POR OUTRO LADO...

sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

NOSSOS CÉLEBRES LEITORES / PARTE 1

Um dos mais eloquentes sintomas de um blogueiro está com preguiça ou sem saco de escrever é quando ele começa a inventar gracinhas como as que inicio hoje, nessa sexta-feira bissexta.

Não que tenha sido um ou outro o motivo que me animou nessa empreitada. Tô doidinho pra escrever nesse final de semana. E vou fazê-lo, com ou sem outro dilúvio nessa velha cidade da Bahia.

É que minha autoestima tá um pouco baixa, por motivos que oportunamente não tratarei publicamente. Meu exibicionismo não é dessa natureza.

Acontece que as 14 tiras/charges criadas e estocadas no arquivo desse blog, prontas para publicação, falam bem desse lugar e me dão a ilusão de que isso é verdade. Narcisismo na veia, pra levantar a moral, é isso. Tomara que mais alguém goste.



a comic strip!

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

ANTES DE LULA, DEPOIS DE LULA...


No momento em que inicio a escrita desse post, a Bolsa de Valores de São Paulo vai encostando nos 66 mil pontos, alta de mais de 1% e um volume de negócios que deverá passar do R$7 bilhões. A despeito do anúncio feito na manhã de hoje pelo presidente do FED, o Banco Central norteamericano, dando conta da grande retração de encomendas à indústria de bens duráveis daquele país. Uma notícia que em outros tempos provocaria um cataclisma por essas bandas.

A bolsa brasileira já se refez, com ganhos, das quedas acentuadas no mundo inteiro quando as perdas imobiliárias dos EUA mostraram sua cara feia, em dezembro último, prenunciando tempos de baixa atividade econômica e seus conseqüentes reflexos pelo mundo afora. Menores, certamente, para países com bons fundamentos econômicos, como... o Brasil!. Nunca-na-história-desse-país uma crise internacional da proporção que se avizinha foi tão olimpicamente desprezada como agora. O Brasil ganhou musculatura mesmo, para o desespero da oposição e suas assessorias de comunicação (Organizações Glono, Editora Abril, Folha de São Paulo, Estadão etc) ao metalúrgico iletrado Lula .

Para completar o quadro, uma enxurrada de boas notícias ganhou as manchetes do jornalismo golpista brasileiro nas últimas semanas, a despeito de óbvia má vontade em fazê-lo. Vou tentar reunir algumas delas aqui:

  • A política de formação de reservas internacionais operada a partir da posse de Lula culminou com o anúncio de que o Brasil deixou, pela primeira vez em sua história, de ser devedor para ser credor internacional. Tem dinheiro em caixa suficiente para quitar toda a dívida externa pública e privada e o governo vai continuar formando reservas.
  • A Petrobrás, que quase foi privatizada por FHC, como foi a Vale do Rio Doce, recebeu sinal verde desde o primeiro dia do governo Lula para investir o que fosse necessário para dar ao país status de autosuficiência em petróleo e gás. Saiu melhor que a encomenda: o Brasil já produz mais petróleo que consome e em 4 ou 5 cinco anos viverá a mesma situação em relação ao gás. A petroleira brasileira, graças às descobertas de megajazidas como a de Tupi, na bacia de Santos, entrou no rol das Top 10 do setor, mesma posição do Brasil no critério de reservas comprovadas. Hoje o Brasil tem 12 bilhões de barris. Sozinha, Tupi tem de 12 a 30 bilhões. Petróleo que fará do Brasil importante exportador em poucos anos, com assento na OPEP e tudo mais.
  • A expectativa do crescimento do PIB brasileiro para 2008 é de pelo menos 5%, como foi em 2007. Gente como Delfim Neto vaticina um número ainda maior, na casa dos 6%. Para uma inflação estabilizada na faixa dos 4,5% de inflação.
  • Os investimentos estrangeiros diretos no Brasil iniciaram 2008 num ritmo alucinante, quase 100% maiores que janeiro de 2007. São claros os sinais de que a classificação investiment grade das agências internacionais de risco poderá ser anunciada ainda em 2008 e com ela uma enxurrada de investimentos dos fundos de pensão americanos, asiáticos e europeus, algumas vezes maior que os recordes que hoje são motivo de festa.
  • O Brasil colherá a partir de março a maior safra de grãos de sua história, 136,5 milhões de toneladas. Com notáveis ganhos de produtividade.
  • Segundo a Manager Consultoria, o mercado de trabalho em janeiro de 2008 demandou 33% mais postos de trabalho que em 2007. Um número e tanto, a espelhar o ciclo de prosperidade que já estamos vivendo por conta dos investimentos públicos e privados em marcha e a saírem do papel.
  • Esse crescimento é registrado pelo aumento da arrecadação de impostos do governo federal em janeiro de 2008, nada menos que 20% maior que no mesmo mês de 2007. Com um detalhe: nesse ano não teve CPMF completa, apenas os resíduos de dezembro de 2007. O governo vai investir pesado nos próximos 3 anos: terá recursos, prioridades sociais e conveniências políticas de sobra para tanto. Só no programa Territórios da Cidadania serão investidos 11,3 bilhões em 2008. Pra não falar das obras do PAC, a continuidade do Bolsa Família...


