POR OUTRO LADO...

quarta-feira, 30 de abril de 2008

VALA? BANCO DE AREIA?!

Sempre que posso assisto o Sem Censura, programa de entrevistas da TVE do Rio de Janeiro pilotado por Leda Nagle. Vai ao ar nas tardes de segunda à sexta.

Leda é uma das melhores entrevistadoras da televisão brasileira. Conduz suas entrevistas com notável leveza e precisão, fazendo com que seus convidados sintam-se estimulados a falar, falar, falar.

Reune diariamente numa mesma mesa em torno de seis convidados, cada um falando sobre seus próprios conhecimentos, sem que o bate-papo vire uma zorra confusa e sem foco. Ao contrário, quando um fala os demais passam a comentar ou perguntar, mediados por essa excelente jornalista, VIP da TV Globo nos anos 70 e 80.

Formato jornalístico campeão, sou fanzaço do programa e de sua apresentadora. A pauta surpreendentemente diversificada garante o clima de conversa amena e inteligente, unindo numa mesma roda uma astróloga e um empresário agrícola, por exemplo.

Ontem esteve por lá o ex-surfista profissional e atual profissional dos negócios do surf Rico de Souza. Craque da prancha, Rico é referência, inclusive na internet, para o surf. Diante das câmeras, deu uma aula muito legal sobre marés, ventos, ciclos lunares e outros quetais.

Falou sobre valas e bancos de areia, explicando que as valas (ou marés de retorno) são usadas pelos surfistas para entrar no mar e os bancos de areia para dropar suas ondas, na direção da praia. Uma espécie de avenida expressa situada entre dois bancos de areia, onde a maré faz seu caminho de volta, afastando-se do continente. Uia!

Nunca tinha ouvido essas expressões e fiquei encafifado. Fuçando aqui e ali, descobri que o serviço de Salva-Vidas, nas praias, orienta os banhistas postando suas bandeiras de sinalização na areia, de acordo com as condições gerais das águas (mais ou menos altas) mas, principalmente, pela existências das Valas.

Segundo as estatísticas produzidas pelos corpos salva-vidas espalhados pela costa brasileira, quase 90% dos afogamentos nas praias acontecem nas valas, onde a força da correnteza arrasta qualquer pessoa para longe da praia, a 2 ou 3 metros por segundo. Quando o bonitão ou a bonitinha se dá conta, está a mais de 50 metros da praia e tenta, desesperadamente voltar pelo mesmo caminho. Não consegue porque o mais forte dos nadadores nada a 2 metros por segundo, ou seja, na melhor das hipóteses o sujeito se esfalfa em dar braçadas e mais braçadas e não sai do lugar, até cansar e afogar-se.

A saída, segundo os salva-vidas, é nadar paralelo à praia, até sentir que as águas estão no sentido de aproximação ao continente, por sobre os tais bancos de areia. Hora de voltar pra areia. Vivo.

Portanto, senhoras e senhores, da próxima vez que forem à praia prestem atenção à sinalização. Melhor ainda: batam um papo com a rapaziada salva-vidas sobre como identificar visualmente as valas e os bancos de areia. Não custa nada, os meninos têm bons conhecimentos técnicos sobre o assunto e vão te dar uma aulinha muito legal sobre essas e outras coisas do mar.

É isso, fui. Ah, a ilustração desse post nos tráz dois salva-vidas a postos na praia do Arpoador, Rio de Janeiro, anos 40.

domingo, 27 de abril de 2008

SENTA QUE É PIMENTA, BAÊA!!!


Tá legal, eu aceito o argumento que é totalmente clilchezão falar que o futebol é uma caixinha de surpresas. Ou mesmo usar a versão um pouco mais bem elaborada desse bordão, aquele que fala que é "por causa de resultados como esse que o futebol é o esporte maravilhoso que é".

Mas como escapar disso se o Baêa-Sua-Porra, potência de outrora do futebol baiano, dá um passo tão firme como o que deu há pouco em Feira de Santana, levando 3X0 do Vitória e perdendo por expulsão dois de seus principais jogadores (Marcone e Fausto), além do treinador, para a penúltima rodada do quadrangular decisivo do Campeonato Baiano, quinta-feira (1) próxima?

O Vitória assume a liderança da competição numa hora decisiva e passa a ter, pela primeira vez na competição, as maiores chances de sagrar-se campeão baiano de futebol. Pela 14ª vez nas 20 últimas edições, nunca é demais o registro.

