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sexta-feira, 30 de novembro de 2007

EXCLUSIVO: ENCONTRAMOS A SOLUÇÃO DE MORADIA PARA O BAHIA!

Depois da queda, o coice. Não bastasse o avançado estado de decomposição do Esporte Clube Bahia, a exalar um mau cheiro que nem o povo humilde de Itinga aguenta mais, a torcida tricolor agora está diante de um problema, digamos, socioesportivo: o time não tem onde jogar em 2008.

Digo assim, "não bastasse", porque o clube já não tem direção há muitos anos, mesmo tempo em que alternou elencos medíocres com times de perna-de-pau, para a alegria da galera rubro-negra.

A Fonte Nova não tem condição de acolher uma disputa de badmington, está visto; o estádio de Pituaçu está pela bola sete a uma cara. Que fazer?

No Barradão não vai dar. O estádio Manoel Barradas, propriedade do Esporte Clube Vitória, não está a altura das já antigas glórias tricolores. Imagina se o Bahia vai se sujeitar a jogar no lixão de Canabrava? não, não e não. Mesmo na lama há que manter-se a espinha ereta, tá lá no Salmo 23.

A grandeza esportiva e a humildade, duas das mais resplandescentes virtudes que minh'alma abriga, uniram-se para bolar um plano capaz de salvar o Jaía. E por mil abarás, a luz se fez!

No início da avenida Luiz Tarquínio, pertinho (300 metros) do antigo Cine Roma, tem um campo de futebol do Sesi. Se não me engano chama-se Presidente Dutra e deve caber umas 1.500 pessoas.

A diretoria do Bahia, utilizando-se de sua lendária capacidade de negociar inteligentemente, poderia fazer um acordo especial com a TV Globo e sua concessionária local, a TV Bahia, e montar um telão gigantesco ali mesmo no largo de Roma. Cercaria a área e cobraria uma grana preta para que seus crédulos torcedores pudessem, juntos, empurrar o time rumo à série A de 2009.

Valendo-se dessa estonteante sagacidade negocial, reuniria patrocinadores para garantir farta distribuição de cornetas, megafones e fogos de artifício. E mais: espalharia dezenas de microfones para captação do clamor da patuléia, que seria ouvido dentro do estádio por meio de poderosas caixas de som -tudo para intimidar os times adversários com um barulho ensurdecedor.

Pensa que é só? para encher-lhes a alma do mais puro terror, plantaria notícias na imprensa da cidade do time visitante dando conta de que o ex-craque Bobô estaria chegando nos próximos dias para assumir a gestão do estádio local. Demais essa, hein?

Antes que a nação rubro-negra encha a minha pessoa de porrada e o campo de comentários desse post de insultos, por exumar o histórico adversário com tão genial solução, aviso: faço qualquer negócio pra não ver o Bahia jogar no Barradão, exceto quando for pra cumprir a rotina dos últimos anos, a de levar pau jogando contra o Vitória pelo Campeonato Baiano.

No Barradão não, pestilentos!

quarta-feira, 28 de novembro de 2007

FONTE NOVA: O DESABAMENTO DAS VELHAS MÁSCARAS

O governador da Bahia, Jaques Wagner, anunciou a imediata interdição e a futura demolição do estádio Otávio Mangabeira. Segundo ele, no mesmo local será construído uma moderníssima praça esportiva, apta inclusive a cumprir todas as exigências da FIFA para a Copa do Mundo de 2014.

Muito bom, governador. A Bahia merece mesmo um estádio à altura do seu povo e de suas tradições esportivas. Mas a gravidade dos acontecimentos do último domingo, em que 7 pessoas morreram, tragadas pelo buraco que se abriu sob seus pés durante o jogo BahiaXVila Nova, impõe a necessidade de adiarmos a comemoração dessa decisão. E refletirmos detidamente sobre alguns aspectos dessa e de outras tragédias correlacionadas ao desprezo pela vida humana.

1) É impensável que ficarão impunes os responsáveis pela morte dessas pessoas. O Governo da Bahia deverá responder por crime de omissão ao não ter interditado o estádio logo após sua posse e pior, ter permitido seu uso com lotação máxima. A Sudesb tinha conhecimento das precaríssimas condições estruturais da Fonte Nova e agiu como se fosse um órgão promotor da ascenção do Esporte Clube Bahia à segunda divisão do Brasileirão. Assumiu o risco do anunciado desastre e deverá pagar exemplarmente por isso.

2) As ruínas da Fonte Nova, pintadinhas de azul, expõem com eloquência o que foram os anos da gestão ACM para o patrimônio público baiano. Diretamente ou por meio de seus gerentes-governadores ou gerentes-prefeitos, desprezou-se a manutenção dos equipamentos nos limites da incompetência ou mesmo da má-fé. Não importava manter funcionando o que fora inaugurado com pompa e circunstância: recebida a fatura política, dane-se o que viria depois. Impossível esquecer as palavras de Caetano Velloso: "Parece obra e já é ruína". As fontes secas do Campo Grande, da Praça da Sé, da Piedade; o asfalto precário e os faróis apagados das ruas; escolas e postos de saúde em avançadas condições de deterioração. Simplesmente não há cultura gerencial de manter-se o que foi erguido com os recursos da população. Parou de funcionar? põe abaixo e faz outro, pronto!

3) Essa declaração de Wagner tem um valor simbólico muito ruim. Perdeu-se a oportunidade de pôr a nu o flagelo gerencial do carlismo expresso no desprezo pela manutenção do patrimônio público e, pior, anunciou-se a repetição da mesma prática. Péssimo nesse sentido e incompreensível por não ter dito com todas as letras de que estaria empenhado na apuração das responsabilidades de sua equipe e que não hesitaria em punir se necessário fosse. Faltou culhão.

4) A responsabilidade das gestões anteriores não exime de culpa o ato de omissão do atual governo em relação à interdição da Fonte Nova. Deveria tê-lo feito e não o fez. A coragem demonstrada na área da cultura, por exemplo, faltou por completo nesse episódio.

5) Ainda há tempo do Governador mandar um aviso claro ao seu time de colaboradores, demitindo a direção da Sudesb. Às vésperas de completar o primeiro ano do seu mandato, tá na hora de trocar os copos para a próxima rodada, substituindo pessoas que provaram-se incapazes de fazer frente aos desafios de reconstrução da Bahia. Acima dos afetos pessoais está o dever de corresponder às expectativas do povo baiano de ver-se representado no Palácio de Ondina por gente corajosa, competente, criativa e realizadora. Hora de pôr as cartas na mesa, Governador.

6) A imprensa carlista vai faturar alto com esse episódio e a oposição tem o direito político de lucrar com isso. Explorar os erros do adversário faz parte do jogo. Só não dá pra dizer que a implacável cobertura do jornal A Tarde foi movida por interesses subalternos ou vinculada às conveniências políticas de A ou B. Os fatos são gritantes e estranho seria se o velho jornalão baiano fugisse de sua responsabilidade jornalística diante de tão grave acidente.