***


Enquanto isso a oposição luta pra denunciar, em mais uma CPI, um ministro de estado que usou o cartão corporativo do governo para comprar R$8,30 de tapioca em Brasília.


***


Tá cada vez mais fácil entender o porquê de Lula surfar gostosamente nas ondas da popularidade, que tudo indica serem verdadeiras tsunamis até 2010.


terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

ALVINHO E CAE

a comic strip!

Fuçando aqui e ali descobri um lance legal, os tais programas geradores de caracteres. Menino, quando eu conseguir dominar essa ferramenta vai ser uma festa. Por enquanto sigo batendo a cabeça pra saber como retirar essa bosta de tarja que vai na borda inferior da imagem, gerada automaticamente pelo software. Se alguém souber como retirá-la ou souber de algum programa que não imponha isso ao usuário, avise-me por favor.


Na estréia do Blog do Galinho no mundo das histórias em quadrinhos, apresento a recente declaração do cantor, compositor, polemista, escritor, cineasta, articulista, arquiteto, urbanista e filósofo Caetano Veloso, desconcertado pela pergunta sobre o caráter do relacionamento dele com o jornalista baiano Álvaro Figueiredo.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

HOMENAGEM AO ESPORTE CLUBE BAHIA


O Esporte Clube Vitória perdeu ontem em Feira de Santana para o decadente Esporte Clube Bahia, em partida válida pela primeira fase do Campeonato Baiano de Futebol. Foi a segunda derrota no segundo BA-VI do ano, suficiente para pôr de molho as barbas da torcida rubro-negra contra o glorioso Vadão, técnico do time. A equipe mostrou-se mais uma vez confusa, sem o menor plano tático em campo, ruim de ver.

Deu ao seu contumaz saco de pancadas o gostinho de ganhar do representante da Bahia na série A do Brasileirão e, de quebra, a sua aguerrida torcida, a vertigem de sonhar-se campeã estadual -o que não comemoram desde 2001.

Um prêmio desproporcional aos fatos
, dados os critérios de classificação da disputa, que levarão para um quadrangular decisivo as mais bem pontuadas equipes da fase de classificação, que jogarão entre si partidas de ida e volta, sagrando-se campeão quem fizer mais pontos.

Em outras palavras, salvo insista no desempenho medíocre de até então nesse Campeonato Baiano, a história da disputa deverá ser contada em breve futuro da seguinte forma: o Vitória perdeu quando podia, ganhou quando era necessário e sagrou-se bi-campeão baiano em 2008.

Por enquanto, portanto, tudo bem. Manter o Bahia respirando com a ajuda de aparelhos é a melhor garantia de que haverá o que comemorar quando levantarmos a taça de campeões baianos pela 14ª vez nos últimos 20 anos, ao final da disputa de 2008, para o renovado desapontamento dos crédulos torcedores tricolores de Itinga.