Faz lembrar as incríveis viradas do próprio Bahia em cima do Vitória, nos anos 70 e 80. Quem tem mais de 40 anos lembra disso perfeitamente, o Bahia era o time da chegada eo Vitória o que sempre morria na praia.

Agora, ou melhor, há quase 20 anos a história é completamente outra. O Vitória passou a ser o time que não aceita perder título praquele timinho de merda, quer dizer, desculpe, para seu arqui-rival, nem que pra isso tenha que ir pra porrada, como fez brilhantemente hoje no Jóia da Princesa.

A despeito dos desastres promovidos pela diretoria rubro-negra nesse ano, quando contratou o que havia de pior disponível no mercado -a exceção de Rodrigão e Ramon, ambos em grande fase- ouviu-se hoje em Feira um rugido de campeão. Rugido que levou aquele timinho escroto, quer dizer, desculpe, o Esporte Clube Bahia, a se desesperar com a possibilidade de perder um título que todos davam como ganho e passar mais um ano sem títulos. Amarelou de verdade, o zagueirão Alisson que o diga.

Menino, que delícia ver a galera rubro-negra na arquibancada entoando "senta, senta, senta que é de menta!", como diz a musiquinha dos Cavaleiros do Forró, que eu tomei a liberdade da adaptar para o título desse post, pru mode amplificar a ardência causada pela perda iminente do título. A mesma galera que vaiou o time o Vitória na derrota da semana passada por 4X1 praquele timinho de bosta, quer dizer, desculpe, para o tricolor de Itinga e que foi à Toca do Leão em massa durante a semana para pressionar dirigentes e jogadores, exigindo garra e título.

Lindo, rapaziada, lindo. Tem muita água ainda pra passar debaixo dessa ponte até o próximo domingo, não ganhamos nada ainda. Mas que eu comecei a ver o leito do rio pintado de vermelho e preto, ah, isso eu tô vendo, sim senhor!

Do mesmo jeito que vi hoje a torcida incolor com a mesma cara de turista dinamarquês que acabou de enfiar os dentes num acarajé com pimenta saindo pelos lados.

Que menta que nada, meu camarada, aquilo foi pimenta mesmo, curtida desde que o campeonato começou. Uia!

quinta-feira, 24 de abril de 2008

VAI QUE É SUA, MESQUITA!

Escreveu-me ontem o velho Mesquita, lendário habitante da península itapagipana de Salvador e parceiro de farras memoráveis por lugares escrotésimos, na companhia de mulheres suspeitíssimas, para pouco dizer. Ô imundiça...

Pedia-me conselhos sobre como banir o sedentarismo de sua vida, sem torturas ou métodos infactíveis para um homem de quase 50 anos e que lembra ter jogado bola pela última vez quando tinha 14.

Mesquitão, meu velho, vou tentar alinhavar aqui o pouco que aprendi nesses últimos três anos, quando tomei a decisão que vc me relata estar prestes a tomar também. Se esquecer de algo que depois eu me dê conta como relevente, falarei ao vivo pra vc, quem sabe devorando um mocotó em São Joaquim...

1) Banir o sedentarismo é antes de tudo uma decisão que se forma lenta e consistentemente em nossas almas. Cada pessoa tem um tempo próprio para dialogar consigo mesmo sobre esse assunto e às vezes demora um pouquinho até calçar um tênis de boa qualidade e começar a dar seus primeiros passos. Não é perda de tempo fuçar os sites de "saúde" dos portais na internet enquanto essa hora não chega. Pesquise, conheça, familiarize-se, descubra o que puder sobre os benefícios para sua saúde e para sua auto-estima. Você vai dar musculatura à sua vontade antes de começar a dá-la ao seu corpo e isso, acredite, vai ser muito importante lá na frente quando a preguiça quiser tirá-lo do caminho que vc escolheu.

2) Seja humilde diante dos resultados iniciais. Vc está vindo de um longo tempo de inatividade física e o corpo, meu velho amigo, é uma entidade quase que autônoma, vc é mero hóspede dele. Trate-o como respeito e paciência, caminhando diariamente 30 minutos. Antes, faça um pouco de alongamento, isso ajuda muito a tornar sua caminhada mais eficaz e prazerosa. Repita no término do percurso.

3) Respire, respire, respire. Se ligue na sanfona que vc traz dentro do peito, é ela que fornece o combustível básico dos músculos e tendões do nosso corpo, o oxigênio.