7) O governo Wagner não pode ser julgado pela performance perna-de-pau de sua Sudesb. Está operando transformações estruturantes em várias frentes e deverá ser um marco na história gestão pública baiana, se tiver a coragem de substituir alguns gestores incompetentes, que já são, a essa altura, facilmente identificáveis.

segunda-feira, 26 de novembro de 2007

O DESABAMENTO DA FONTE NOVA E A TRAGÉDIA DO SERVIÇO PÚBLICO

Vi ontem à noite no programa Fantástico da TV Globo, uma declaração do diretor da Sudesb (Superintendência de Desportos do Estado sa Bahia), o ex jogador de futebol Bobô, que me arrepiou. Ele afirmou, no rastro da morte de sete pessoas e de dezenas de feridos, que coisas como aquela serviam pra reforçar a necessidade de um novo estádio. Em linha com as declarações feitas por ele próprio e pelo governador Jaques Wagner semanas atrás de que era mais barato implodir a Fonte Nova e construir um estádio novo ali mesmo ou em outro lugar do que reformá-la.

Um fato de tamanha gravidade como o que aconteceu ontem em Salvador merece apuração tão rigorosa quanto cuidadosa. Gritam os indícios de que a Sudesb, a Federação Baiana de Futebol, a CBF e o próprio Esporte Clube Bahia tinham pleno conhecimento dos riscos envolvidos no uso de um estádio em deploráveis condições de segurança estrutural.

O Sinaenco (Sindicato de Arquitetura e Engenharia), em inspeção feita a pedido da CBF recentemente, já havia apontado o estádio de Salvador como o pior entre os 29 visitados pelos integrantes da entidade em todo o Brasil (veja aqui).

O jornal A Tarde denunciava os mesmos problemas em sua edição impresa, logo após a divulgação da escolha do Brail como uma das sedes para a Copa do Mundo de 2014.

O mesmo diário baiano aponta na sua edição eletrônica de hoje de que essa tragédia estava mais que anunciada (veja aqui). A matéria informa, entre outras coisa, que a promotora Joseane Suzart, do Ministério Público Estadual, já havia ajuizado, em janeiro de 2006, ação civil pública na 2ª Vara Especializada de Defesa do Consumidor contra a Superintendência de Desportos do Estado da Bahia (Sudesb), alertando para as instalações físicas precárias da praça esportiva, oferecendo risco à saúde e segurança dos torcedores. Até hoje o poder judiciário baiano não se pronunciou sobre o assunto.

Idênticos alertas foram feitos à Sudesb pelo Corpo de Bombeiros em 2005 e pela Polícia Militar na semana passada.

Ou seja, a Sudesb tinha pleno conhecimento do comprometimento estrutural da velha praça esportiva baiana e ainda assim autorizou "casa cheia" nos jogos do Bahia pela série C. Cedeu, aparentemente, às pressões financeiras e desportivas para que o Bahia pudesse voltar à série B do Brasileirão de 2008.

Conseguiu, o Bahia está de volta à segunda divisão. E sete pessoas serão sepultadas hoje em Salvador por conta dessa inacreditável decisão.


Quem acompanha esse blog sabe que apoiei e apoio o projeto de poder do PT desde a sua fundação. Não sou cristão-novo nesse assunto e continuo convencidíssimo que a história do brasil será contada na base do "antes de Lula" e "depois de Lula". E que Wagner já faz e fará um grande governo na Bahia.

Mas entendo também que os gestores -eleitos ou não- são sempre menores que o Estado. O estado democrático de direito pressupõe a defesa intransigente desse princípio e sua inobservância sempre custou caro à sociedade brasileira.

Se houve negligência do Governo do Estado -e tudo aponta para isso- diante desse horror que vimos ontem, responsabilize-se e puna-se exemplarmente seus autores, custe o que custar e sem tentativas, por favor, de imputar ao governo anterior responsabilidade exclusiva pelo que aconteceu ontem à noite. O poder de interdição da Fonte Nova pertence ao atual executivo baiano, que poderia, sim, tê-lo feito em nome da segurança dos torcedores do Bahia e não o fez. Isso é fato.

Com a palavra, o governador Wagner e o Ministério Público Estadual.

sábado, 24 de novembro de 2007

A UM PASSO DA ETERNIDADE


Essa foto, como todo acontecimento extraordinário, varreu a internet nos últimos dias. Deu no Kibe Loko e no Sarapatel. O notável tricolor baiano Otávio Almeida mandou-me por e-mail, feliz com a virtual ascenção do EC Bahia para a segunda divisão do Campeonato Brasileiro de futebol de 2008.

Que posso fazer diante da insanidade de pessoas queridas como Handerson Leite, Armando Machado, Álvaro Figueiredo, Marcus Gusmão, Juan Sande e outros tantos, que insistem em macular suas reputações alimentando uma paixão destrambelhada e há muito não correspondida?

Queridos: pensando bem, que são mais alguns anos de penúria diante da eternidade da vida, das eras geológicas, da expansão do universo? a chegada do Jaía na série A em algum momento dos próximos anos coroará esse esforço épico de encher a Fonte Nova a cada rodada, ano após ano, felizes tal qual mosquito em cu de cachorro. O sofrimento aprimora a alma -mesmo as mais rudes, como as da foto, ou as mais insensatas, como a de vocês.

Só lamento não poder corresponder à expectativa de alguns em dirigir minhas melhores energias a esse ícone do ocaso futebolístico brasileiro, em nome da baianidade. Sei bem o que passei na década de 70 ali mesmo na Fonte Nova e por isso afirmo: torço pelo Bahia sim, torço pra que fique décadas alternando temporadas na segunda e na terceira divisão, Com a Fonte Nova sempre lotada, é craro!!

E dá licença porque eu tenho mais é que me preocupar com a Libertadores de 2009, valeu?

Fui.

sexta-feira, 23 de novembro de 2007

DICIONÁRIO HINDU / BAIANÊS - PARTE II


Dando prosseguimento à mesopotâmica tarefa de estreitar laços com o povo da Índia, a pedido do Itamaraty, temos aí em cima o nosso glorioso Frango Assado.

Acredito que os indianos também não comem frango, além da sagrada carne bovina. Se comessem, não chamariam essa variante do Kama Sutra de "A Glória", né?

quinta-feira, 22 de novembro de 2007

AS BARRICADAS DO DILETANTISMO ACADÊMICO CONTRA O REUNI


Juro, pelos culhões de Júpiter, que é mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha que o corporativismo das academias universitárias e o poder judiciário -pra ficar só em dois exemplos- seja menor que a vaidade de seus membros e o compromisso com o serviço público de alto padrão que se espera dessas instituições.