Mas fatos são fatos e o Bahia ganhou de novo, merece crédito e aplausos pelo feito. Permito-me até afastar-me da paixão clubística que contamina -confesso- minha alma primitiva a muitos anos, a ponto de querer ver o Bahia ardendo no inferno da Série C para todo o sempre, para que a racionalidade futebolística comande o espetáculo desse ponto em diante e faça uma justa homenagem a essa lenda antes que ela se extingua de vez que é o Umbora-Baêa-Sua-Porra!. Nos seguintes termos:

1) O Baêa tem 6 de cada 10 torcedores aqui na Bahia. A despeito de haver quase 20 anos assistindo a esmagadora supremacia rubro-negra, a torcida tricolor é um fenômeno inegável de incompreensível entusiasmo e vibração. Um show de torcida esperançosa, presente até nos banheiros da Bombonera, estádio do Boca Juniors da Argentina, como mostra a foto enviada pelo notável tricolor Otávio Almeida e que ilustra esse post, lá em cima.

2) Os
hinos do Baêa-Sua-Porra e o do Flamengo são os mais belos do futebol brasileiro. O hino do Vitória, lamentavelmente, nem de longe tem o poder de fazer marchar legiões de torcedores à guerra, como o faz o hino tricolor. 2X0 pra eles.

3) A supremacia do rubro-negro baiano nas últimas décadas não foi capaz de inverter a vantagem tricolor em
títulos, nacionais e regionais. Teremos que pastar muitos anos ainda pra tirar essa diferença. 3X0.

Faço isso, reconhecer os méritos tricolores, para que ninguém sinta-se no direito de dizer que não sou capaz de manter-me equilibrado na hora de falar sobre as coisas do futebol baiano. Não e não.

Nessa fase Zen da minha vida -quase um ex-fumente, candidado a corredor, pedalador e yogue- imponho-me o dever de apreciar os fatos como eles são e não de acordo com as minhas paixões, certo?

Motivo pelo qual escrevi o que escrevi aí em cima e, não satisfeito, dou sequência, disponibilizando um vídeo postado no Youtube que é uma das gozações mais criativas que já vi contra o Vitória. Encontrei-o graças ao comentário do Daniel Pinto no Sarapatel, um blog publicado aqui na Bahia por uma delícia de gente chamada Marcia Rodrigues.

Lembram daquele vídeo em que um apresentador da TV holandesa tem um acesso de risos ao entrevistar um grupo de portadores de distúrbios da fala? pois é, pegaram esse vídeo e colocaram caracteres de "tradução" que tornaram a peça antológica, nesse formidável rol de gozações que fazem da paixão pelo futebol uma vivência acima de tudo divertida. Não perca a chance de dar boas risadas clicando duas vezes na setinha que vai ao centro do link do Youtube, a seguir.



Puxa, como é bom isso de ser justo e sensato, sabia? chego a me sentir mais leve, sô...

Quer saber? vou radicalizar e homenagear de vez a galera tricolor, que tomada de êxtase ontem no Jóia da Princesa, produziu as imagens abaixo. Que torcida entusiasmada, tô pra ver...






quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

A MORTE E AS MORTES DO NÃO-VIVER


O corpo do meu pai parou de funcionar definitivamente no 14 desse mês, após 70 anos de atividade. Mas muito antes do ato final regido pela falência múltipla de seus órgãos, inexoráveis escolhas foram feitas por ele. Seus últimos 12, 15 anos de vida foram marcados pelas consequências de uma estranha opção em deixar-se encharcar por prazeres que ele sabia que um dia transformariam-se em faturas.

Fumou 3 maços de cigarros dos 12 aos 41 anos de idade. Nunca apreciou exercícios físicos. Comia vorazmente tudo o que lhe estimulava a visão e o olfato. Seu pai, como seus irmãos, morreram por conta da diabólica combinação da diabete com variadas cardiopatias. Desprezou as altíssimas probabilidades genéticas de portar os mesmos males e fartou-se enquanto pode.

Mesmo depois de diagnosticada a diabete e o mau funcionamento do coração, reiterou a opção de mover-se por impulsos básicos e renovou seu passaporte na Feira de São Joaquim, ávido por rabadas e mocotós e feijoadas. Para onde ia de carro ou táxi, nunca a pé.

Um dia, o óbvio aconteceu: a máquina começou a apresentar graves sinais de debilidade, crescentes até a semana passada, quando parou de funcionar no Hospital São Rafael, onde tantas e tantas vezes fora internado anteriormente para estabilizar os males provocados por uma irreverência próxima à total negligência com seu próprio corpo. "Prefiro morrer satisfeito que viver sustentado por pés de alface", dizia ele recorrentemente.

