretação segundo a qual o acidente era a culminância de uma sucessão de problemas na aviação civil, à qual se havia convencionado chamar "apagão aéreo". Os fatos diriam que a verdade estava novamente sendo violentada.

O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, de fato, havia demonstrado durante os últimos doze meses inabilidade para garantir o funcionamento seguro, confortável e pontual do setor, mas a responsabilidade das duas empresas aéreas que dominam o mercado – TAM e Gol – não poderia ter sido colocada em segundo plano nas análises sobre a questão.

Os ganhos das duas empresas com a exploração desmedida dos aeroportos mais rentáveis do país, em especial o de Congonhas, foram estampados em todos os jornais nos últimos dias da semana passada. As perdas que as duas empresas tiveram após a tragédia do dia 17 são o atestado de que, no mínimo, a imprensa deveria ter investigado com mais desprendimento as causas do estresse dos controladores de vôo nos últimos meses. Resta evidente que houve, em todo esse período, uma pressão desmesurada das empresas pelas operações em situação-limite, à qual correspondeu a cumplicidade da Infraero.

Considerando-se que quase 92% do mercado é dominado pelas duas companhias, fica fácil imaginar também o temor do desemprego que marca o dia-a-dia de pilotos, atendentes de bordo e funcionários de apoio e manutenção. Esse, sabemos hoje, seria um componente importante de um quadro mais próximo da realidade, a ser apresentado no noticiário. Esteve presente em algumas páginas, mas nunca com o destaque que se deu à falta de ranhuras na pista da tragédia e a outros elementos vinculados ao desastre de Congonhas.

Escolhas editoriais

No décimo dia após o acidente, a imprensa apresenta o movimento "Cansei", liderado por empresários e instituições civis, como uma reação da sociedade – nascida na emoção da tragédia e sem conotação partidária – a toda uma sucessão de descalabros e carências sociais e políticas. Embora a campanha tenha produzido palavras de ordem mais amplas, como "Cansei do governo paralelo dos traficantes" e "Cansei de empresários corruptores", o "caos aéreo" era ainda o destaque associado ao noticiário sobre o lançamento da campanha.

O movimento, iniciado pela seção paulista da Ordem dos Advogados do Brasil, tem grandes possibilidades de produzir como efeito uma maior qualidade do Estado, em todas as suas instâncias, se ao discurso de seus integrantes corresponder uma maior coerência com certas ações, como, por exemplo, uma melhor seletividade dos beneficiários de doações para campanhas eleitorais e a redução da prática de oferecer propinas a funcionários governamentais. Eles precisam, primeiro, dizer "não" ao caixa 2 em suas próprias organizações, e reduzir a proteção corporativista aos representantes de suas instituições envolvidos em escândalos, e a imprensa deve estar vigilante quanto a isso.

As repetidas declarações dos líderes do movimento, que imputam a uma ampla variedade de motivos sua decisão de fazer valer os desejos da chamada sociedade civil organizada, podem desencadear mudanças significativas nas instituições, mas para isso a imprensa precisa jogar um jogo limpo, fiel ao que se anuncia como motivação dos criadores da campanha "Cansei".

Diferentemente do que repetem alguns notáveis fazedores e observadores da imprensa, a afirmação de que os lordes da mídia persistem num viés de agressiva hostilidade ao presidente da República não equivale a conspiracionismo. A imprensa é de oposição, em grau que só se compara, historicamente, ao que se passou durante o curto governo de João Goulart – talvez por isso mesmo de tão curta duração, amputado que foi por um golpe militar fortemente apoiado na mídia.

Aparentemente, o Brasil de hoje não se pauta mais pelo que dizem os editoriais dos três jornais mais poderosos. Também há que se registrar que os lordes da imprensa têm direito a amar ou odiar, respeitar ou desprezar este ou aquele governante, este ou aquele personagem da cena política. Da manifestação dessas predileções, com mais ou menos talento, são feitas as páginas de opiniões. O problema começa quando o noticiário é contaminado por esse opiniário.

E isso ocorre principalmente porque, na atual estrutura dos jornais, revistas e demais meios de jornalismo, já não há espaço para as divergências em relação ao veio principal de opinião, o do proprietário. Assim como os pilotos e engenheiros da aviação civil ficam entre obedecer a ordens controversas em relação às melhores práticas e encarar o desemprego, para a imensa maioria dos jornalistas a escolha fica restrita entre amarrar as escolhas editoriais ao opiniário predominante ou partir para o desligamento – como se diz, ir cuidar de "projetos pessoais".

Veredicto apressado

Alguns jornalistas se alinham por convicção, outros por conveniência, e grande número porque são profissionais com grande talento para a prospecção de oportunidades na carreira, sejam elas aceitáveis ou não de um ponto de vista ético. Não que devessem usar o posto para fazer proselitismo, como ocorreu em muitas redações durante os anos 1980, em favor do partido que atualmente está no governo. Apenas se observa que, hoje, praticamente inexistem filtros eficientes entre a opinião dos donos e as escolhas editoriais dos profissionais que decidem a linha do noticiário.

Deste lado da sociedade, o risco visível é de que a imprensa perca valor em sua função social de fiscalizar os poderes, por uma insistência viciosa em imputar ao Executivo todos os males do país e creditar ao mercado ou ao imponderável todos os bons números da economia e as análises sobre a estabilidade institucional.

Se perder credibilidade e influência sobre a sociedade de modo mais amplo, como parece ter acontecido nas últimas eleições, e concentrar seu poder de convencimento em determinadas faixas da classe média, a imprensa estará produzindo um tumor de radicalismo e preconceito cujas conseqüências não se pode prever.

A complexidade atual das relações sociais não favorece exercícios de futurologia confiáveis, nem está habilitado este observador para tanto. Porém, é seguro afirmar, pela leitura cuidadosa do noticiário das duas últimas semanas, que a imprensa, de modo geral e quase unânime, procurou jogar no colo do presidente da República os cadáveres do Airbus que fazia o vôo JJ 3054. Apressou-se em dar um veredicto que em dois dias se revelou sem fundamento.

Não há como não dizer que, havendo uma guerra deflagrada entre a imprensa e o atual governo, a primeira vítima tenha sido, outra vez, a verdade.