Mesmo eu, fino menino criado na crença de que a luta por um mundo melhor resumia-se essencialmente na derrota do "sistema", confesso perplexidade diante dos argumentos erguidos contra o REUNI, programa do Ministério da Educação voltado para o ensino superior que se propõe a alterar dramaticamente a relação aluno/professor (dos 10/1 de hoje para 18/1), a oferta de vagas em 100% (especialmente no período noturno), diminuição expressiva das taxas de retenção e evasão e a otimização dos recursos físicos, humanos e financeiros (em outras palavras, gestão competente dos recursos públicos).

O programa ataca também o tecnicismo dos currículos atuais e propõe ações concretas para que os alunos tenham uma formação holística, capaz de torná-los aptos à compreensão de novos conhecimentos através de recursos pedagógicos adequados. Prontos pra aprender a aprender, esse é o conceito perseguido.

Quem quiser tirar suas próprias conclusões, leia as ponderações colocadas pela UNE em seu portal (aqui), favoráveis ao REUNI; e as feitas pelo Reitor da UFCG (aqui), a meu ver impregnadas de frases bem articuladas, de preocupações bem intencionadas e de velha e conhecida capacidade de transformar o óbvio numa discussão eterna e paralisante. Há mais elementos capazes de ajudar a compreender essa história no post de 20/11.

Pra mim deu, já vi esse filme antes, a gente morre no final. Resta-me desejar que o Governo não ceda às chantagens retóricas do corporativismo acadêmico e implemente essa importantíssima política pública.

Como sonhador contumaz, dirijo também minhas incansáveis esperanças de que a academia desça à terra e assuma a responsabilidade de contribuir para o aperfeiçoamento do REUNI e para o desafio da inclusão, da qualidade, da produtividade e da transparência que estão diante de cada universidade pública do Brasil.

O povo brasileiro agradece, doutores.

quarta-feira, 21 de novembro de 2007

UM POEMA-EXALTAÇÃO


mulher, mulher

mistério doce e eterno

que minh'alma comprime

e estica


ainda que a surpresa

a faça

uma estranha forma

de pica



(Inspiração e foto extraídos do impagável Catarro Verde)

terça-feira, 20 de novembro de 2007

POR QUÊ O REUNI INCOMODA TANTO A ACADEMIA?


Segue dando quilômetros de panos pra manga a implantação do programa REUNI do Ministério da Cultura. As entidades representativas dos professores universitários mostram-se frontalmente contrárias a essa política pública do governo Lula. O movimento estudantil, alinhado com os professores, fez da ocupação física das reitorias uma estratégia nacional de resistência ao REUNI.

Aqui na Bahia os estudantes foram forçados pela Polícia Federal a abandonar a sede da UFBA, após mais de um mês de ocupação. O pedido de reintegração de posse foi feita pela reitoria da instituição e o cumprimento do mandado judicial gerou confrontos com os estudantes. Segundo eles, houve truculência por parte da força policial e há ameaça de jubilamento dos alunos envolvidos na ação de ocupação por parte do reitor Naomar Almeida Filho.

Duvido muito que o Reitor Naomar faça uso da retaliação contra esses estudantes, fazendo uso de medidas administrativas extremas diante de um assunto que é iminentemente político. Como duvido também que os estudantes foram "violentamente agredidos" durante a ocupação, a menos que empurrão e condução enérgica possam ser entendidos como selvageria. A polícia estava ali para cumprir um mandado judicial e os estudantes dispostos a não sair. Por Netuno, não se resolveria o impasse na base do "por favor, cidadão estudante, queira fazer a gentileza de desocupar esse prédio público, vamos esperar pacientemente tá?". Polícia não age assim nem no céu, cazzo!

A estratégia da ocupação implica nos benefícios de divulgação da questão perante a opinião pública. Mas implica também no fato de que ocupar indefinidamente um prédio público gera consequências jurídicas, como a do direito da Reitoria em reaver seu espaço administrativo.

Se houve abusos, apure-se e punam-se os responsáveis. De ambas as parte.

O que não dá é pra resumir um assunto tão importante como esse do REUNI aos fatos acontecidos semana passada. O tema não merece tamanha redução.

Os argumentos utilizados pelo MEC na defesa dessa proposição parecem inatacáveis: quem poderia ser contra o aumento da oferta de vagas na rede pública de universidades, inclusive à noite, uma necessidade de muitos trabalhadores poucamente assistida pela União? quem poderia levantar-se contra a evasão escolar e à ocupação de vagas indefinidamente por estudantes que demoram às vezes mais de uma década pra cumprir uma simples graduação?

O bicho parece pegar quando o governo exige parâmetros rigorosos para que as Universidades aderentes ao programa recebam as verbas necessárias à expansão do ensino. A Academia detesta ser exigida e sente-se afrontada quando o MEC cobra transparência e otimização dos recursos físicos, humanos e financeiros disponíveis e dos que virão.

Por outro lado, são reais as possibilidades de que a sede por números do Governo possam atropelar a qualidade do ensino público superior e que o REUNI não indique claramente a necessária compatibilidade entre recursos e metas.

A discussão proposta por alunos e professores é saudável e absolutamente necessária. Não merece ser reduzida ao corporativismo da Academia, às velhas ações radicalóides dos estudantes e a falta de habilidade dos condutores desse assunto dentro do MEC.

Encontrei na net dois panfletos, entre outros arquivos, sobre essa questão. Um, produzido pela UFBA, fala a favor; o outro, de autoria da ANDES, contra. Vou pesquisar mais na rede e trazer documentos com maior profundidade praqui.

Fui.

sábado, 17 de novembro de 2007

LUZES SOBRE O DEBATE RACIAL NO BRASIL


Tornei-me fã de do poeta, historiador e antropólogo Antônio Risério há vinte e poucos anos atrás, depois de ler "Carnaval Ijexá", um ensaio marcante sobre o carnaval da Bahia como palco da questão racial na Bahia e no Brasil.

A produção de Risério manteve-se vertiginosamente intacta nessas décadas. É um dos principais pensadores contemporâneos, referência obrigatória para a compreensão do Brasil.

Após o excelente "
História da Cidade da Bahia", Risério volta à cena editorial prometendo meter o dedo na ferida da discussão étnica brasileira com a obra "A Utopia Brasileira e os Movimentos Negros", que será lançada ainda esse mês.

Não são poucos os que apontam uma atitude racista e quase esnobe nos "movimentos negros", como não faltam também os que querem desconhecer o secular esmagamento dos povos afrodescendentes. Risério promete enriquecer esse debate, vale conferir.

Enquanto o livro não chega, encontrei hoje no ótimo blog "O Biscoito Fino e a Massa" uma recente entrevista concedida pelo pensador ao jornal
Valor Econômico. Veio daí meu assanhamento pela obra e a vontade de compartilhar aqui o que vi.