Não ignorava as consequências de seus atos. Conhecia-os bem e assumiu que viver intensamente, ainda que morrendo aos poucos, era a melhor decisão a tomar. E assim o fez.

Não foram poucas as vezes que Mirza, sua segunda mulher, seu filho Pedro e sua cunhada Elza entraram em forte conflito com ele por conta disso. Esforços ditados pelo amor a ele mas inúteis, dada a firmeza da espantosa escolha feita por ele. Nas poucas vezes em que conversamos a respeito nunca tive a menor ilusão de que haveria uma reflexão seguida de mudança de hábitos. Ele morreria assim, estava certo disso.

Em 2006, tive um torcicolo dos diabos e depois de tomar uma porrada de remédios fui à clínica de um massagista chinês, próximo à esquina da Consolação com a Oscar Freire. Mãos de aço e muita sabedoria, assim ficou o sujeito gravado na minha memória. E também por uma recomendação: "Sua respiração é curta e pobre. A ansiedade está comandando suas ações numa idade em que você está fazendo suas escolhas finais. Cuide de si e aprenda a carregar sua cruz com mais elegância, companheiro", finalizou ao despedir-se na porta do consultório.

Esse encontro, junto com uma série de outros fatos que depois mostraram-se a ele correlatos, levou-me a banir de uma vez por todas o sedentarismo de minha vida, verticalizando a escolha feita um ano antes por viver em equilíbrio físico. Grande parte dos 17 kg eliminados o foram a partir desse dia, quando comecei a correr e pedalar regularmente. E prazerosamente.

Vivo agora a luta final contra o tabagismo. Os trinta cigarros diários foram reduzidos a 5 ou 6 e em algum momento me verei livre dessa dependência psico-química, se deus quiser. Talvez não a tempo de me livrar dos mais de 30 anos vividos na companhia dos Hollywoods. As escolhas corretas de agora não nos redimem das horrorosas opções do passado, infelizmente.

Meu pai se foi deixando risos e saudades, assim escolhi guardá-lo na lembrança. Legou-me também a certeza de que a inevitável falência do nosso corpo pode ser estupidamente promovida por meio de muitas formas de não-viver, como as que ele criou para si.

Morremos diariamente -e em doses consideráveis- vítimas da ansiedade, da indelicadeza, da respiração intoxicada, do medo de sermos felizes, fortes, sábios.

Morremos quando renunciamos viver a aventura de um grande amor. E quando negamos, teimosamente, o óbvio final desse sonho.

Aproximamo-nos da morte quando aceitamos que nossas pernas não mais podem conduzir-nos para um banho de cachoeira e que é quase impossível ser feliz sem uma lata de Coca-Cola ou de cerveja.

Curtimos um mórbido não-viver quando acreditamos que só um médico ou um psicoterapeuta pode nos fazer caminhar vigorosamente todos os dias, respirando gostosamente.

O
grand finale de caixão, velório e cemitério é, em última análise apenas isso, a última cena de uma vida de escolhas e mais escolhas.

Somos o que pensamos, o que sentimos, o que falamos, o que comemos, o que cagamos. Somos as opções que definimos para nós mesmos.

Sei não, pressinto que a aventura da vida é mais elementar do que gostaríamos que fosse.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

LEONAN MANTERO TOSCANO DE BRITTO














Pai
,


Há horas estou aqui na frente desse monitor pensando em você, aflito por um sopro de intuição que ilumine a melhor forma de dizer obrigado, te amo.

Que bobagem. Sou todo gratidão e amor por você, velho guerreiro. Não preciso esperar por nenhuma iluminação especial pra dizer isso.

Ano passado, aqui mesmo nesse lugar, voltamos a estar próximos, ainda que em cidades distantes mais de 2.000 km, lembra? nem me passava à cabeça voltar a Salvador naqueles dias.

Só eu sei o quanto fui feliz por saber-me perto de você outra vez. E como foi confortável abraça-lo tão logo cheguei a Salvador, em agosto de 2007.

Vi alegria em teus olhos, querido, desde então até a semana passada, quando mais uma vez fui ter com você no Hospital São Rafael. Eu os vi brilhando também ao rever, orgulhoso, Gabriel, seu primeiro neto e meu primeiro filho. E a Volney, meu irmão tão querido por você também.