4) Caminhe respirando profunda e calmamente, não se desligue disso. Lembra daquele velho dizer "barriga pra dentro, peito pra fora!"? faça isso, bacana: comece a avisar a rapaziada que sustenta o seu abdômem que vai começar a rolar um trabalhinho pra eles. Ídem pra turma que deveria estar segurando sua coluna, mantendo vc ereto, com o peito estufado.

5) Resumo da aula número um, meu camaradinha: chova ou faça sol, calce seu tênis e caminhe todo dia, se possível logo de manhã cedo. Você vencerá a etapa mais difícil dessa história de tornar-se fisicamente ativo se conseguir fazer disso uma rotina diária, inegociável. Postura ereta, barriga contida, respiração calma e profunda. Todo dia, todo dia, todo dia, é assim que se começa.

6) Ah, ia esquecendo: quando falamos caminhada, não falamos de um passeio feito com chinelo de dedo, lentamente. Caminhar aqui ganha o sentido de exercitar-se fisicamente, portanto larga mão de ser frouxo e dê alguma velocidade ao seu caminhar. Essa velocidade irá aumentar gradativamente, até ela começar a ganhar maturidade e querer ser chamada de corrida. mas isso é uma outra história, daqui a algumas semanas começaremos a conversar sobre isso, flws?

Para esse momento, era tudo o que eu tinha a pra compartilhar com vc, bacana. Não fique triste se não fui capaz de indicar-lhe algo que trouxesse resultados mais rápidos e mais espetaculares. É que nessa área, Mesquitalho, nada de bom e consistente acontece rápido, infelizmente.

Mas juro pra vc que quando acontece a vida muda magicamente e nunca mais volta a ser o que era. Vale a pena, persevere.

Enquanto isso, que tal banir a porra do refrigerante e das frituras do cardápio de segunda a sexta? nada de gorduras ou alimentos preparados com excesso de sal e óleo, pra poder ter crédito em chutar moderadamente o pau da barraca no final de semana, que tal?

Mantenha-me informado. Se você sustentar essa decisão firmemente por três meses, vai ser aprovado pra segunda fase, tá?

quarta-feira, 23 de abril de 2008

TÍTULO?!



Se a imagem não reclama apresentação, pra quê diabos serviria um texto?

Talvez apenas para evocar a lembrança de que a natureza não produziu cheiro melhor que o da nuca de uma mulher.

terça-feira, 22 de abril de 2008

QUANDO UM MAIS UM É IGUAL A ZERO


Quantas coisas legais para mim mesmo fiz nesses 45 anos caminhando pelas ruas desse Brasil varonil?

Fui pai pela primeira vez aos 19 anos. E novamente aos 21 e aos 23. Dei sorte, casei-me com uma mulher de primeiríssima e com ela segui durante duas décadas. Guardo-a amiga e fundamental companheira, nunca sairá do meu radar afetivo.

Apartamo-nos do convívio matrimonial há seis anos. Ela ficou em São Paulo e cuida de Sarah, nossa primeira neta. Acompanha de perto o crescimento de Mateus, o segundo filho de Fernanda, nossa última cria.

Eu acabei voltando sozinho, com duas mãos atrás, para Salvador. Disposto a concluir uma graduação em Direito que ficou pelo caminho e a dedicar menos tempo aos congestionamentos e mais às corridas ou pedaladas matinais, gostosas rotinas incorporadas ao cotidiano há três anos.

Nos planos, aprender a surfar, praticar Yoga e judô, tocar saxofone. E escrever muito, até entender como fazê-lo bem.

Sem contas a pagar nem rendas a auferir, como falava-se outrora, no tempo em que discurso homoafetivo era apenas papo de viado e as profissionais do sexo podiam ser chamadas de putas sem que nada houvesse de politicamente incorreto nisso.

Uma espécie de volta ao tempo, de ter 20 anos de novo e poder refazer escolhas, que dessa vez valerão para a velhice. Um desafio e tanto, que horas excita, horas amedronta, permanentemente inspira.

A única certeza é a de que nada será como antes. Ninguém escapa ileso de uma guinada de 180º, pelo menos eu não sairei e espero humildemente rir mais que chorar ao final de tudo isso. E incorporar algumas -não muitas- novas habilidades.