Leia a entrevista e veja se a abordagem prometida pode ou não contribuir para a compreensão de questões como a das
cotas raciais nas universidades, uma das pontas desse enorme iceberg e que continua a desafiar minha imensa boa vontade diante das justificativas históricas brandidas em sua defesa. Vejo nessa política pública implantada pelo governo Lula, talvez pelas minhas limitações de ordem intelectual, uma coisa que tem cara de porco, focinho de porco, rabo de porco -mas insiste em ter penas e miar aos meus ouvidos.

P: Em seu novo livro, você defende a idéia de que, ao tratar da cultura brasileira, não podemos nos iludir com fantasias fáceis, novos truques ideológicos e maniqueísmos simplificadores. Você se empenha, ainda, em não fugir da questão chave posta pela idéia de uma democracia racial e cultural. Contra quais idéias dominantes você escreveu este novo livro? Em que direção vai esse caminho original que você vem nos oferecer?

R: Estou nadando, clara e decididamente, contra a maré "bem-pensante", hoje, no Brasil. De uns tempos para cá, enquanto negromestiços norte-americanos passaram a reivindicar sua "identidade birracial", aproximando-se assim do modelo brasileiro, o que está acontecendo aqui é um movimento inverso: negromestiços tentando enfiar a rica e múltipla realidade racial brasileira na camisa-de-força do padrão dicotômico norte-americano, que é essencialmente racista e foi criado pelos senhores brancos do sul dos EUA. Os EUA são o único país do mundo onde a existência de mestiços de branco e preto não é socialmente reconhecida – basta uma gota de "sangue negro" para fazer do indivíduo um "negro" (jamais um "branco", é claro). É isto o que está sendo transposto para cá, por nossos acadêmicos racialistas e agrupamentos ativistas neonegros. Trata-se de tentar transformar o Brasil num campo racial nitidamente polarizado, com base no que aconteceu na vida norte-americana, como se a experiência histórica de um povo pudesse ser simplesmente substituída pela experiência histórica de outro. Daí que o racialismo político-acadêmico de professores e militantes tenha baixado o decreto ideológico de que inexistem mestiços em nosso país. De que nossos morenos e mulatos não passam de uma perversa ilusão de ótica. É certo que a mestiçagem brasileira recebeu, no século passado, uma interpretação senhorial, mistificadora. Mas a solução não é abolir o problema, mesmo porque continuamos mestiços. Temos de saber encarar os fatos. Mestiçagem não é sinônimo de igualdade, nem de harmonia. Não exclui o conflito, o racismo. E a melhor prova disso é o próprio Brasil. É claro que nunca vivemos numa democracia racial. Mas realizamos conquistas que nos autorizam a acreditar que podemos avançar nessa direção. Que podemos realizar o mito, fazendo com que ele se encarne na história.

P: O multiculturalismo é, ao mesmo tempo, uma idéia muito rica e uma idéia contaminada de mal-entendidos e confusões. De qualquer modo, ela parece estar no centro dos principais debates culturais de hoje. O multiculturalismo é uma característica crucial da cultura brasileira. Mas, você mostra, nenhuma das culturas que aqui chegou conseguiu conservar sua "pureza", nesse sentido somos o país das impurezas. Que dificuldades, mas também que vantagens essas contaminações nos oferecem?

R: Minha visão é algo diferente. De um modo geral, podemos dizer que existem países multiculturais e países sincréticos. O Brasil é um país essencialmente sincrético. Não temos aqui nada de parecido com o bilingüismo paraguaio, com as divisões que detonaram a antiga Iugoslávia, com os cingaleses e tâmeis que fragmentam o Sri Lanka, com o que acontece na Nigéria e na Indonésia. Não temos conjuntos culturais fechados, ensimesmados. Aqui, apesar das crueldades da escravidão, as coisas se mesclaram em profundidade. Daí que eu costume dizer que, culturalmente, mesmos os brancos brasileiros são mais africanos do que os negros norte-americanos. Mas há, ainda, uma outra distinção. Uma coisa é a realidade multicultural de um país, outra é a ideologia multiculturalista. O multiculturalismo se opõe às interpenetrações culturais, defendendo o desenvolvimento separado de cada "comunidade" étnica, de modo que esta possa permanecer sempre idêntica a si mesma, numa espécie qualquer de autismo antropológico. Ora, nem o Brasil é multicultural, nem há lugar aqui para o multiculturalismo, a não ser que, como dizia Adam Smith, neguemos a evidência dos sentidos em nome da coerência de nossas ficções mentais. Hoje, de resto, a experiência sincrética brasileira se tornou referência para o mundo globalizado, com todos os seus encontros e atritos interétnicos.

P: Você estuda, em particular, a presença da cultura negra no cinema brasileiro e na música popular brasileira. E faz, sempre, um contraponto com o que se passa na cultura norte-americana. Por que?

R: Sublinho o assassinato espiritual do africano nos EUA. Lá – sob a pressão cruel e poderosa do poder puritano branco – as culturas africanas foram destroçadas, varridas do mapa. É por isso que não há orixás nos EUA (eles só começaram a voltar no século 20, com migrações antilhanas). Os pretos abraçaram a Bíblia. Criaram uma variante do cristianismo puritano. E como elementos, práticas e sistemas simbólicos de origem nitidamente africana inexistem na sociedade norte-americana, também inexistem na criação estética desta mesma sociedade. Dessa perspectiva, a cultura norte-americana pode ser resumida em poucas palavras: nunca ninguém fez nenhum "despacho" na cabana de Pai Tomás. O que vemos no Brasil é justamente o contrário disso. Faço o contraponto para mostrar as enormes diferenças que existem entre as experiências históricas e sociais do povo brasileiro e as do povo norte-americano, com a sua rígida separação entre um mundo cultural branco e um mundo cultural negro, coisas que são fundamentais, mas que nossos atuais racialistas político-acadêmicos não levam em consideração. Se o que aconteceu nos EUA tivesse acontecido também no Brasil, em Cuba e no Haiti, não teríamos hoje sequer vestígios de deuses africanos em toda a massa continental das Américas. Teria sido melhor assim? Não creio.

P: Você se esforça para mostrar que essa influência negra não deve ser tratada só como um elemento de formação, como um aspecto importante do passado, mas também como algo presente, e ainda, como algo que diz respeito ao futuro de nossa cultura. Que exemplos você poderia oferecer da vitalidade da tradição negra? Onde e por quem ela é anulada, e onde consegue não só sobreviver, mas se fortalecer?