No fundo, eu sabia que operava-se nesses encontros, como em outros que você teve nos últimos meses, um mágico ajuste de contas. Momentos de perdão e de reafirmação de amor entre pessoas fundidas num só elemento. Foi muito bom que assim tenha acontecido, Nan.

Hoje, ao ver seu corpo inerte naquele mesmo hospital, derrotado pela morte, senti-me absolutamente parte de você. E um pedaço de mim também morreu.

Amanhã, finalizados os ritos no Campo Santo, sinto que um novo tempo de diálogo recomeçará entre nós dois. Sem reticências, sem grilhões emocionais. Irei buscar em você, meu pai, a força e o justo conselho pra seguir adiante sempre que a vida impuser-me dúvidas e tristeza.

Como agora, quando meu peito não cabe de tanta dor.

Obrigado, pai. Honrarei, orgulhosamente, seu nome e sua memória.

Siga na paz. Um dia estaremos juntos de novo e para esse dia, por favor, providencie pra gente as coisas que você mais amou e me ensinou a amar na vida: mocotó de pirão com pimenta, cerveja gelada e mulher bonita. Combinados?


SUINGUE, ELEGÂNCIA, HENRI SALVADOR

Mr. Obama aparentemente ultrapassou Mrs. Clinton em número de delegados nas prévias do Partido Democrata. Digo aparentemente porque se nem o Idelber e a própria imprensa americana conseguem explicar como é que funciona a indicação de um candidato para as eleições americanas, não seria eu a incumbir-me de tão indecifrável missão. O que é certo é que o QG da senadora está em pânico, com seus dirigentes sendo substituídos na reta final e o dinheiro minguando. A Casa Branca vai ter que mudar de nome, pelo andar da carruagem.

Por falar em afrodescendentes, o triunfo do Bahia sobre o Vitória no último domingo me fez lembrar um velho dito: dever dinheiro a pobre é uma desgraça. Melhor dever R$100 mil a um banqueiro que R$10,00 prum pobre. A torcida do incolor baiano, feliz como mosquito em cu de cachorro, julga que voltou ao céu ganhando uma partida sem a menor importância pelos critérios de classificação do Campeonato Baiano. E tome comemorações e gozações, completamente desproporcionais ao feito. Coisa de pobre, fazer o quê?

Mas não foi pra falar de Barack Obama e muito menos do Ypiranga, digo, do Bahia, que vim aqui dedilhar meu teclado preto. Vim para homenagear Henri Salvador, que morreu hoje aos 90 anos de idade. Um craque nascido na Guiana e que fez-se ícone da música francesa e mundial. Influenciou decisivamente a música brasileira nos anos 50, inspirando gente do naipe de Tom Jobim e João Gilberto para a formulação sincopada da Bossa Nova.

Ouçam aí embaixo uma apresentação do elegantíssimo Salvador na TV Francesa, interpretando Dans Mon Île, que foi lindamente regravada por Caetano Veloso no final dos 70.

Henri Salvador legou-nos mais que um estilo jazzístico único. Deixou um rastro de suavidade, como um bom perfume francês.

Atualização: A dica gentilmente oferecida foi preciosa demais pra ser desperdiçada. Leia nesse link o texto de Dans Mon Île vertido para o português. Bonito pra dedéu, confira.



terça-feira, 12 de fevereiro de 2008

TOMA MADEIRADA, TOMA, TOMA...

O Mercado Municipal da Cantareira, o Mercadão da região da 25 de Março, em São Paulo, tinha acabado de ser entregue pela prefeita Marta Suplicy. Lindo, majestoso, verdadeiramente renascido. Uma homenagem justíssima aos paulistanos e aos antigos comerciantes do local.

Tava lá eu pra conferir a obra e comer sanduíche de mortadela e pastel de bacalhau, não exatamente nessa ordem. Conheci seu Juvenal, um dos mais antigos comerciantes do Mercadão, figura serena e bem humorada.