Digo assim, com sincera despretensão, porque já perdi a esperança de desenvolver, por exemplo, um senso estético mais sofisticado que o que tenho, que me faz achar Bergman um chato, Tom Zé um mala e essa porra desse prédio aí de cima, o edifício Caramuru, um "patrimônio" arquitetônico construído em Salvador na década de 40 -a meu pobre ver tão importante quanto milhares de outros espalhados pelo Brasil- que segue, contudo, impedindo o investimento de milhões de dólares de um grupo hoteleiro espanhol, disposto a mandá-lo pro caralho e construir em seu lugar uma torre capaz de gerar empregos, impostos e de quebra requalificar e vetorizar novos empreendimentos na há muito decadente região do Comércio, bairro histórico de Salvador que se fez importante em função do Porto, ali em frente.

Só minha mal disfarçada ignorância explica tal opinião sobre esse edifício, recém-tombado pelo IPAC. Vai ver que de tanto babar com as criações de Le Corbusier, Gaudí e Niemeyer fiquei impregnado de monumentalidade na apreciação da arte arquitetônica, utilizando-me quase que exclusivamente desse viés para reconhecer valor no que vejo nesse campo.

Ou é essa confessada linitação intelectual ou a compreensão de que a Bahia precisa querer crescer, querer atrair novos investimentos, querer fazer desse lugar um ambiente acolhedor para os negócios e superar seus deprimentes índices sociais, entre os cinco piores do Brasil. Quem sabe a combinação das duas coisas, vai saber...

A cidade campeã brasileira do desemprego e da má qualificação educacional/profissional de seu povo não tem o direito de desprezar olimpicamente as iniciativas empresariais que possam contribuir para a superação desse clima de completo desacontecimento produtivo. Os investimentos públicos, estaduais e federais, ausentes nas últimas duas décadas, aumentarão fortemente nos próximos 2, 3 anos mas não serão suficientes para pôr a Bahia em trilhos de desenvolvimento econômico consistente e duradouro.

Isso só acontecerá quando a grana privada entrar no jogo pra valer, investindo forte na indústria do turismo e na da transformação, alterando o triste retrato de hoje, em que o estado importa praticamente tudo o que consome, de roupas à farinha nossa de cada dia.

Até quando admitiremos tanta inação embalada em discursos que se pretendem fiéis depositários da verdade urbanística e da cidadania? quantas décadas mais assistiremos intelectuais desgarrados das necessidades reais de desenvolvimento do estado impondo conceitos tão sofisticados quanto pretensiosos e incompetentes, que quase sempre levam ao nada, ao zero, a lugar algum?

Dizer não é fácil, qualquer sumidade pós-doutorada na reprodução dos sariguês tem a condição de erguer uma muralha de argumentos bem-intencionados contra uma proposta de investimento.

Quero ver é ter a competência de estabelecer marcos regulatórios que impeçam a sanha predatória dos empresários da contrução civil, por exemplo, sem espantar seus tão necessários recursos para o crescimento desse lugar.

Não precisamos de empresários que promovam o trabalho escravo e a destruição dos nossos recursos naturais e culturais, estamos de acordo.

Não aplaudo uma releitura de gabaritos de edificações que permita o sombramento de nossas praias e a obstrução da brisa para o interior da cidade por conta do emparedamento da orla.

Mas não estamos de acordo quando o assunto é criar regulações intransponíveis, como se vivêssemos numa aldeia hippie e fôssemos os guardíões da pureza, onde a mão suja da iniciativa privada jamais conspurcará.

À merda com tanta poesia canhestra. O século XXI já vai longe, Bahia.

Levanta dessa cama perfumada de alecrim e vamos trabalhar!

sábado, 19 de abril de 2008

A REINVENÇÃO DA COOPTAÇÃO


Uma das manifestações mais comuns do jogo político, desde que o mundo é mundo e desde que fundaram o PMDB, é o grupo no poder atrair com cargos e outros benefícios outras correntes políticas. Nada de novo ou fundamentalmente errado nisso, principalmente para os profissionais da política, dotados de estômago forte para negociações dessa natureza.

Política se faz com sócios e cada um recebe o que lhe é devido pela proporção conquistada. Tudo certo, pois.

O que começa a me deixar inquieto é o que parece ser a reinvenção desse jogo, em que os menos poderosos parecem astutamente impor como algo da grande política a necessidade dos maiores submeterem-se à alianças onde sua própria matriz ideológica seja diluída. Uia!

Parece muito ser isso o que está acontecendo em Minas, onde Aécio Neves habilmente costura uma aliança com o PT em que só ele, Aécio, terá a ganhar.