R: O ponto principal é que signos culturais de origem africana fazem parte de nosso presente social e cultural. Impregnam e imantam a nossa ambiência. Por isso mesmo, não comparecem, na criação estética brasileira, como dados arqueológicos ou como relíquias salvas de um naufrágio. Pelo contrário: aparecem como produtos concretos da vivência pessoal de nossos criadores (muitos deles, negromestiços) ou, pelo menos, como coisas que existem objetivamente à sua volta. Veja a criação plástica de Rubem Valentim, que é uma espécie de Mondrian dos terreiros, a um só tempo ancestral e construtivista. Veja a obra de alguns criadores do cinema novo, a produção poético-musical de Caetano Veloso, a literatura brasileira, onde Iansã pode irromper até mesmo nas Galáxias de Haroldo de Campos. O fato é que temos a presença ancestral da África na arte brasileira de invenção. Quanto à segunda pergunta, vejo um quadro complicado. Se o candomblé se fortaleceu em meio às elites, está se enfraquecendo em âmbito popular. As massas negromestiças brasileiras estão abandonando os terreiros e aderindo às igrejas neopentecostais, que se utilizam, diabolicamente, de crenças populares e de práticas das religiões negras, como a técnica do transe. Não quero fazer profecias, mas acho que estamos caminhando para a formação de um neocandomblé, não só em São Paulo, mas também na Bahia. Um neocandomblé que se configura a partir da presença, nos terreiros, de pessoas das mais diversas cores, classes e formações culturais.

P: Apesar do prestígio do futebol brasileiro, o futebol continua a ser um tema recalcado em nossa cultura. Você não se esquiva dele e mostra como, apesar de ser um esporte da elite inglesa, ele logo sofreu entre nós uma sábia apropriação popular. Mostra, ainda, como a expansão do futebol afetou o crescimento do rádio e da imprensa brasileira, como ele se tornou produto de exportação e como fomentou uma indústria. Mas como, apesar disso tudo, nunca perdeu a liberdade e a criatividade. Em que medida a recriação ou reinvenção do futebol pelo povo brasileiro ainda é desprezada e por que? Que fatores levaram, entre nós, a uma valorização estética do futebol, a ponto de ele se tornar um "futebol-arte"? Você chega a dizer que o futebol brasileiro é "filho do barroco" – o que isso significa exatamente?

R: Não acredito que haja desprezo, hoje, por essa proeza popular de recriação ou reinvenção de um esporte inglês. Dos tempos de Mario Filho e Nelson Rodrigues para cá, cresceu e muito, por sinal, a legião dos que examinam, estudam e buscam entender a escola brasileira de futebol. E não vejo como situá-la fora da matriz barroca que está na base mesma de nossa formação e vem marcando há séculos, de uma ponta a outra, tanto em plano "erudito" quanto no "popular", a criação cultural brasileira, da arquitetura ao desfile das escolas de samba. Visões do barroco como arte do excesso, como criação lúdica e sensual, como artesanato feito para enfeitiçar os sentidos definem perfeitamente o futebol brasileiro, da folha seca de Didi ao lance desconcertante de Ronaldinho Gaúcho, ou da bicicleta de Leônidas às pedaladas de Robinho, passando pelo deus Pelé. É o gosto pela curva, pelo floreio, pelo efeito, pela voluta, pela estetização extrema de cada jogada, pela surpresa. O povo brasileiro reinventou o futebol com a inteligência corporal específica de sua formação etnocultural. Na base, o samba e a capoeira. O ritmo e a malandragem. Não é por acaso que usamos uma mesma palavra – e de origem africana: ginga – para falar de sinuosos movimentos corporais de sambistas, capoeiristas e jogadores. E esta recriação se deu em horizonte barroco. É por isso que, acompanhando alguns estudiosos, chego a falar, sinteticamente, de uma escola barroco-mestiça de futebol.

P: Que marcas a escravidão, e também o movimento abolicionista que a enfrentou, deixam, ainda hoje, na cultura negra brasileira? Em que medida esses não são apenas eventos do passado, mas marcas que ainda hoje se disseminam, com força, na vida brasileira? Como se comportam, hoje, nossos movimentos negros em relação a esse passado que se perpetua no presente?

R: Raramente nos lembramos de que durante séculos, no Brasil, ninguém foi contra a escravidão em si. Os tupinambás praticavam a escravidão, assim como os portugueses e os africanos. Quando um determinado grupo negro se rebelava contra a sua situação, travava uma luta específica: queria se libertar do seu cativeiro, mas não hesitaria em escravizar outros grupos. Havia escravos em Palmares. E os negros malês, que se sublevaram em 1835, pretendiam escravizar os mulatos. Ou seja: do século 16 ao século 19, fomos todos escravistas. Foi com o movimento abolicionista que, pela primeira vez em nossa história, a escravidão como sistema foi colocada em questão. E, também pela primeira vez, formou-se uma ampla aliança de classes e cores, em função do combate ao sistema. Negros – livres e escravos – participaram ativamente do processo. Nesse sentido, o 13 de Maio (ainda hoje, apesar de tudo, a nossa maior revolução social) foi, também, uma vitória negromestiça. E penso que nossos atuais movimentos negros não deveriam estigmatizar a data, desprezando a longa e dura luta vitoriosa de seus antepassados. O problema é que as nossas elites impediram a realização completa do projeto abolicionista, que visava à integração final do negro na sociedade brasileira. Não promoveram as reformas moral, educacional e agrária que eram reivindicadas pelas lideranças abolicionistas. Nabuco dizia que acabar com a escravidão não bastava: era preciso liquidar todos os vestígios do regime. E isto não foi feito. É por isso que a maioria dos negromestiços vive ainda no subsolo da sociedade brasileira. E que ainda estamos lutando para completar a obra apenas iniciada pela Abolição. O que não acredito, ao contrário dos movimentos negros, é que a luta tenha de se dar, necessariamente, por linhas étnicas rígidas. Pela adoção do modelo racial norte-americano. Temos de pensar o Brasil por nossa própria conta e risco – ou os equívocos continuarão se sucedendo vertiginosamente. É mais difícil, mas, certamente, menos enganoso e falsificador.

P: Você trata da existência de uma "nova história oficial brasileira", que se distingue da velha história oficial, que era tramada na perspectiva dos colonizadores. Você chega a dizer que ela é "uma espécie de contra-história brasileira". Como ela se define? Em que medida ela construiu novos dogmatismos e novos clichês? Que aspectos e contradições de nossa história essa "contra-história", formulada nos anos 70, tratou, ela também, de dissimular e esquecer? Em que medida ela apenas substituiu mitos antigos por mitos novos?

