POR OUTRO LADO...

quinta-feira, 31 de janeiro de 2008

COPOS E COPOS DE MACONHA

Oficialmente começou ontem em Salvador o reinado momesco de Clarindo Silva, o Anoréxico. A anti-opulência comandando uma festa bulímica, mais uma novidade do carnaval baiano.

E quem se importa com isso, que a coroa passou facilmente pela cabeça de Sua Magreza, ou melhor, de sua Majestade foliã –quase passando pelo corpo inteiro, no qual são distribuídos 58 kg de pura realeza? O carnaval da Bahia fez-se famoso pela iconoclastia estética e comportamental e, a despeito da interminável guerra de liminares que mobilizaram a Justiça e o Ministério Público da Bahia em torno da indicação do Rei Momo, a festa vai rolar, já tá rolando. A majestosa festa de rua do povo baiano, única e eterna.

De geração a geração, o carnaval da Bahia renova seu transe de êxtase ao som de trios, charangas e batucadas. Antigos foliões, atingidos pela idade e pela necessidade de descanso e silêncio dão lugar aos seus filhos, que, entusiasmados, descobrem novas formas de perpetuarem tão preciosa tradição. Tudo certo, quem poderia dizer o contrário senão movido pelo despeito, pela saudade inconformada de não ser mais jovem?

A meninada está lambendo os próprios beiços e os de outros, provocando mal confessada e desinformada dor-de-cotovelo em seus antecessores. Cid Marcondes, amigo querido e jornalista paulistano que, entre outros méritos, fez-se companheiro da espetacular Liliana Pinheiro (lembram dela? a mulher, a lenda, o mito...). contava-nos que a mãe de uma amiga dele, cansada de ver sua amada cria na companhia diuturna de um bando de malucos, não agüentou e um dia declarou: “Acham que eu não sei que vocês, quando saem pra fazer farra, tomam copos e copos de maconha?!”

Tá legal, a festa mudou. Ganhou mais uma passarela (a tal Barrondina), publicizou-se, camarotizou-se, televisionou-se, celebrizou-se –empresariou-se, numa só palavra. Uma mudança, lembremos, em curso desde o final dos anos setenta, em que foram desaparecendo os charmosos blocos de sopro&percussão (Jacu, Barão, Lord’s etc), dando lugar à gestão moderna dos chamados “blocos de trio”. Resistem os percussivos afoxés e blocos de inspiração temática afrobrasileira, desafiando heroicamente a onipresença dos trios elétricos, verdadeiras maravilhas tecnológicas em palco, som e luz embarcados em caminhões.

Como resistem também a “Mudança do Garcia”, o “Povo Pediu” e o “Paroano Sai Melhor”. Isso pra falar de coisas organizadas, se é que podemos usar essa palavra pra qualificar essas entidades carnavalescas, emblemáticas pela gestão caótica e desplanejada, pouca coisa mais elaborada que as milhares de batucadas e sons eletrônicos que surgem a cada instante pelas ruas, refundando na dança e na música antigos laços de compartilhamento social.

Insisto, nada há de errado no carnaval da Bahia. Nunca houve. É uma festa extraordinária, carente -é verdade- de uma gestão pública criativa e que não se limite à sua logística (segurança, limpeza, postos de saúde etc). O carnaval é um dos mais preciosos produtos de turismo que a Bahia tem pra vender, âncora da riqueza cultural desse lugar e que merece toda a atenção e investimentos do executivo municipal e do estadual.

O carnaval de Salvador fez-se mágico pela livre participação popular. Não foram os trios que o fizeram mas os baianos em festa nas ruas, dando-lhe júbilo e luminosidade em doses populares. Preservar essa festa é, sem dúvida, garantir a presença segura e confortável desse povão extasiado nas ruas, “pipocando” aqui e ali, livremente como sempre foi e precisa continuar sendo. Oxalá a grana que as gestões carlistas colocavam diretamente nos trios e blocos empresariais seja destinado, nos próximos anos, ao incentivo de trios independentes como o Dodô&Osmar. A revitalização do carnaval no centro de Salvador, por exemplo, pode perfeitamente passar por aí, pela repipocarização (ui!), pelo descordoamento (ai!) da festa.

Enquanto isso, sigo na minha cruzada civilizatória de pesquisar, em campo, o comportamento hedonista, narcísico e quase maníaco de baianos e não-baianos durante o carnaval da velha cidade da Bahia. Um sacrifício cometido há mais de três décadas e que em nome da ciência e da felicidade popular não abro mão de renovar anualmente.

Afinal, que seria da humanidade sem o denodo de alguns, não é verdade?

Pela citação e pelas lembranças mágicas, deixo aí embaixo um vídeo bacanésimo do trio elétrico de Dodô&Osmar, registro histórico para que as novas gerações não pensem que beijar na boca, beber até sair do corpo e dançar pelas ruas são fenômenos recentes. Isso vem de longe, meus filhos, de muito longe...



quinta-feira, 17 de janeiro de 2008

A GRANDEZA DE JOÃO



A roda já estava formada quando cheguei. No banco comprido, encostado na parede, três berimbaus, um agogô, um pandeiro, um reco-reco, um atabaque. Ao lado, numa cadeira com encosto e apoios para os braços, um homem velho acompanhava, atento, os movimentos da roda e do salão.

Viu, contrariado de pronto, quando um de seus discípulos entrou na roda pra jogar com o branco alto, fingindo não poder dobrar o joelho esquerdo. Pura sacanagem, como que a dizer ao oponente que com ele até com uma perna daria conta. No jogo, sua perna "dura" dobrava e respondia com perfeição às exigências de apoio solicitadas. Cheio das artes, esse negão, pensei com meus botões.