Do alto dos seus 70 anos de vida e mais de 50 vendendo ali azeitonas, queijos e mais uma porrada de delícias, afirmou estar profundamente decepcionado com a forma autoritária com que a Prefeitura conduziu a reforma do lugar. Segundo ele, os comerciantes simplesmente não foram ouvidos durante a fase de projeto arquitetônico e a conseqüência disso foi o aumento dos custos operacionais dos boxes, na medida em que a limitação de altura para os mesmos os obrigou a locar espaços próximos ao Mercadão para guardar suas mercadorias. Fiquei bolado, não era a primeira vez que ouvia testemunhos dessa natureza, dando conta da boa-fé caminhando de braços dados com o autoritarismo.

O fato é que a belíssima reforma foi feita, o movimento no Mercadão aumentou consideravelmente –beneficiando, naturalmente, seus comerciantes- e, pasme: muita gente falou mal da iniciativa da Prefeita.

Corto pra alguns anos depois. Carnaval 2008 de Salvador, homenageando a Capoeira.

Tem mestre capoeirista falando horrores dessa iniciativa. As críticas vão desde a falta de conhecimento dos gestores públicos para indicar quais mestres seriam indicados para representar o segmento durante as homenagens programadas até o valor oferecido aos mesmos pelos poder público. Uma merreca, segundo eles.

Resultado: os maiores nomes da capoeira da Bahia estiveram ausentes desse momento em que todos os holofotes do Brasil e do mundo voltaram-se para Salvador. Uma oportunidade de comunicação lamentavelmente desperdiçada.

O que tem a ver uma história com a outra?

1) Gerir, seja no campo da iniciativa privada ou do poder público, é aceitar que uns ficarão felizes e outros não. Aplausos e vaias estarão sempre juntas.

2) Os governos de esquerda padecem de crônica falta de qualidade na interlocução com a sociedade civil. Ao assumirem o paradigma do ítem anterior, escamoteiam a necessidade de ouvir pacientemente os cidadãos, tirando daí o suco necessário para a mobilização popular a favor de projetos potencialmente polêmicos.

3) Boa parte da militância de esquerda continua achando que basta o dedo do governador, ou do prefeito, ou do presidente para fazer acontecer tudo aquilo por que se lutou durante décadas. Orçamento, limitações jurídicas, milhões de outros pleitos a contemplar –parece que nada disso é capaz de impor bom senso na cachola de muitos “companheiros”.

4) A maledicência é a mais primitiva das práticas sebosas da alma humana. O comando incompetente o mais perverso.

O governador da Bahia, Jaques Wagner, soprou sua primeira velinha mês passado. Faltam três.

Ou sete, se for capaz de entender que as críticas sempre existirão mas que algumas poderiam ser evitadas, como as que nasceram após a tragédia da Fonte Nova. Gestores competentes, auxiliados por técnicos capazes de iluminar as decisões dos primeiros é o mínimo que se espera de uma administração pública eficaz. Exatamente o que faltou no episódio em que 7 pessoas morreram durante um jogo do Bahia, em dezembro.

Foi que concluiu o inquérito policial e o que denuncia o ex-diretor de operações da Sudesb Nilo Junior, nessa entrevista concedida ontem ao jornal A Tarde.

Erro não é convidar gestores incapazes para o comando de órgãos públicos. Erro é mantê-los empregados, para o azar dos cidadãos e do próprio governo.

Hora de ajustar as velas, Governador. E de reescolher corajosamente rota e tripulação para as próximas navegações. Antes que a Terra de Todos Nós torne-se a Terra de Todos Os Nós.

Transparência e boa vontade não serão suficientes para barrar a volta das sombras ao Governo da Bahia em 2010. Se ligue.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008

COM QUANTOS CARNAVAIS SE FAZ UMA FESTA TODA BOA?

A maior festa pública do mundo terminou hoje. Posso até imaginar o infográfico que a Folha de São Paulo pulicaria no caderno "Carnaval", fosse ela editada em Salvador: juntando-se as línguas que se entrelaçaram desde quinta 31 até as cinzas de hoje, daria pra ir a Plutão e voltar. Três vezes.

Estava aflito, confesso. Ansioso pra ver com esses olhos castanhos, que a terra haverá de comer logo após a Copa de 2062, se o Carnaval de Salvador sucumbira ou não à pasteurização, se tinha ou não virado um desfile. Se perdera ou não, enfim, aquilo que sempre foi sua melhor face: ser várias festas dentro de uma só farra coletiva.