R: Existe a velha história oficial do Brasil, que se institucionalizou a partir da obra de Varnhagen e da criação do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. E existe a nova história oficial do Brasil, que nasceu na década de 1970, invertendo os sinais algébricos da "velha", e se institucionalizou mais recentemente, gravando-se nos Parâmetros Curriculares Nacionais do Ministério da Educação, durante o governo de Fernando Henrique Cardoso. Falo de "contra-história" porque ela pouco mais é do que uma inversão de sua antecessora. Se a "velha história" celebrava a colonização lusitana, a "nova história" celebra irrestritamente negros e índios, condenando o colonizador português ao fogo do inferno. De uma parte, ela é a história do índio eco-feliz e do negro gloriosamente empenhado na luta por sua liberdade. De outra, é a história do colonizador branco como um animal invariavelmente estuprador e assassino. De um maniqueísmo absoluto, reduz a história do Brasil, que é altamente complexa, a um filme de bandido e mocinho, idealizando os dominados e caricaturando os dominadores. Daí que passe bem ao largo de coisas como o caráter essencialmente agressivo e belicoso da cultura tupinambá ou do fato de que os nagôs vieram parar aqui porque foram vendidos aos brasileiros pelos reis do Daomé. Enfim, é uma história de povos-anjos e povos-demônios, que converte os nossos antepassados em fantasias a-históricas. E, assim, não faz mais do que substituir mitos antigos por mitos novos – ou mentiras surradas por mentiras recentes. Se quisermos de fato nos conhecer, temos de superar esse primarismo "rousseauniano", feito sob medida para debutantes mentais.


P: Contrariando a idéia dominante, você faz em seu livro uma aproximação estreita entre o Brasil e Cuba. O fio de ligação principal é a santería, a religião dos orixás, e, em particular, a figura de Exu. A maior parte dos brasileiros tende a ver Cuba como um país atrasado, parado no tempo, e imobilizado sob o peso de um regime de exceção. Que elos secretos, ainda assim, seriam esses que nos unem a Cuba?

R: O traço de união entre o Brasil e Cuba é a África. Em termos históricos, genéticos e culturais. Costumo dizer que Cuba foi uma Bahia tardia e, ao mesmo tempo, mais avançada. Mais tardia porque o apogeu da economia açucareira cubana aconteceu no século 19, quando os canaviais baianos se encaminhavam para a decadência final. Mais avançada porque o que se implantou lá foi um parque açucareiro moderno, efeito e causa da chamada "revolução agrícola" cubana. Nessa época, as populações negras do Brasil e de Cuba experimentaram uma mudança notável. Os bantos estavam desde o início em ambos os lugares. Mas a revolução agrícola em Cuba e o estabelecimento de nexos comerciais diretos entre o Brasil e o golfo do Benim, na África, trazem para os nossos países levas e mais levas de iorubanos – chamados "nagôs" no Brasil e "lucumís", em Cuba. E os iorubanos vão marcar profundamente e para sempre as duas regiões, irmanando-as. Isto é muito claro no campo da produção cultural. Uma antropologia das formas estéticas no Novo Mundo mostra com clareza a presença africana, sobretudo banto e nagô (ou lucumí), nas criações brasileiras e cubanas. Antes que "hacienda" de Fidel Castro, Cuba é, mais profundamente, terra de Iemanjá e Xangô. Como a Bahia.

P: Como você se sente e se vê no cenário cultural brasileiro de hoje? Quais são seus principais interlocutores e quais são os principais obstáculos que enfrenta? Quais são, a propósito, seus novos projetos de livros?

R: No campo específico da discussão das relações sócio-raciais no Brasil, hoje, minha sensação é de isolamento. De uma certa solidão política e intelectual. Por um lado, o que temos é a velha conversa de que não existe racismo no Brasil. Por outro, o que predomina é o racialismo político-acadêmico, a militância neonegra, lendo o Brasil com lentes norte-americanas. Ou seja: por um lado, o clichê insustentável; por outro, a alienação universitária e o capachismo ideológico. Nesse último caso, não se trata de combater "idéias fora do lugar", mas de lembrar que as concepções raciais norte-americanas não são conceitos, categorias universais, mas noções "nativas", indestacáveis da experiência histórica dos EUA, que procuram injetá-las em nosso meio através de suas instituições e financiamentos de pesquisas. Além disso, o poder se comporta com excessiva reverência diante do discurso racialista. E é ignorante, como Lula pedindo perdão no Senegal. Quem tem de pedir perdão aos povos africanos, pela escravidão, são as elites africanas, que participaram ativa e lucrativamente do tráfico de escravos. Como se não bastasse, há uma certa covardia dos intelectuais, que temem contrariar os movimentos negros e serem classificados como racistas. O clima, enfim, é de inibição do debate. Fico, então, com as exceções. Com a paixão da troca clara e honesta de idéias. E, portanto, com poucos interlocutores, a exemplo de Peter Fry, Eduardo Giannetti, João Santana e Caetano Veloso. Quanto a novos livros, não sei. Tenho escrito muito sobre a cidade no Brasil. Mas, no momento, quero que venha à luz este novo, "A Utopia Brasileira e os ovimentos Negros".


sexta-feira, 16 de novembro de 2007

TUPI OR NOT TUPI


“E como se provasse o dito popular de que ‘Deus é brasileiro’, agora parece que há bilhões de barris de petróleo a mais do que se pensava antes sob as águas profundas da costa brasileira”.


Revista The Economist em circulação, acerca da megajazida de Tupi, anunciada nessa semana pela Petrobrás (veja aqui).


Ando desconfiado que além de ser brasileiro, Deus comeu a mãe do Lula. O tratamento dado ao cara é paternal mesmo, tá na carta.

Fazer oposição a Lula , sob tamanha quantidade de notícias boas, é tarefa de pôr pra chorar qualquer um que precise cumprir esse papel democrático. Que o digam os tucanos e demos, além dos seus órgãos de comunicação -Revista Veja, Folha de São Paulo, Estadão, Globo etc.

Economia de vento em pôpa, Copa de 2014, liderança em biocombustíveis e produção de alimentos, juros em queda, PIB em alta, inflação anoréxica, consumo e crédito bulímicos. E o cara ainda ganha um bônus como esse da descoberta de uma porrança de óleo e gás na bacia de Santos, capaz de autorizá-lo a tirar as medidas da roupa de presidente de uma superpotência energética global, como bem colocou o diário argentino jornal econômico argentino El Cronista Comercial na sua edição de 14/11/2007 (veja aqui).

A história do Brasil será contada na base do "antes de Lula" e "depois de Lula", tô cansado de falar isso. A quantidade de acertos claramente maior que a de erros e o eixo da inclusão fazem das gestões Lula um marco fundamental na história do Brasil. Nada será como antes quando ele entregar o cargo para o próximo presidente.

Tanta sorte e acerto nas escolhas me faz lembrar de uma entrevista concedida por Max Biaggi, piloto italiano da MotoGP internacional (a Fórmula-1 do motociclismo), sobre seu compatriota e principal adversário nas pistas, Valentino Rossi.