Era visível uma certa tensão no ar daquele velho Forte do Santo Antônio, rebatizado Forte da Capoeira após magnífica reforma. O adversário era branco mas nem de longe era inocente nas manhas da capoeira Angola. A testosterona lentamente entrava em ebulição e o homem velho sabia que teria que parar o jogo em algum momento. Mas deixava o barco correr.

Até que a troça do negão produziu o resultado esperado e uma rápida troca de golpes mais viris anunciaram que o impasse cênico passara a exigir outra solução. Impossível a contenção dali por diante, aqueles homens iam mesmo era pro pau se João Pequeno de Pastinha não estivesse ao comando.

A voz ainda firme e repleta de autoridade, a despeito de seus mais de 90 anos de idade, estancaria a marcha de um pelotão inteiro de soldados, quanto mais de dois seus mestres.

"Pára. Venham aqui. Isso aqui é lugar pra jogar, não é pra luta. É pra brincar, é pra jogar, lutar não. Tá entendido?"

Voltaram pro jogo pra logo depois cumprimentarem-se e darem lugar a outros capoeiristas.

Aula de capoeira de Angola, oferecida gratuitamente no último domingo nessa velha cidade da Bahia pelo último discípulo vivo de Mestre Pastinha.

Uma emoção que um dia os marqueteiros jeje-nagôs descobrirão valer muito mais para o turismo que o hedonismo maníaco do axezão e do pagodão trioeletrizado.

Salve João. Pastinha sorriu de novo domingo passado, meu velho camarada.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2008

MUTÁ, DAVIZINHO, DINA DE VAVÁ



Sabedoria ainda passa longe desse aprendiz de blogueiro. Não fosse assim estaria aqui deitando falação sobre os benefícios do jejum, da meditação praticada por horas a fio, dos anos sabáticos –como foi esse 2007 pra mim. Importante, tá legal, há períodos em que as energias precisam de tempo e sossego para se reordenarem e aí, tenha paciência, é um desacontecimento só. Mas passa.

E como não haveria de passar se 2008, segundo alguns, é um ano regido pelo orixá Ogun? Mesmo dando o desconto de que essa é uma velha lenda baiana –ô lugarzinho pra encubar lendas- guardo alegre esperança de que essa mania de atribuir a regência de um ano inteiro a um determinado orixá por conta do dia da semana em que cai o primeiro de janeiro seja abençoada por mágica coincidência.

Ogun é uma divindade realizadora por excelência. Seu amplo patronato vai desde a tecnologia, as atividades miltares e manuais até a agricultura. Senhor da arte metalúrgica, Ogun é um desbravador, homem que abre a golpes de facão os caminhos pelos quais todos irão passar. Nada mau se for realmente dele a batuta para os próximos doze meses, passado esse sabatismo todo que foi 2007 pra mim. Ufa!

Quem sabe não tenha vindo dele a sugestão de encerrar esse aporrinhado 2007 pisando a areia macia de Mutá, vilarejo de sonho que conheço quase desde que comecei a me entender por gente e que fica a meio caminho de Salinas da Margarida, recôncavo baiano.

Estive lá no final de semana que antecedeu o reveillon. Fui no sábado e voltei no domingo à noite, feliz por rever pessoas com quem há muito não proseava. E também por ter conhecido pessoas que se mostraram conhecedoras e tão apaixonadas pelo lugar quanto eu, como o casal Josélio e Carmen, que não satisfeitos por terem comprado a casa de dona Lea, trouxeram amigos, montaram um restaurante e uma pequena indústria de pescados, utilizando a mão de obra das marisqueiras do lugar.

Vi Davizinho de Mutá, líder do grupo de samba-de-roda Barravento, que passou a chamar-se Barlavento recentemente. Ele, mulher, filha, genro e Fia do Pandeiro, personagem deliciosa da vizinha Pirajuía que andou se apresentando nos shows do Barravento tocando, cantando e sambando. Vai fazer festa no dia do seu aniversário, 26 de janeiro. Estarei lá, se Ogun assim o desejar.

Davizinho é uma síntese perfeita daquele povo que fala sorrindo, que samba sorrindo. Como sorria seu Zeca e Dona Mocinha, seus pais. Gente fina, elegante e sincera, como reiteraria Lulu Santos se os conhecesse. Adorei a visita feita à casa dele, mais curta que a merecida. Mas voltarei, ah se voltarei...

Pena que nessa volta não poderei ver mais a ginga de Dona Dina, tocando para seus orixás. Ela morreu em setembro último e levou com ela a versão mutaense do candomblé de caboclo, um conhecimento que recebera de suas ancestrais e não assimilada pela neta, filha do seu único filho, Quinho. Saudades eternas de você, Dina, obrigado por seu carinho, seu mingau, suas moquecas.

Hospedei-me na Ravenala, aconchegante pousada ao lado da Igreja de Santo Antônio, a 30 metros da praia e tocada pelas irmãs Eloisa e Elena (assim mesmo, sem H). Recomendo.

Como recomendo também a moqueca de camarão da Tia Lourdes, tempero delicadíssimo, uma delícia. Mas para evitar surpresas desagradáveis, pergunte antes o preço e a quantidade da porção. Se achar salgado, há outras opções de frutos do mar, como o restaurante de Santos, em Pirajuía, a cinco minutos de carro.

Vá a Mutá e volte revitalizado com os longos passeios na praia, durante a maré baixa; e com os relaxantes banhos de mar, possíveis na maré alta. Tudo de bom se a idéia for começar 2008 sintonizado com a paz, com a suavidade, com a harmonia.