Idêntico movimento acontece em Salvador. Imbassahy, cria moderninha do finado ACM, tem sua imagem sendo lapidada para que em algum momento TODAS as candidaturas de esquerda se vejam diante da inevitabilidade de aceitar que o atual presidente do PSDB seja o principal ator das próximas eleições em Salvador.

Diferentemente do tom mais duro usado pelo PT de São Paulo com o PMDB de Orestes Quercia, que está recebendo, nas negociações com Marta Suplicy, o devido tratamento de sócio minoritário, significativamente diferente do tratamento VIP recebido por Geddel Vieira Lima do governador Jaques Wagner.

Antes que a serpente choque seus ovos nessa velha cidade da Bahia, melhor colocar as coisas nos seus devidos lugares. O partido vencedor no estado e no país foi o PT. As propostas aceitas pela população foram as que o PT apresentou.

E por fim, as forças políticas que foram claramente rejeitadas pela população baiana e brasileira são as mesmas que agora se apresentam como ótimas gestoras e paladinas da moralidade -o DEM e o PSDB.

Aliança é necessário e faz bem. O PT demorou muito pra entender isso. Mas não precisa repetir experiências pendulares e mal sucedidas quando o assunto for política de alianças.

Da barriga daquele puta cavalo imenso lá de cima, dado em presente ao povo de Tróia, só saiu morte e dominação.

Melhor ficar esperto.


quinta-feira, 17 de abril de 2008

O DISCURSO DA GESTÃO E AS ELEIÇÕES EM SALVADOR

Luiz Inácio Lula da Silva é o maior nome da política brasileira de todos os tempos. Nunca tive o menor pudor em declarar isso nesse puleiro eletrônico.

Mais que um pau de arara que virou presidente de uma das 10 maiores economias do mundo, Lula fez-se vitorioso ao encarnar o discurso de que o Brasil precisava orientar seu crescimento fazendo da inclusão a mais necessária das bandeiras.

Introduziu, vitoriosa e inexoravelmente, a universalização dos serviços públicos na agenda política do país. Nada e ninguém, a partir de seus dois mandatos, ficará em pé na cena política brasileira sem atender a essa exigência popular.

É fácil entender a lógica popular que consagrou Lula. A população sabe que paga impostos caríssimos mas usa, para julgar as crenças políticas, sociais e conômicas de seu principal governante, o mesmo critério que usa para comprar uma geladeira nas Casas Bahia: o juro é alto mas resolve meu problema e cabe no meu bolso.

E tome Bolsa-Família, tome Fundeb, tome Pronaf, Prouni, Territórios da Cidadania, PAC, Reuni...a lista de programas -muitos deles de alto valor estruturante- é longa e refletem o desejo básico da sociedade brasileira, o de serviços públicos universais e de boa qualidade.

As eleições municipáis de 2008 já trarão na agenda o que deverá ser a grande demanda a ser atendida nas eleições presidenciais de 2010, o salto de qualidade nos serviços públicos. Ou seja, consagrada a percepção popular de que é possível eleger gente comprometida com um padrão de cidadania significativamente superior ao que sempre foi oferecido ao povo brasileiro, a exigência será cada vez maior.

Serão eleitos os candidatos que provarem capacidade de satisfazer essa demandas por serviços melhores.


Teoricamente, a esquerda daria uma lavada na centro-direita brasileira nesses pleitos municipais. Têm a facilidade de posicionarem-se em seus municípios como fiéis depositários do projeto político vitorioso em 2002 e 2006 e nomes óbvios para a gestão dos primos pobres da Federação, as cidades.

Mas não é isso o que vai acontecer na maioria das grandes cidades brasileira. Veja-se o exemplo de Salvador, capital da Bahia.

Antônio Imbassahy, cria política de ACM alçado à presidência do PSDB local, duas vezes prefeito e com ótimos índices de avaliação popular enfrentará uma disputa em que deverá obter uma votação consagradora. E de quebra firmar-se como um nome de peso da política estadual e nacional. A centro-direita moderninha e com cara de gestora competente cabe direitinho no figurino de Imbassahy, muito parecido aliás com o discurso de José Serra, governador de São Paulo.

Parabéns pra ele, pêsames para a velha cidade da Bahia, que vai ganhar mais e mais granito nas ruas e laudatórias reportagens na imprensa.