Perguntado sobre como andar na frente de Rossi, Biaggi não esperou um segundo pra mandar essa: "só atirando no pneu traseiro dele!".

quarta-feira, 14 de novembro de 2007

CLASSE A DA BAHIA, SÉRIE A DO BRASIL


A verdade está reestabelecida no futebol brasileiro. O Esporte Clube Vitória selou ontem sua passagem para a série A de 2008 com o triunfo de 4X1 sobre o CRB, diante de 30 mil torcedores rubro-negros. Os gritos de "vamos subir negôôô!!" dessa gente foram ouvidos. Subimos.

A Bahia feliz, a que curte um futebol de conquistas presentes e futuras, está em festa.

terça-feira, 13 de novembro de 2007

A PAIXÃO SEGUNDO ANTONIO GADES


Cá estávamos, eu e meus botões, reunidos para definir a pauta do dia. Eu queria escrever, finalmente, o primeiro dos quatro posts sobre os ensaios de Michel Lacroix em ""O Culto da Emoção". Fui voto vencido pelos botões da minha blusa, que não se mostraram dispostos a colaborar com escritos mais verticais sobre porra nenhuma.

O YouTube foi decisivo para a formação dessa convicção deles. Marrentos por natureza, foi fácil deixarem-se arrebatar pelo frêmito de êxtase do flamenco sofisticado de Antonio Gades, bailarinho espanhol que viveu 67 anos até 2004. Um gênio belíssimamente registrado pela lente de Carlos Saura nos longas Bodas de Sangue (1981), Carmen, (1983) e Amor Bruxo (1986).

A sequência postada aqui vem de Carmen e é eloquente nessas três coisas: a genialidade do bailarino Gades e do cineasta Saura. E da irresistibilidade da paixão por uma mulher. Diz sabiamente o velho ditado: "de tigre faminto e mulher apaixonada ninguém escapa".

Se não fosse sábio não seria um ditado, tá certo. Mas poderia ser mais abrangente, posto que não há quem escape,sim, é da paixão, principalmente diante de peitos magníficos como os de Laura del Sol. Ou não é?

Volto amanhã, inté.



domingo, 11 de novembro de 2007

DICIONÁRIO HINDU/BAIANÊS - PARTE I


Blogar às vezes é uma ginástica criativa das mais árduas, acredite.

Veja o exemplo desse post aqui. Há muito que anda ciscando na minha pauta a tradução para o baianês dos pomposos nomes hindus do Kama Sutra, um assunto da maior relevância para a aproximação desses povos tão senhores da arte da sacanagem.

Após exaustiva pesquisa, resolvi iniciar a divulgação dessa obra monumental -e, porquê não dizer, definitiva- com a ilustração da posição "Visão do Paraíso", que na Bahia ganhou o título de "Pé na Cumieira".

Nos próximos posts, mais erudição putérica. Aguarde e acompanhe.

sábado, 10 de novembro de 2007

PRA QUE TANTA PRESSA COM AS DINAMITES, MENINO?


Surpreendentes as declarações do governador da Bahia, Jaques Wagner, quando da divulgação da escolha do Brasil como sede da Copa do Mundo de futebol de 2014.

Mesmo antes ele já declarara a inviabilidade de reformar-se a Fonte Nova. Segundo ele, ou põe abaixo e constrói outro estádio no lugar ou constrói-se em outro local. Reformar é que não dá, sai mais caro que as alternativas anteriores.

Fiquei intrigado com isso. Não porque ache que a Fonte é um patrimônio arquitetônico que mereça preservação e outros quetais arguidos por alguns urbanistas. Conversa fiada, se a alternativa mais viável for implodir aquilo tudo, fogo!

O que não dá entender é tanta ligeireza na sentença de morte do estádio construído com o dinheiro público em 1951 e reformado ganhando o anel superior em 1971. E tão pouca transparência para os estudos de viabilidade -se é que foram feitos.

Não faltam exemplos de estádios reformados para copas do mundo -como o de Berlim para 2006- ou detonados para reconstrução, como o Wimbledon. Cada caso é um caso, diria o Conselheiro Acácio.

A Fonte Nova, morada de aluguel de uma das últimas lendas esportivas brasileiras, o crepuscular Esporte Clube Bahia (ou Jaía, sibilam as línguas rubro-negras), está encravada no centro de Salvador, tem ampla facilidade de acesso -agora também pelo Metrô (outra lenda baiana), é grande pra cassete e está em pé, ora bolas. Como condená-lo sem os devidos estudos técnicos?

Por Júpiter, por quê será que todos os políticos são apaixonados por grandes obras de engenharia?

sexta-feira, 9 de novembro de 2007

FAVELA AL MARE

O empenho da prefeitura de Salvador em produzir uma obra emblemática de sua gestão resultou em sucesso.

A foto ao lado, produzida pelo Fernando Vivas para a Agência A Tarde, registra a cara do litoral soteropolitano para o verão 2008/2009. No lugar de barracas de praia, toldos improvisados e gatos de luz.

Pra você que não é de Salvador a história é a seguinte: a prefeitura autorizou a construção de barracas de alvenaria em substituição das de madeira. E o Ministério Público meteu o dedo na história, quando já iam longe as obras. Motivo óbvio: à prefeitura de Salvador não compete autorizar obras em praias, só a União pode fazê-lo. Por arrogância ou incompetência do poder público municipal, o imbroglio foi formado e a justiça ordenou a demolição das barracas construídas. Deu-se a merda.

Assim, Salvador sofre mais um duro golpe, no momento em que o turismo da cidade vive seu pior momento na história. Os hotéis e pousadas da cidade estão vazios e o trade turístico já não sabe mais o que fazer. Previsões sombrias para o verão que se aproxima, que pra completar terá o carnaval começando dia 31 de janeiro, atropelando a festa de Yemanjá.

Confesso que nunca vi Salvador tão maltratada, tão ferida em sua autoestima. Só faltavam arrebentar com sua orla. Faltava, não falta mais.

A praia de Ramos tá mais bonita, pode apostar.

quinta-feira, 8 de novembro de 2007

SODA, SOLVENTE, SILICONE E O CU DO PADRE


Só os loucos restam crédulos nesse começo de século XXI. Os loucos e os néscios, melhor dizendo.

Vivemos tempos de desrealidade, nada é exatamente o que parece ser e eu não tenho a menor idéia pra onde isso nos levará.

As mulheres tornaran-se louras, têm cabelos lisos e muitas próteses na bunda e nos peitos. Legal o efeito, fake mas bonito.

O leite de caixinha tem soda cáustica e água oxigenada; a gasolina, solvente e álcool em excesso.

O padre Lancelotti, ícone da responsabilidade social e da abnegação para o resgate de menores em situação de risco em São Paulo, foi vítima de um caso extorsão que não o livrará de prestar contas da origem do dinheiro utilizado nesse episódio. O que ele fez ou faz do seu fiofó é assunto dele mas o que ele faz com o dinheiro confiado em boa-fé por tantas pessoas me interessa saber. Talvez até pra ter a certeza de que esse é mais um exemplo de que a Second Life é muito mais que uma vivência eletrônica de entretenimento. Mais correto seria chamar-se The Life.