Após ver o que vi nesse carnaval, lembrei do velho Josias. Do alto de sua inesquecível e escrota sabedoria de buteco, disse-me uma vez que entre as melhores coisas da vida estava "cagar fumando, fuder beijando e mijar peidando".

Foi um alívio e um Prazer, assim mesmo com P maiúsculo, ver a guitarra virtuosa de Armandinho no Rio Vermelho, na noite de sexta 01; as incontáveis batucadas e pequenos trios (alguns excelentes) colorindo a Mudança do Garcia -que não mudou nada, continua uma deliciosa esculhambação e a melhor tradução da alma festeira e prazerosa do povo baiano, a despeito do rastro de bosta deixado pelos equídeos usados pra puxar as carroças. Aliás, o Alcaíde de plantão, João Henrique, o Beócio, teria dado melhor contribuição ao lazer momesco dos munícipes soteropolitanos se puxasse uma delas.

A nota dissonante, como sempre, foi a atitude prepotente, autoritária e frequentemente violenta da Polícia Militar. Entra ano, sai ano, entra governo, sai governo -e continua ser um ato de risco passar por um cordão de PM's exibindo juventude e pele negra .

Mas nem o Prefeito nem a PM conseguiriam embotar a pluralidade dessa festa majestosa. A garotada transbordante de vitalidade e sedenta por muitos e muitos decibéis tinha uma infinidade de encordoados "blocos de trio" à disposição, no Centrão e na Barrondina; a turma da terceira idade tava lá, com seus dedinhos, atrás do Paroano Sai Melhor e de O Povo Pediu -maldosamente apelidado por línguas peludíssimas de O Povo Senil.

Afoxés e blocos afro pra dar de pau, ainda que apenas nas madrugadas, fora das grades de televisão; blocos pra turma da meia-idade, também tinha; caixas de som postadas às portas de infinitos butecos mandavam ver com seus pagodes, arrochas, reggaes e outras sonoridades afins ou nem tanto.

Arquibancadas e camarotes e sacadas e janelas: admirar o cortejo foi a opção de muitas outras pessoas, que desembolsaram nada, pouco ou muito para dar continuidade à velha tradição carnavalesca dos salões de clubes sociais, onde, em priscas eras, asssistia-se a festa comportadinha dos outros, o que um dia levou Caetano Veloso a decretar "todo mundo na Praça e manda a gente sem graça pro salão". Com a diferença de que agora fica-se de olha pra rua.

"Pipoca" só teve moleza no Rio Vermelho e na Mudança do Garcia. No caminho dos trios elétricos é puro sufoco. Isso só vai mudar se os trios independentes e os blocos descordoados forem fortemente patrocinados pelo poder público e/ou pela iniciativa privada, especificamente para esse fim. Um desafio para os próximos carnavais, que precisa ser assumido de uma vez por todas: "repipocarizar" e "descordoar" as ruas ao máximo, nos intervalos entre um bloco e outro, é fundamental para a preservação da espontaneidade, alma dessa festa.

Resumo da ópera: o carnaval de Salvador continua um luxo. Pode vir, imagens lindas como a dessa menina lá em cima, clicada por Fernando Vivas, tem aos montes. Gente doida pra dançar, beijar na boca e dar risada, então, nooooossa!

Escolha o seu Carnaval de Salvador que você quer curtir durante o Carnaval de Salvador de 2009 e seja feliz ioiô. Muito feliz, iaiá!

Festa carnavalesca sob medida, meu rei, só na esquina do paralelo 13 com o 38 de longitude. O resto, com o perdão da imodéstia, é desfile de uma nota só.

domingo, 3 de fevereiro de 2008

CARNAVAL E ELEIÇÕES AMERICANAS, PAULISTANAS E SOTEROPOLITANAS

Meninos, meninas: quem passou no Rio Vermelho nesse carnaval e na Festa de Yemanjá certamente ficou encantado, como eu, com a decoração do local. Entre outros elementos, foi amarrada no alto dos postes uma rede de pesca, repleta de peixinhos, conchas, estrelas-do-mar e outras cositas mas.

Bonito, adequado, criativo e de baixo custo. Como é bom ver artistas de grande valor interferindo na paisagem urbana, mesmo que de forma pontual como nesse período de festas populares da Bahia. Inspira, diverte e argumenta criativamente. Show!