Contribuirá para isso a velha e enjoada vocação para a derrota da esquerda baiana, às voltas com uma provável pulverização de suas forças e um desembarque tardio e desastroso da gestão João Henrique, atual prefeito da cidade. Os insosssos Pelegrino e Pinheiro disputam a tapas o privilégio de ser o nome do PT a ser esmagado por Imbassahy e Raimundo Varela, este último um comerciante da opinião em cartaz diariamente nas rádios e TV's baianas.

Nas vizinhanças nenhum nome empolga. Olívia Santana, do PC do B, tem as mesmas chances de ser eleita prefeita da Bahia quanto eu de ser governador de Tocantins em em 2010.

O nome da deputada Lídice da Mata, que insiste em manter silêncio sepulcral sobre o assunto, parece ser o único capaz de anunciar-se capaz -se bem apresentado do ponto de vista publicitário- de unir o discurso vitorioso da inclusão representado por Lula e, espera-se, de Wagner, com a postura crível de administradora pública competente.

Na falta de um nome forte enquanto gestor público, como o de José Sérgio Gabrielli, atual presidente da Petrobrás, Lídice ocupa a posição de Davi na luta contra os Golias da política municipal soteropolitana, turbinados que serão pela mídia local, órfã do poder desde a derrota de Paulo Souto e a morte de ACM.

Resumo da ópera: a nova e moderninha direita liberal-privatista vai voltar a pôr um pé no poder executivo baiano por meio de uma vitória esmagadora em outubro próximo se a esquerda baiana não reunir forças em torno de um único nome.

Ingenuidade pensar que ACM Neto, Paulo Souto, Geddel, Imbassahy, Varela e o próprio João Henrique não estarão juntos na hora da onça beber água. Esses homens conhecem e vivem do poder, além de terem a exata noção que política executiva é feita com sócios e que cada um tem que levar a parte que lhe couber.

Essa virtual conquista, anote, é o ovo da serpente que a esquerda assiste, impávida, ser colocada no seu quintal. Vai chorar por isso.

segunda-feira, 14 de abril de 2008

PRA QUÊ TANTA ÁRVORE ASSIM, MEU REI?!


Quem vive em São Paulo e não curte seu circuito cultural e seus parques tá fudido. Sobra pouco além da violência, da poluição e dos enlouquecedores congestionamentos. Ah tá, tem os shoppings também...

Desde que me viciei em praticar exercícios físicos, coisa de uns três anos, incorporei o hábito de enxergar as cidades por onde passo por esse viés, o de lugares públicos para correr. E descobri que a megalópole paulistana cuida melhor de seus parques e jardins que Salvador e Rio de Janeiro, pra ficar em dois exemplos que conheço de perto.

Semana retrasada fui tentar correr no Parque da Cidade, aqui em Salvador, um espaço público que poderia ser útil para esse tipo de uso. É suficientemente grande, ricamente arborizado, ótima localização.

Fiquei na tentativa. Os soldados da briosa Polícia Militar baiana que lá estavam, posicionados no início das alamedas, aconselharam-me a não dar a volta por trás do Parque, onde um muro e um portão de acesso fazem a ligação e a separação do mundo organizado da Pituba e do Itaigara com as paredes sem reboco do Nordeste de Amaralina e da Santa Cruz.

Era grande o risco de assaltos, segundo eles. "Vai tomar no cu", resmunguei baixinho, antes de agradecer pelo serviço de segurança, digo, de informação da PM.


Broxei. Como é possível essa velha e charmosa cidade do litoral nordestino do Brasil só ter, na prática, um único parque pra quem quiser correr, caminhar ou dar umas gostosas pedaladas, o Parque de Pituaçu ? a terceira opção, o majestoso Parque de São Bartolomeu, foi simplesmente abandonado, com seus córregos e cachoeiras, pelo poder público.

É como se bastasse a praia para que o lazer público e o turismo estivessem resolvidos. Ou seja, se tem 50 km de orla marítima- mal cuidada também, a propósito- pra que diabos servem parques, com suas árvores e mosquitos?

Salvador tem uma densidade arborífera das mais baixas do Brasil, não poderia surpreender esse grosseiro tratamento dado aos espaços públicos como os parques e jardins. Mas espanta sim, espanta e entristece.

Enquanto a cidade despreza a importância dos parques como ferramentas de turismo inteligente e da saúde pública -seja pela melhoria do ar que a população respira ou como instrumento de lazer saudável e ambientalmente importante- fica a dica: conheça São Paulo, se você gosta de árvores e de parques bonitos e bem cuidados..