O filósofo francês Michel Lacroix, em seu ótimo "O Culto da Emoção", lançado na França em 2001 e no Brasil em 2006, dá pistas preciosas para o entendimento desse cipoal de fantasias, a nos ensinar diariamente que a descrença é o único antídoto eficaz contra tanta desinformação.

Tempos de emoções trepidantes, de inquietação e histeria. A cobertura jornalística está impregnada de perseguição por fatos ou "opiniões" ofegantes; o esporte, o cinema e as festas organizadas de forma a oferecer abundantes doses de emoções e mais emoções. O prazer virou sinônimo de coração sacudido e a contemplação foi pro bebeleú, sentimento anacrônico e de pouca valia quando se está nas ruas exposto ao bombardeio de informações visuais nas fachadas comerciais e outdoors.

Vida destrambelhada, sô. Efervescete, alucinante, vivida em segundos. Tudo é flash e as convicções não resistem às horas, um duro golpe para as pessoas da minha geração, crescidas cultivando a crença no socialismo e no destino do homem em ser feliz.

O poeta atirou no que viu e acertou no que não viu, ele estava certo ao afirmar que "logo eu que cri que não crer era o vero crer". É isso mesmo, parceiro, desacreditar é a única forma possível de crer em alguma coisa.

Volto depois pra falar disso com mais tempo. Por ora, melhor deixar passar essa vontade louca de ir embora pra Mutá e viver da pesca e do marisco. Desplugado, of course.

Inté.

terça-feira, 6 de novembro de 2007

A MAIORIDADE DA LUTA POLÍTICA


Avançam em torno da aprovação da CPMF no congresso os entendimentos entre o governo e o PSDB com vistas ao país que um outro querem gerir a partir de janeiro de 2011.


Os melhores gestores da centro-esquerda brasileira são quadros ligados direta ou indiretamente a essas correntes políticas. São eles que tocam nos últimos 13 anos as transformações estruturais que precisam avançar decisivamente nestes três anos que restam de gestão Lula.


O discurso da inclusão, marca registrada -e vitoriosa- do governo Lula tem na composição com o PSDB, por razões ideológicas- e com o PMDB -pelo viés pragmático que caracteriza esse partido- as bases possíveis e necessárias para que o Brasil conclua a formação da superestrutura jurídica e econômica que sustentará por um longo período o crescimento já iniciado, inédito para a nossa jovem república.


O clima incendiário vai aos poucos cedendo espaço para a convivência republicana entre as forças políticas. A quem poderia interessar a inviabilização política do governo Lula?


Ao PSDB de José Serra é que não. O governador paulista, nome forte para a disputa de 2010, adoraria receber o país com as reformas que hoje estão na pauta já implantadas. Principalmente as que podem ser usadas na comunicação eleitoral como impopulares.


A questão tributária, o desafio previdenciário e trabalhista, a reforma política; o reordenamento jurídico, notadamente na área processual e a inadiável revolução gerencial da máquina pública. São muitos e gigantescos os desafios postos diante dos homens públicos brasileiros, a exigir-lhes coragem e grandeza política.


O Brasil ganharia muito com esses entendimentos, deixando para as eleições de outubro de 2010 a disputa pelo poder. Há óbvias convergências entre essas forças e nenhuma delas perderia nada ao unirem-se em torno da agenda da república.


A janela para o futuro está aberta para o Brasil. Fundamentos macroeconômicos sólidos, avanços incontestáveis na área social, infraestrutura em franco desenvolvimento: a hora de elevar o nível da interlocução política é essa, é raríssima a oportunidade.


Os sinais emitidos pelo Planalto dão conta que Lula quer ser o condutor desse processo e não hesitará em remover da cozinha da sua casa idéias malucas como a do terceiro mandato, que inviabilizaria qualquer entendimento como esse, com o PSDB. A suspeita, bastante verossímil aliás, é que um mandato de cinco anos sem reeleição (já a partir desses governo) é a chave para que essa grande coalizão republicana decole. Serra e Aécio fecharam, aparentemente, com essa solução. Lula, ídem.


Se isso efetivamente acontecer, estarão esses homens inscrevendo definitivamente seus nomes na história do Brasil. Oxalá tenham envergadura para tanto.

segunda-feira, 5 de novembro de 2007

ORA, DIREIS


Liliana Pinheiro -a mulher, a lenda, o mito- foi uma das pessoas que por aqui passaram para assinalar sua inquietação diante do silêncio de mais de dois meses desse Blog do Galinho.


Deu-me conta de um texto do Rubem Alves sobre o silêncio, sobre o desacontecimento como condição indispensável para ouvir o que se passa à volta e dentro de si.


Ele disse, parafraseando Alberto Caeiro: "Não é bastante ter ouvidos para se ouvir o que é dito. É preciso também que haja silêncio dentro da alma".


Danadinha, essa Lili. São pessoas como ela que não me permitem esquecer como é bom amar e ser amado por pessoas sensíveis e inteligentes. Graças a deus e à generosidade dos amigos sempre acabo encontrando o fio da meada.


Gosto da caverna em que moro. Ela acolhe tolerantemente as mutações da minha alma precária, dando-lhe o necessário espaço para que cumpra o destino de gozar na tormenta. Em silêncio, como nessas últimas semanas.


Perscrutei emoções, que não precisaram gritar para saberem-se ouvidas; sentei-me diante do corpo e dele tomei ciência de muitas inquietações e pedidos. Penso ter compreendido seus motivos.


Das pessoas -íntimas ou anônimas-, muito ganhei nesse farfalhar de sons produzidos pela alma. Sim, não apenas os coqueiros farfalham. As almas também o fazem quando são-lhes dadas as condições de murmurar para que não precisem recorrer à estridência.


Falar é um ato devorador de energias e essas são lenta e crescentemente escassas ao longo da vida. O ouvir não desperdiça esforços.


Continuo equilibrando-me num galho de salsa, passado esse tempo de audição e reflexão. Adoraria voltar aqui pra anunciar que tive uma visão e ela iluminou-me a ponto de querer usar essa porrança toda de sabedoria para conduzir as massas em êxtase rumo aos céus.


Nem fodendo. Continuo perplexo, lamento dizer.


Mas voltei a falar- o que não altera em um mísero milímetro o destino das plantinhas da casa da minha mãe aqui nessa Cidade da Bahia.


Estávamos nós -eu e o Big Man aí de cima, escultura hiper-realista de mais de 2 metros do australiano Mueck- em silêncio, recolhidos em nós mesmos. Pra mim já deu, ele que resolva o que quer da vida.


Sou muito grato a quem não desistiu de passar por aqui nesse período sabático que impus, por extensão, ao Blog do Galinho.


Inté.