Como show também foi a apresentação da fobica elétrica de Armandinho, Dodô&Osmar pelas ruas charmosas desse mesmo Rio Vermelho. Umas versão pocket do triozão, adequado para a limitação de altura imposta pela "rede de pesca" que decorou o lugar.

Uma delícia acompanhar Armandinho e Cia na rua depois de tantos anos. Dancei à beça e fiquei com a agradável sensação de que o tempo não passou, que ainda é possível ser "pipoca" no carnaval da Bahia. Quem me dera que a "repipocarização" e o "descordoamento" dessa festa encontrem no Rio Vermelho, ano que vem, seu melhor palco. E que não se cometa o equívoco de fazer desse bairro-sede da boemia baiana um point do carnaval de dedinho, aquele dedicado exclusivamente para a terceira idade.

A experiência de 2008 merece ser desenvolvida no próximo ano. Os palcos fixos montados para agrupar as tribos compuseram um clima de ecletismo musical, vi boas apresentações de rock e samba de roda. O reggae e o jazz também encontraram espaço para mostrar que o carnaval baiano sempre foi, acima de tudo, um caldeirão generoso na oferta de linguagens musicais. A experiência do Rio Vermelho pode dar muito certo, senhores gestores, tratem dela com carinho, por favor.


***


A disputa pela falida Prefeitura de Salvador vai esquentar quando os últimos acordes do carnaval decretarem o fim do curto verão baiano de 2008.

Todas as atenções serão voltadas para ACM Neto e Raimundo Varela. Ambos pertecem ao arco de forças centro-direitistas que até aqui têm no nome do ex-prefeito Antônio Imbassay seu candidato natural. Podem facilitar em muito a vida de Lídice da Mata, nome forte para agrupar as esquerdas baianas.


***


Situação análoga vivida em São Paulo, onde o casamento PSDB/DEM pode enfrentar séria crise se os insossos Geraldo Alckmin e Gilberto Kassab não se entenderem e lançarem candidaturas próprias.

Serra, com o apoio de FHC, joga pesado pela reeleição de Kassab. Apontam Alckmin como candidato da coligação para o Governo do Estado em 2010, quando Serra sairia para a disputa da presidência. Alckmin tem resistido à fortemente à idéia e pode, como Varela e ACM Neto em Salvador, dividir os votos centro-direitistas.

Nesse ínterim, Marta Suplicy surfa confortavelmente nas ondas das pesquisas de intenção de voto e aguarda os desdobramentos do imbroglio PSDB/DEM. Tá bonitinha na foto, a tia Marta.


***


Pegando fogo mesmo estão as convenções do Partido Democrata para a escolha do candidato que disputará a sucessão de Bush. Os senadores Barack Obama e Hillary Clinton chegam para a Superterça tecnicamente empatados. Pior para Mrs. Clinton, que vem perdendo terreno para Barack. Veja aqui os dados da pesquisa Gallup que o Idelber Avelar (O Biscoito Fino e a Massa) publicou.

Não dá pra acreditar que a política externa norte-americana sofreria uma mudança estruturante com a eleição de Barack. Taí uma ilusão que não tenho a menor intenção de alimentar.

Mas não é errado dizer que o ímpeto guerreiro e prepotente dos nossos riquíssimos vizinhos do norte sofreria um duro golpe com a eleição do primeiro presidente negro da história daquele país. E aparentemente, os senhores da grana de lá começaram a entender que a eleição do afronegão Barack significa que as mudanças tornaram-se inadiáveis e que o melhor é negociar os termos da transição. Tá começando a chover apoio pro cara, inclusive na grande imprensa.

Se eu fosse um deles, bateria um papo com seus pares no Brasil e da Venezuela. A eleição de Lula é um dos mais espetaculares cases de como negociar com um candidato de esquerda, de forma a preservar o "bom clima para os negócios", o que definitivamente não foi feito com Hugo Chavez.

Negociar civilizadamente -ainda que com dureza- sempre foi a melhor solução para qualquer tipo de impasse, principalmente na política.


***


Os pescadores e marisqueiras de Mutá acompanham atentamente a evolução da política paulistana, soteropolitana e norte-americana. Estão muito preocupados com o efeito dessas disputas sobre o quilo do aratu e do papa-fumo.