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domingo, 1 de novembro de 2009

NEGUINHO DO SAMBA, DO OLODUM, DA BAHIA


O anúncio da morte prematura do maestro Neguinho do Samba é notícia capaz de instantaneamente produzir tristeza, saudade e um mau humor do cacete.

Neguinho foi protagonista de uma revolução estética e social da maior importância para a trilha sonora carnavalesca da Bahia, ao criar um arranjo percussivo que universalizou a música dos guetos soteropolitanos, no final dos anos 70. Até ali, a hegemonia trioeletrizante de Dodô & Osmar dividia as atenções apenas com os blocos de sopro&percussão e com as suculentas batucadas populares sem nenhum demérito a essas delícias musicais, que ainda hoje podem ser saboreadas na Mudança do Garcia e nas festas do Bonfim e Rio Vermelho. Neguinho e o Olodum deflagraram uma irrefreável expansão do núcleo musical do carnaval baiano, que já não comportava tanta diversidade estética represada.

Desde 1979 ir ao Pelourinho na sexta à noite ver o Olodum subir a ladeira e ganhar a avenida passou a ser rito obrigatório da agenda carnavalesca, cumprida com indisfarçavel euforia por milhares de pessoas que para lá eram atraídas por aqueles tambores implacáveis.

Aquela batucada majestosa me fazia chorar de êxtase todos os anos, só quem esteve lá sabe direitinho a força deslumbrante liberada por aqueles tambores, ecoando nas fachadas e no peito arrepiado de brancos e pretos, que amiúde não sabiam porque aquilo era tão bom, mas que intuiam bem que eram testemunhas de algo muito, muito singular. A mesma singularidade que atraiu ídolos pop dos Estados Unidos e de outras latitudes menos votadas.

Aquela sonoridade única e arrebatadora, imediatamente apelidada de samba-reggae, teve autoria coletiva, típica das criações percussivas dessa ordem. Mas até as pedras do velho Pelô sabem que o sopro vital e arte-final dessa obra teve sim um autor, ou melhor dizendo, um regente, um grande maestro: Antonio Luis Alves de Souza, esse Neguinho do Samba que acaba de morrer aos 54 anos de idade.

Inovou lindamente a cena percussiva baiana com a mágica fusão do reggae jamaicano, já então elemento constitutivo do DNA musical baiano, com o samba levado na palma da mão derivado do visceral samba-de-roda do recôncavo. É sacanagem, uma porrança toda que nem aquela, executada por centenas de tambores de variados timbres e uma única vontade de musicalizar a vida e o carnaval, só poderia resultar numa espécie de exaltação pública capaz de pôr milhões num transe de alegria e de prazer. Lindo mesmo, um luxo.

Neguinho deu aulas públicas no Largo do Pelourinho, em muitas sextas mágicas de carnaval, de como reger uma experiência social e musical no plano da excelência. Eu vi muitas delas lições de vigor, de compromisso, de talento, e essa vivência dá conta de boa parte da profundidade dos laços afetivos que me ligam a este velho lugar e a esta gente mulata.

Quem esteve lá naquela época, perto do maestro, vai certamente lembrar de uma constante daquelas lindas exibições do Olodum: a concentração da bateria no Largo do Pelourinho.

Ali, Neguinho não deixava barato a displicência de qualquer membro da bateria que não estivesse ligadíssimo na sua batuta, minutos antes do Olodum e sua gente orgulhosa sair às ruas pra desfilar seus sons e história: todo ano um deles era severa e publicamente censurado, além de ser "convidado" a deixar o instrumento no chão e ir embora. Com casca e tudo, Neguinho não admitia desleixo na sua bateria. Quem não estivesse de acordo com tanto rigor, podia procurar baterias menos exigentes, como a do Ilê Ayê, por exemplo, fosse com Deus...

Fará uma falta danada a uma Bahia que vive um dos mais negros períodos de sua história, vítima de uma safra incrivelmente medíocre de intelectuais, artistas e políticos, salvo raríssimas excessões (a Rumpilezz de Letieres Leite, que se apresenta hoje no SESC Vila Mariana de São Paulo, é certamente uma delas). Almas sebosas do quilate de João Henrique Carneiro, exemplo de grosseria e canastrice reconduzida à prefeitura de Salvador. Gente incapaz de tocar qualquer experiência surpreendente, inovadora, brilhante, credenciada a empurrar fronteiras para um pouco mais adiante. Como fez esse sujeito bacana que acaba de ir embora, a deixar-nos ainda mais órfãos de exemplos virtuosos, talentos e esperança.

Beleza, Negão, você fez a diferença nesse tempo de iguais, que se bastam "todos enfiados" nessa escuridão moral e intelectual que vivemos aqui na velha cidade da Bahia.

O mesmo desiluminismo que faz com que muitos, por indulgência até, achem normal o mais importante jornal da província afirmar que -pelos culhões de Saturno!- o maestro morreu por consequência de uma parada cardíaca. Como se algo diferente tivesse acontecido com todas as pessoas que morreram nos últimos 500 mil anos.